Hoje, dia 23 de dezembro de 2010, foi uma data especial.

Ela marcou o encerramento de um micro-ciclo na minha esfera pessoal; também de uma esfera mais macro que é a nacional, cujo início se deu no embate de forças políticas durante a primeira campanha para eleger diretamente o primeiro presidente do Brasil, após o longo período de ditadura militar no país.

Pouco antes do início da disputa eleitoral, quando já se formavam as primeiras frentes visando à corrida sucessória presidencial, eu era um estudante que contava com dezesseis anos de idade e me preparava para disputar vestibulares ao então concorrido curso de Direito.

Participaria dos processos seletivos para Direito sonhando com o curso de História. Visava muito menos o mercado de trabalho e muito mais o provar para amigos que passaria entre os primeiros de qualquer processo seletivo que desejasse. 

Contudo, deixar de concorrer para História atendia também às interpelações do meu velho, ex-guerrilheiro. Portador de um coração puro e repleto de sonhos desfeitos e refeitos após o golpe militar de 1964, quando protestou pacificamente contra a usurpação do poder, apanhou, viu seus amigos sumirem e foi jogado na clandestinidade. Não houve outra alternativa, durante a sucessão de golpes contra a liberdade civil, que não fosse abandonar o curso de sociologia para pegar em armas. Temia, portanto, que o mesmo acontecesse comigo caso cursasse história durante um futuro governo Collor (que julgou acertadamente que não chegaria a bom porto) que se delineava antes mesmo do início da corrida eleitoral pela armação midiática em torno do “caçador de marajás”.

Durante minha preparação para os vestibulares, a leitura de jornais e revistas foi uma constante. Comecei lendo vários jornais e revistas, mas aos poucos minha escolha recaiu sobre o semanário Istoé/Senhor, levando a uma assinatura do periódico. Foi a partir dessa leitura, somada a dos demais meios de comunicação impressa, que pude conhecer a figura do sindicalista e ex-torneiro mecânico. Também por meio do que se ouvia em casa e, obviamente da televisão, formara minha opinião sobre o panorama político do país - somando aquele presente com o passado apresentado por livros didáticos de História.

Naquela época já trabalhava em regime de meio período em um Banco e estudava durante outros dois períodos sob a complacência da diretora do colégio, que me deixava frequentar além do período matutino, em que estava regularmente matriculado, o noturno, que utilizava como reforço para o aprendizado, provocando curiosidade em alguns professores e colegas. Eram ambientes muito diversos, o de uma das melhores escolas da capital goiana com o de uma agência bancária, já que meu sentido crítico era aguçado por professores de História, Geografia e Letras enquanto existia um ambiente especialmente repressivo no ambiente das instituições bancárias daquela época. Foram laboratórios empíricos para aquilo que passava a conhecer na teoria por meio do colégio em estudos regulares e pela leitura dos periódicos. 

Mais do que um passado afetado pela perseguição política ao meu pai, somava-se agora a minha própria experiência. Como alguns outros jovens do período de transição entre as décadas de 80 e 90, passei a me dedicar a uma causa política. Fiz ainda adolescente campanha para o “Sapo Barbudo”, contra tudo o que ouvia no ambiente de trabalho já que, por mais incrível que possa parecer nos dias atuais, ser petista naquela época significava não ser aceito, pelo menos para quem trabalhava em um Banco. 

Apesar das constantes ameaças de abandonar o país por parte da mesma elite financeira que apoiou a campanha do “Brasil, ame-o ou deixe-o” e das sucessivas derrotas de Lula nas urnas, sentia que a rejeição ao candidato-operário diminuía gradualmente com o passar dos anos, até que em 2003 pude presenciar a eleição do operário.

Foi com apreensão que vi o presidente Lula assumir um Estado quebrado, pois havia o receio de que anos de lutas populares pela sua eleição fossem jogados fora por questões que talvez pudessem sair do seu controle. Sabia que sua permanência no poder dependeria da manutenção de um nível mínimo de popularidade, o que se tornava difícil face aos fatores conjunturais que se delineavam nos panoramas político-econômicos nacionais.

Um aforismo aponta que a sorte acompanha os que são competentes. Outro adágio declara que o destino contempla sempre aqueles que têm estrela (desculpem o trocadilho) e vivem a sua sina com confiança no que virá. Eis que o destino contemplou todo um passado de lutas, a competência em governar e o sentimento de civilidade popular: o cenário econômico global cooperou com as ações implementadas no país, especialmente aquelas voltadas para as camadas desfavorecidas que culminaram na criação de um mercado consumidor interno. Um ciclo de crescimento econômico internacional corroborou com as intenções do programa governamental, catapultando o país da condição de pária a de país emergente.

O presidente-operário não desperdiçou a oportunidade e aproveitou para desenvolver novas relações diplomáticas priorizando o eixo sul-sul, com a valorização de regiões antes desmerecidas pelos governos anteriores, principalmente na América Latina, mas não menos na África e na Ásia. Mais uma vez a estrela favoreceu as escolhas do indesejado presidente, representante que era das minorias e cujas visões eram consideradas por demais visionárias: no final do seu governo uma crise atingiu as principais economias do mundo, arrastando não somente os países do centro capitalista como aqueles que se satisfaziam em orbitar em torno dos primeiros, como teria condescendido o governo FHC caso lhe fosse oferecido mais um semestre, com o que poderia ter concluído o ALCA com os Estados Unidos e mergulhado o Brasil anos depois numa crise sem precedentes, muito maior que aquelas provocadas por espirros na Rússia ou na China, anos antes. Ao contrário do que teria acontecido ao país em mais um mandato tucano-arenista-pefelista-udenista-ruralista (tucano-democrata), chegou às praias brasileiras apenas uma leve marola do maremoto em mares do Hemisfério Norte.

A consagração absoluta do governo Lula se deveu somente a isso? Seria injustiça não observar a maciça criação de empregos mesmo no maior período de crise pós 1929, a distribuição efetiva de renda, a valorização do país para o grau de investimento como decorrência da adoção de políticas monetárias acertadas, o crescimento do mercado interno bruto, a conseqüente conversão do país à condição de país credor do FMI após anos de desmandos nas políticas econômicas nacionais e, principalmente, ao respaldo que o Brasil passou a ter no exterior enquanto uma nação portadora de posicionamentos independentes, demonstrando ao mundo principalmente uma mudança de paradigmas dentro do seu próprio tecido social.

Aos que chegaram ao final deste texto me desculpo pelas sucessivas quebras nos rituais que caracterizam a escrita de um ensaio como este, a começar pela escolha da primeira pessoa e de experiências pessoais para trabalhar o mote escolhido. Hoje foi dia de lavar a alma, de me levantar sozinho frente à TV para aplaudir e agradecer ao presidente-operário, ao único estadista que este país já conheceu, pelos seus fios brancos que passaram a dominar-lhe o rosto, pelo seu empenho, pela sua emoção não demagógica em cada ação empreendida, por não haver traído suas próprias convicções, por receber a “ralé” (sejam os garis do Boris, ou os catadores de papel que puderam subir a rampa do palácio com um Presidente da República) não somente em ocasiões formais, mas nas suas preocupações diárias.

Obrigado por não me arrepender de ter levantado (literalmente) sua bandeira em diversas ocasiões desde a minha adolescência. Por ter quebrado protocolos e mostrado que um presidente pode, sim, ser humano e chorar. Obrigado por ter chorado contigo em vários momentos e pelas mesmas causas.

Obrigado por ter conduzido à presidência uma mulher que não teve medo de pegar em armas pela defesa da democracia, a mesma mulher que conduziu ao ministério um historiador que conheci de perto, enquanto docente de Teoria da História que foi no Campus da Federação, em Salvador, meu professor.

Obrigado por me dar mais razões de orgulho por ser brasileiro e, sobretudo, por ter orgulho em ser do povo, por ter me permitido lavar a alma nos seus oito anos de mandato popular.

Muito obrigado, presidente Lula!

 

 

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