
Durante uma conversa de almoço com uma amiga muito querida que está grávida, falamos sobre o costume que muitos casais têm hoje de filmar o nascimento dos próprios filhos. Eu nunca havia parado para pensar seriamente sobre isso. Hoje eu parei. E não me arrependi.
Tudo começou quando refleti sobre sentimentos e sensações que devem ser formuladas por quem vê o próprio nascimento na tela de um vídeo, anos depois. Estamos falando de uma geração que pela primeira vez na história possui a oportunidade de ver o próprio “vir ao mundo”, a primeira respiração, o primeiro choro, o choque com o “outro” e com o ambiente, com direito a sons, cores, qualidade na imagem e outras modernidades que ainda seremos apresentados. Sim, pois desde que as câmeras de mão caseiras se popularizaram, e isso já tem pelo menos uns 25 anos, as pessoas podem ter esse tipo de experiência com relativa facilidade. E não estamos falando de uma experiência qualquer, mas de uma experiência radical no processo de formação cognitiva do indivíduo e do próprio corpo social de uma maneira mais ampla.
Ver o próprio nascimento é fantástico. É uma memória que em si não deveria nos pertencer, mas somente a nossos pais e a equipe médica que participou da cirurgia. Mas com o advento tecnológico isso deixa de ser uma utopia. Dizem os psicólogos que quando olhamos uma foto de nós mesmos quando crianças, realizamos um esforço inconsciente para ligar aquela imagem a quem somos hoje. É como se o cérebro tivesse sido educado para dizer a si mesmo: “olha, essa criancinha estampada no papel, que não sabe andar, careca, que está chorando e comendo a papinha é você. Acredite!”.
Esse processo, claro, não foi repentino ou puramente individual. A pintura, a fotografia e até mesmo os registros orais e escritos prepararam esse terreno cognitivo aos poucos. Mas a filmagem do parto é algo diferente. O movimento está lá. É tudo mais real. Há uma seqüência de ações. A dor, a força da mãe, o espanto do pai. A coordenação do obstretra, o médico auxiliar, o anestesista. Todos os elementos do “real” estão conjugados em tempo linear. Finalmente, a chegada ao mundo. Tudo isso disponível, hoje, em um DVD, que a criança, ao adolescente ou o adulto pode ver quantas vezes quiser. Ele entra em contato com a sua forma mais primitiva. As gerações de hoje e vindouras possuem um confronto consigo mesmo que as gerações passadas nunca imaginaram ter.
Além de formar uma lembrança que não era possível há alguns anos, a imagem do próprio nascimento certamente possui algum impacto na formação de identidade do indivíduo, seja aumentando aquele esforço cognitivo de auto-reconhecimento, seja por contar de forma bem clara um momento da vida, o primeiro, do qual nosso próprio corpo é incapaz, fisiologicamente, de recordar. A imagem do nascimento, ainda, pode ter o poder de reforçar o sentimento de identidade em um mundo cada vez mais marcado pela fragmentação das comunidades e dos próprios laços identitários. Em termos de memória, filmar o nascimento de alguém reforça também o sentimento de que “registrar” é importante.
Enfim, em minha opinião, ver o próprio nascimento é uma experiência limite que nos coloca diante da fragilidade, da dependência, da aculturação inicial, do envelhecimento, de uma série de sensações que não são novas, mas que podem ser sentidas agora de uma forma muito mais intensa. Se isso é bom ou não para o indivíduo, impossível dizer. É apenas diferente. E sob uma perspectiva é algo muitíssimo interessante. Sorte dos novatos nesse mundo. A nós, o que resta é filmar.
Bruno Leal
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