A Ética Pessoal

A ética pessoal esta voltada mais para a ética de virtudes. Para Aristóteles a ética das virtudes, que se resume em, ao cultivarmos as virtudes estaremos em um trabalho crescente de autoconhecimento e melhoria de caráter, buscando a “felicidade” que pode ser interpretada como a busca pelo bem comum.

A maior das virtudes segundo Aristóteles é a justiça. “A justiça” é a virtude completa no mais próprio e pleno sentido do termo, porque é o exercício atual da virtude completa. Ela é completa porque a pessoa que a possui pode exercer sua virtude não só em relação a si mesmo como também em relação ao próximo, uma vez que muitos homens exercem sua virtude nos assuntos privados.

Porém como somos uma sociedade ocidental e em sua grande maioria Cristã, busquei nos ensinamentos de Jesus Cristo e de seu Apóstolo Paulo a ética cristã e suas virtudes, encontradas principalmente no Evangelho de Mateus Capítulos 5, 6 e 7, no famoso Sermão da Montanha onde Cristo define toda ética cristã, e na Carta do Apóstolo Paulo 1º aos Coríntios Capítulo 13 onde trata do amor como a maior das virtudes, sendo as outras parte deste.

Virtudes

É célebre a dissertação do Apóstolo Paulo sobre o amor. Em resumo, diz ele: “Se eu falar a língua dos anjos; se tiver o dom da profecia e penetrar todos os mistérios; se tiver toda a fé possível, a ponto de transportar montanhas, mas não tiver amor, nada sou; ainda que eu distribua toda a minha fortuna para sustento dos pobres, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. Entre estas três virtudes: a fé, a esperança e o amor, a mais excelente é o amor.”

Sem vacilar, põe o amor acima da própria fé. E o faz porque, na verdade, o amor está ao alcance de qualquer pessoa: do sábio, do ignorante, do pobre, do rico, e porque independe de toda crença particular. Faz mais ainda: distingue-a da simples esmola. Embora inclua a beneficência, o auxílio material ao próximo, o verdadeiro amor resume todas as qualidades do coração, na bondade e benevolência para com o próximo.

A benevolência define-se como o “desejo de fazer bem aos outros”. A bondade leva-nos à realização desse bem. Já ouvimos falar da “lei de ação e reação” ou “lei de causa e efeito”. Ninguém é benévolo, ninguém é bondoso sem que isso resulte em extraordinários benefícios para si mesmo. Dando, recebemos, e mais ainda do que demos. No sentido moral, é claro. Quando damos do tesouro do nosso coração.

Virtude não menos excelente, que decorre do amor, é a tolerância, que não se traduz por necessidade de mudar de opinião, mas por “reconhecimento do direito que têm os outros de terem opiniões próprias”. Mesmo em política, é qualidade essencial para uma perfeita democracia. Todos conhecem as célebres palavras de Voltaire: “Não concordo com uma só palavra do que dizeis; mas defenderei até a morte o vosso direito de dize-lo”.

Por que decorre a tolerância do amor ? Porque quem ama respeita e valoriza o próximo, aceita-o como ele é. Faz mais: nele distingue as boas qualidades. “Nunca encontrei uma pessoa de quem eu não gostasse”, afirmou um autor norte-americano. Isso não quer dizer que ele sempre gostou de tudo em todos, mas que buscou, invariavelmente, a parte boa das pessoas.

Em todos nós alternam-se boas e más qualidades. Basta-nos um olhar mais ou menos interessado sobre a população da Terra para constatar este fato muito simples: aqui não é a morada da perfeição. Por isso afirmou o Prof. Pedro de Camargo que o homem é “obra inacabada”. Não é perfeito, mas perfectível.

Se do amor decorre a tolerância, desta decorre o perdão. Quem ama perdoa, perdoa sempre. Contam os escritores bíblicos que um dia o Apóstolo Pedro perguntou ao Mestre: “Senhor, quando o meu próximo pecar contra mim, quantas vezes deverei perdoa-lo? Sete vezes?” E o mestre respondendo, disse: “Sete vezes, não; setenta vezes sete”. O que significa: sempre, invariavelmente.

O perdão é o esquecimento das ofensas. Há, contudo, criaturas de tal sorte amorosas que nunca precisam perdoar, simplesmente porque nunca se ofendem. É provável não sejamos ainda assim perfeitos, donde a necessidade da observação constante de nós próprios. Por que somos tão suscetíveis, por que nos ofendemos com tanta facilidade?

A suscetibilidade é a manifestação aguda do amor-próprio. Somos psicologicamente condicionados, nossos conceitos de honra e respeitabilidade quase sempre se opõem ao perdão. “Educaram-nos” para sermos honrados e respeitáveis. Quem não se lembra de um pai inadvertido dizendo: “Seja homem! Homem não leva desaforo pra casa!” A “honra” da família, do grupo social, da pátria, tudo leva à ofensa, à mágoa, à ausência do perdão. Quando não essa honra, os nossos “direitos”.

Ouvimos falar com muita freqüência em direitos e deveres, em responsabilidade. As pessoas muito respeitáveis adoram esses termos. Não diremos que inexistem direitos, deveres, responsabilidades. O senso de justiça é inato no espírito humano, serviu, até, para uma das célebres bem-aventuranças do Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que têm sede de justiça”. Mas em seu nome muitas iniqüidades se têm cometido.

As pessoas verdadeiramente amorosas não são propriamente respeitáveis; serão, isto sim, respeitadoras. Não vivem a clamar por direitos, embora os reconheça sempre no seu próximo. Nada fazem por responsabilidade; fazem muito, mas por amor.

Bem considerado, nada mais é o amor-próprio senão uma das faces do egoísmo. Por isso são duros e irascíveis os que o têm. O homem simplesmente respeitável, que por amor-próprio preza e defende o próprio eu vive em circuito fechado. Por que esquenta o ferro de passar roupa, ou a água do chuveiro? Porque esses objetos têm uma resistência em circuito fechado. Se em tempo hábil não forem desligados, estouram.

Dissemos atrás que o amor “é um sair de si mesmo”, um doar-se, um comunicar-se natural e espontaneamente. O homem de tenso amor-próprio, de intenso egoísmo, não se comunica. Ensimesmado, fechado em si mesmo, zeloso dos conceitos e opiniões que lhe dão uma aparente segurança, vive e morre só, ainda que cercado de muita gente.

Daí a necessidade premente de bem examinarmos o nosso peculiar condicionamento psicológico. Pela tradição, vieram-nos inumeráveis conceitos e preconceitos, opiniões as mais diversas, uma infinidade de deveres e não-deveres, de feios e bonitos, muitas idéias, muitos imperativos, e a tudo isso nos agarramos porque precisamos de estar seguros. Mas a verdade é que a segurança psicológica não existe. Tudo é mutável, e dá mostra de inteligência e desenvolvimento mental aquele que o percebe. Nem é outra a definição de inteligência pela maioria dos psicólogos: “capacidade de ajustamento a situações novas”.

Ora, a transformação moral de que temos falado nesta obra refere-se a um constante ajustamento. Aquele que se fecha em seu pequenino ego nunca se transforma, nunca é uma nova criatura, nunca “desveste o homem velho para se revestir do homem novo”.

O mundo atual precisa de homens novos, de criaturas renovadas, capazes de romper com o passado, de perceberem claramente os malefícios provenientes desse condicionamento psicológico e por esse percebimento libertarem-se. “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

A verdade somos nós mesmos, porque existimos, porque vivemos. Conheceremos a nós mesmos e seremos livres, porque uma das conseqüências naturais do autoconhecimento é o libertarmo-nos da tradição com toda a sua carga de prejuízos. “Não se põe vinho novo em odres velhos, nem remendo de pano novo em tecido antigo; do contrário, fermenta o vinho e rompem-se os odres; ao lavar-se o tecido, encolhe o remendo novo e o rasgão é maior”.

Essas palavras do grande Mestre de Nazaré quase não precisam de interpretação. Nós somos os odres velhos, porque tradicionais e tradicionalistas. Nós somos o tecido antigo, porque antiquados, apegados, medrosos da renovação. Daí as teias de aranha, a fuligem, a ferrugem a obstruir o tesouro do nosso coração. À medida que nos transformamos, alimpa-se esse tesouro, e revela-se em toda a sua plenitude. E dele tiramos o conteúdo inesgotável: o amor , a benevolência, a bondade, a tolerância, as boas qualidades que em todos nós estão em potencial e chamam-se, por isso, potencialidades.

Desse tesouro tiramos a coragem. De que coragem grande precisa o homem para ser ele mesmo e não o eco ou a sombra dos outros! Viver corajosamente é encarar de frente o próprio eu. Nunca deseperar-se com o que nele encontra, mas examiná-lo criteriosamente, sem condenações nem racionalizações apressadas.

Tiramos a cortesia, sentimento de bondade, de fundo interesse pelos nossos semelhantes e que se manifesta em maneiras agradáveis, não por deveres de etiqueta, mas pelo desenvolvimento de uma absoluta excelência moral, É naturalmente cortês, afável, a pessoa, comunica-se facilmente com o ascensorista, a garçonete, o lixeiro, tanto quanto o faz com os chamados “importantes”do mundo.

Também o caráter tiramos desse tesouro. Que é o caráter? Aquilo que o homem realmente é. Difere, portanto, da reputação, da respeitabilidade, ou seja, daquilo que ele aparenta ser.

Também uma disposição alegre e otimista, também uma grande decisão, uma determinação constante em tudo o que empreendemos e sobretudo na funda transformação moral que é a nossa meta. São de Prentice Mulford estes versos: “A força que te impele para a frente é a decisão firmada em tua mente”.

Desse tesouro tiramos a modéstia, e a humildade que não se traduz por uma pobreza exterior (há ricos humildes e pobres orgulhoso), mas precisamente pela ausência do orgulho, da soberba, da vaidade, da arrogância. São palavras do Mestre Nazareno: “Aquele que se exalta, que a si mesmo se engrandece, será humilhado; o que se humilha, será exaltado”.

Dele tiramos a paciência, virtude das virtudes quando eclosão autêntica do nosso desenvolvimento mental. “Na vossa paciência possuireis as vossas almas!” A paciência confere integridade. O homem impaciente, que se desespera, que deblatera e grita, que se revolta e amaldiçoa, esse não tem integridade, é “uma cidade dividida contra si mesma”. Nem é a esquizofrenia senão uma quebra da individualidade. Possuir a própria alma é ser dono de si mesmo; é ter uma grande serenidade mental; é manifestar-se harmoniosamente em todos os instantes, em toda e qualquer circunstância; é viver numa profundíssima paz interior, que propicia a compreensão de todos os problemas.

Portanto, o amor é a essência das virtudes. No verdadeiro amor estão incluídas todas as virtudes que necessitamos para um viver em sabedoria, paz, tranqüilidade, respeito, honradez e dignidade.

Desse tesouro inesgotável tiramos, sobre todas as coisas, o amor, que às mais virtudes engloba; porque dele todas derivam, e para ele todas convergem; “o amor que move o Sol e as mais estrelas”; o amor, que é o próprio Deus.

“O amor é paciente, é benigno. O amor não inveja, não se vangloria, não se ensoberbece; Não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; O amor não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade”. (Apóstolo Paulo)

Paulo Roberto Martinez Lopes
julho,2009

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