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Bruno Leal

Ver o próprio nascimento – memória e identidade no mundo contemporâneo

Durante uma conversa de almoço com uma amiga muito querida que está grávida, falamos sobre o costume que muitos casais têm hoje de filmar o nascimento dos próprios filhos. Eu nunca havia parado para pensar seriamente sobre isso. Hoje eu parei. E não me arrependi.

Tudo começou quando refleti sobre sentimentos e sensações que devem ser formuladas por quem vê o próprio nascimento na tela de um vídeo, anos depois. Estamos falando de uma geração que pela primeira vez na história possui a oportunidade de ver o próprio “vir ao mundo”, a primeira respiração, o primeiro choro, o choque com o “outro” e com o ambiente, com direito a sons, cores, qualidade na imagem e outras modernidades que ainda seremos apresentados. Sim, pois desde que as câmeras de mão caseiras se popularizaram, e isso já tem pelo menos uns 25 anos, as pessoas podem ter esse tipo de experiência com relativa facilidade. E não estamos falando de uma experiência qualquer, mas de uma experiência radical no processo de formação cognitiva do indivíduo e do próprio corpo social de uma maneira mais ampla.

Ver o próprio nascimento é fantástico. É uma memória que em si não deveria nos pertencer, mas somente a nossos pais e a equipe médica que participou da cirurgia. Mas com o advento tecnológico isso deixa de ser uma utopia. Dizem os psicólogos que quando olhamos uma foto de nós mesmos quando crianças, realizamos um esforço inconsciente para ligar aquela imagem a quem somos hoje. É como se o cérebro tivesse sido educado para dizer a si mesmo: “olha, essa criancinha estampada no papel, que não sabe andar, careca, que está chorando e comendo a papinha é você. Acredite!”.

Esse processo, claro, não foi repentino ou puramente individual. A pintura, a fotografia e até mesmo os registros orais e escritos prepararam esse terreno cognitivo aos poucos. Mas a filmagem do parto é algo diferente. O movimento está lá. É tudo mais real. Há uma seqüência de ações. A dor, a força da mãe, o espanto do pai. A coordenação do obstretra, o médico auxiliar, o anestesista. Todos os elementos do “real” estão conjugados em tempo linear. Finalmente, a chegada ao mundo. Tudo isso disponível, hoje, em um DVD, que a criança, ao adolescente ou o adulto pode ver quantas vezes quiser. Ele entra em contato com a sua forma mais primitiva. As gerações de hoje e vindouras possuem um confronto consigo mesmo que as gerações passadas nunca imaginaram ter.

Além de formar uma lembrança que não era possível há alguns anos, a imagem do próprio nascimento certamente possui algum impacto na formação de identidade do indivíduo, seja aumentando aquele esforço cognitivo de auto-reconhecimento, seja por contar de forma bem clara um momento da vida, o primeiro, do qual nosso próprio corpo é incapaz, fisiologicamente, de recordar. A imagem do nascimento, ainda, pode ter o poder de reforçar o sentimento de identidade em um mundo cada vez mais marcado pela fragmentação das comunidades e dos próprios laços identitários. Em termos de memória, filmar o nascimento de alguém reforça também o sentimento de que “registrar” é importante.

Enfim, em minha opinião, ver o próprio nascimento é uma experiência limite que nos coloca diante da fragilidade, da dependência, da aculturação inicial, do envelhecimento, de uma série de sensações que não são novas, mas que podem ser sentidas agora de uma forma muito mais intensa. Se isso é bom ou não para o indivíduo, impossível dizer. É apenas diferente. E sob uma perspectiva é algo muitíssimo interessante. Sorte dos novatos nesse mundo. A nós, o que resta é filmar.

Bruno Leal

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Vinicius AA Comentário de Vinicius AA em 18 outubro 2009 às 16:58
Eu me pergunto de vez em quando: o que virá depois? E é impossível eu não lembrar de um filme que vi já há alguns anos chamado Violação de Privacidade no qual podia-se assistir a vida toda das pessoas através de um chip implantado no cérebro delas. O filme me emocionou principalmente por nossa realidade está muito perto dessa ficção. Afinal, a tecnologia está nos permitindo ressuscitar traços apagados de nossa memória como o nosso próprio nascimento e ás vezes apagá-los como as polêmicas lavagens cerebrais. E é inevitável eu refazer minha pergunta com um pouco de medo e esperança: e o que virá depois?
Regina Morioka Comentário de Regina Morioka em 10 outubro 2009 às 20:36
Caro Bruno. Gostaria de compartilhar uma experiência vivida ontem (09-out-09) com meus filhos a este respeito. Eles são gêmeos (um casal) e estão para completar 2 anos. Então, eu e meu marido combinamos de passar o video do nascimento deles. Para nosso espanto, assim que começou a exibir as cenas do parto e logo depois o choro dos bebês, os dois começaram a chorar. Foi um choro cheio de sentimento que nos comoveu ainda mais. Será que as lembranças deste momento tão importante vieram à tona? Por favor, caso alguém tenha vivido alguma experiência semelhante, gostaria que relatasse. Realmente, ficamos impressionados...
Claudia Lessa Comentário de Claudia Lessa em 2 julho 2009 às 21:55
Há três meses nascia minha Maria, de cesárea. Na maternidade, não permitem filmagem com câmeras caseiras. Você precisa comprar um pacote foto e vídeo com a empresa prestadora do serviço. Optei pelas fotos, em função do preço, mas depois de ler esse artigo, puxa! Eu devia ter filmado.
Desde do dia em que Maria nasceu, eu refaço na memória toda a minha trajetória até chegar ao quarto junto com meu bebê. Eu forço a mente para não esquecer o som do chorinho (o mais maravilhoso que já ouvi), as vozes dos médicos, da pediátra... A cara de "bobo" do pai! Foi o dia mais impressionante da minha História, e quero guardar todos os detalhes para poder contar pra ela, toda a emoção do nascimento, do estado de graça em que me encontrava.
Foi lindo! Pena não ter filmado.
Abraços, Bruno! Em tempo: obrigada pelo site.

Douglas Barraqui (Douguera) Comentário de Douglas Barraqui (Douguera) em 11 junho 2009 às 19:51
Fantástico, caro Bruno.
Esse artigo, de certo modo, me deu vontade de me ver nascendo, mas infelizmente não tiveram a oportunidade de registrar essa "pernada da vida" (no sentido conotativo). Fico apenas com a maginação de como seria a experiência...
um grande abraço !
THEREZINHA MACIEL DA SILVA Comentário de THEREZINHA MACIEL DA SILVA em 19 março 2009 às 20:55
Oi Bruno!
Seu artigo é realmente muito interessante. Acredito que poucas pessoas tenham refletido no assunto, sob essa perspectiva. O que acontecerá realmente é díficil de imaginar. O que podemos dizer é que será uma experiência única. Nesse mundo, no qual a relação e o vínculo familiar
tende a um desgaste cada vez mais crescente, quem sabe essa experiência possa mudar um pouco essa triste realidade. Parabéns!!!
Joyce Squinello Comentário de Joyce Squinello em 14 janeiro 2009 às 23:00
Na fotografia temos alguns ângulos estáticos que nos fazem criar fantasias, idealizações de como éramos. A filmagem é realmente muito mais significativa, podemos ver nossos movimentos por vários ângulos e ter uma noção muito nítida de como éramos ao nascer. É realmente o máximo!

Cinehistória

ABRAÇO PARTIDO

Ariel (Daniel Hendler) é um jovem de vinte e poucos anos, que largou a faculdade e ainda vive às custas da mãe (Adriana Aizemberg). Sua vida gira basicamente em torno de dois locais: a loja de lingeries de sua mãe e o cybercafe local, onde costuma encontrar sua namorada.

Ariel sempre estranhou o fato de nem sua mãe nem seu irmão falarem sobre seu pai, que nos anos 70 partiu para lutar na Guerra do Yom Kippur, em Israel, e nunca mais retornou. Com a crise econômica instalada na Argentina, que força o fechamento de várias lojas tradicionais no bairro onde está a loja de sua mãe, os amigos de Ariel sonham em conseguir a cidadania européia e partir do país em busca de emprego. Ariel também tem este sonho, mas cada vez mais alimenta o desejo de conhecer seu pai e também a verdade sobre seu afastamento da família.

"El Abrazo Partido", filme argentino de 2004 fez bastante sucesso aqui no Brasil. No fundo, sua trama gira em torno de Ariel, que não consegue aceitar o fato do pai tê-lo abandonado para ir lutar na guerra do Yom-Kippur. Essa rejeição à figura paterna também fica explícita no pouco conhecimento que Ariel tem do judaísmo. Face à crise que se abate sobre a economia de seu país, Ariel decide batalhar pelo passaporte polonês (seus avós eram poloneses) e, dessa forma, ter a possibilidade de entrar na Europa e viver com um seguro-desemprego.

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