TROTE UNIVERSITÁRIO: Uma brincadeira de mau gosto ou lógica da opressão social?

Este hábito ou tradição parece nada civilizado, uma questão eminentemente sócio-cultural,que há tempos se mostram abomináveis, persistindo com vitalidade nos meios acadêmicos, a semente da justificativa moral da odiosa estratégia de dominação social.
Num país que é tão difícil um típico cidadão brasileiro ter acesso ao ensino superior, sendo muito lamentável existir este tipo de prática social.
As afirmações básicas em que veteranos se ancoram para justificar o trote, seria a tradição. Todos fazem e sempre foi feito, ou é uma brincadeira que promove a integração entre calouros e veteranos.
Por que conservar? Não seria melhor instituir um novo comportamento?
Todo hábito aparenta, ares de verdade inelutável, termo que designa certo sistema estável de disposições de perceber e agir, que concorrem para reproduzir uma ordem social estabelecida, em suas desigualdades.
Os casos exagerados, de forma violenta, com destaque na mídia, ocorrem com certas inquietações na comunidade acadêmica sobre a legitimidade do trote. Alguns abusos acabaram levando calouros à morte e chamaram a atenção da opinião pública sobre os limites das "brincadeiras". Contudo, não são os excessos? ou as exceções? os objetos desta análise. O que se deseja verificar é o sentido do trote, assim como seus propósitos e motivações.
Os defensores dessa tradição não são sequer capazes de conceituá-la, pois não há qualquer reflexão sobre a prática.
No contexto de nossa sociedade, estaria servindo ao mito do direito natural de dominação da maioria pobre por uma elite minoritária.
Uma sociedade avança na medida em que tradições obsoletas desmoronam para que novos conceitos sejam erguidos e, aos poucos, solidifiquem-se em uma nova tradição.
A afirmação de que o trote é uma brincadeira, também se mostra perfeitamente falsa. Uma brincadeira presume conivência explícita entre os participantes. Se um não aceita, não é mais diversão: é coerção, opressão, ou, na linguagem popular, uma "brincadeira besta". A atual geração de calouros está se mostrando mais resistente ao trote. Percebe-se que brincadeirinhas estúpidas estão gerando antipatias mais ou menos profundas.
Portanto, sente-se no "direito natural" de, por causa desta hierarquia, ridicularizar o novato à vontade. A integração é feita na medida em que o calouro aceita a submissão como um valor evidente em si; o rebaixamento servil está diretamente relacionado ao seu "baixo grau de instrução". De acordo com essa mentalidade, os calouros que não aceitam ser diminuídos estão agindo contra a harmonia da integração.
Como se vê, é trágica a primeira lição aprendida na universidade: os que sabem mais têm o direito natural de subjugar os que sabem menos.
O que podemos perceber, com muita clareza, é que a lógica que sustenta o trote? a dominação do sujeito "mais instruído" sobre o "menos instruído"? já está presente nos primeiros dias de universidade e não acaba na formatura. O sujeito que sofre e depois aplica o trote durante todo o período universitário está convencido dessa "verdade natural" e continua aplicando o trote nos calouros da vida. Um professor que humilha os estudantes em sala de aula continua aplicando o trote, pois raciocina que a graduação concluída lhe dá o direito natural de subjugar os "ignorantes" que ainda não a concluíram. É a tradição.
Na sociedade brasileira, caracterizada por diferenças sociais profundas que inviabilizam o acesso à educação superior para a maior parte da população, o universitário é um calouro privilegiado. Em vista disso, muitos preferem ser coniventes porque a humilhação sofrida é a maneira de confirmar a tradição e justificar a futura tirania, garantindo o círculo vicioso. Aquelas milhões de pessoas que nunca conseguirão concluir sequer o primeiro grau serão os eternos calouros desse exército de veteranos. Ê bicho burro! Limpa isso aí de novo senão vai ser demitido agora mesmo! E olha que estou sendo bonzinho! Quem mandou ser analfabeto ou não ter estudado? O trote sofrido no ingresso à universidade parece ser, portanto, uma pequena contribuição a pagar para manter a lógica da dominação que, para um estudante de nível universitário, num futuro próximo, será altamente favorável.
Entre os defensores do trote, podemos perceber uma trágica contradição entre o discurso e a prática. É freqüente encontrar veteranos que se dizem contra a opressão social, mas favoráveis à tradição do trote.
Ainda assim, defensores do trote teimam em justificar suas ações com estereótipos? o trote é uma forma de integração, os calouros devem aceitar a tradição, etc.
O educador Paulo Freire, em Pedagogia do oprimido, decifra o sentido dessa argumentação ao escrever que "na verdade, o que pretendem os opressores é transformar a mentalidade dos oprimidos e não a situação que os oprime, e isto para que, melhor adaptando-os a esta situação, melhor os domine".
È no meio acadêmico que se reforça em nossa cultura o famoso “sabe com quem está falando?”

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Comentário de Alcebíades de Lima Oliveira em 26 março 2010 às 7:46
Caro Ricardo,
Muito bem lembrado o crime, que a mídia e boa parte da sociedade ignora.
São bandidos hoje se vestido de doutores.
excelente sua contrituição aos temas sociais.
abraços
Comentário de RICARDO ROCHA AGUIEIRAS em 25 março 2010 às 16:38
Vocês se lembram do estudante de medicina que foi encontrado morto na
piscina da USP, em 1999?

Ele foi afogado mecanicamente (isto significa que, mesmo não sabendo nadar,
foi jogado várias vezes na piscina, até que não resistisse mais), num trote
realizado na USP.
Então, vocês têm que saber que, até hoje, ninguém foi responsabilizado pela
morte do rapaz. E os acusados estão livres, leves, soltos, exercendo suas
profissões e gozando a vida.
Tomem nota do nome dos acusados:


**1) Dr. FREDERICO CARLOS JANA NETO*, *não mais chamado pelos amigos de
'Ceará', para que ninguém se lembre dele pelo apelido, que ficou associado
à tragédia de 1999. Formado pela USP, tem 28 anos e
*atende no Hospital das Clínicas* de SP;

**2) Dr. ARY DE AZEVEDO MARQUES NETO *, *tem 25 anos e na época, era aluno
do
3° ano e presidente da associação atlética, e foi dele o grito de guerra
para que os calouros fossem jogados na piscina (que possui de 2 a 4 metros
de profundidade);

**3) Dr. GUILHERME NOVITA GARCIA* *, especializado em *ginecologia
*(cuidado mulheres! ) , também cursa cirurgia.Tem 29 anos e é apelidado de
'Campanha'. Admitiu ter feito brincadeiras para assustar os calouros e
admite ainda ter jogado uma estudante na piscina naquele dia;
*
***4)** Dr. LUIS EDUARDO PASSARELLI TIRICO *, *titular do time
de basquete da faculdade e considerado o 'mauricinho' da turma.
Tem 24 anos, e, junto com FREDERICO E GUILHERME , foi denunciado. Não
podemos, também, esquecer do

**Sr. Dr. MÁRCIO THOMAZ BAS*TOS que virou- pasmem! -* MINISTRO DA JUSTIÇA
do****
governo Lula (mais uma do Lula ), *e que, 24 horas depois de assumir o
cargo, pediu a SUSTAÇÃO DO PROCESSO.* Isso porque ele era um dos advogados
de defesa do Dr.LUIS EDUARDO PASSARELLI TIRICO.
Diz o ministro da justiça de Lula que inexiste relação entre sua nomeação
e o pedido de sustação do processo, mas,segundo a promotora responsável
pelo caso, 'é, no mínimo, uma coincidência muito estranha o fato de a
ação ser interrompida um dia depois da nomeação de *Márcio Thomaz Bastos*,
sabendo-se que ele defendia um dos acusados'.

Vê-se, portanto, que sem o prosseguimento da ação, até hoje o único culpado
(???) foi a própria vítima, EDISON TSUNG CHI HSUEH, que pagou com a própria
vida pelo esforço que fez para entrar no curso da USP

Só pra refrescar mais um pouco a memória. *O nosso Ministro da Justiça*
(infelizmente), *MÁRCIO THOMAZ BASTOS , foi também advogado dos
delinqüentes que assassinaram o indio pataxó, a quem, igualmente, NADA
aconteceu. *
Enquanto essa figura funesta, o defensor-mor dos direitos humanos só para
os bandidos, posar e atuar como ministro, estamos todos ferrados.
Comentário de gloria azevedo em 12 fevereiro 2010 às 17:03
A prática dos trotes já virou crime há muito tempo! deveria ser tratada como crimes e os praticantes , criminosos; passar a mão nas cabecinhas de criminosos com a desculpa de que são "jovens" é alimentar o monstro que habita neles...parece até que ,muitos, esperavam, apenas , o momento certo para executar suas esquisofrenices. É o que tenho certeza. De igual maneira, aqueles jovens que pegam os carros dos pais, colegas, vizinhos, e saem atropelando e matando , pq não possuem discernimento nem coração. Essa é a verdade.
Meio acadêmico não é desculpa, pelo contrário até .
Comentário de Alcebíades de Lima Oliveira em 26 março 2009 às 11:03
Thamyres,
bela sugestão social ao trote. A grande parte das estruturas de ensino reforçam as tendências dominantes e a maioria dos alunos são agentes dos valores que imperam na sociedade, os interesses individual x coletivos, competição x solidariedade, autoridade x liberdade e saber formal x saber social.
obrigado. Alcebíades.
Comentário de Thamyres Albuquerque Bitencourt de Lima em 26 março 2009 às 8:18
Simplesmente perfeito, concordo com o comentário do amigo acima (Keltin), a questão da ridicularização como desculpa para o um fim de integração é a justificativa da grande maioria, que mesmo acadêmicos desconhecem o diálogo e o respeito e a integridade (física) dos seus semelhantes.
Em meu ver, a famíia tem forte influência , exemplo disso se passa na novela das 9 na rede Globo de televisão. Os pais permitem e incutem no carater de seus flhos a idéia de que podem tudo...não que isso não seja verdade de uma forma saudável (sincera) mais fazem isso de uma maneira errada, baseda no desrespeito e com atitudes meramente sem propósitos e infantil.
A questão é, hoje enquanto acadêmicos(com um mínimo de instrução) os quais "acredito que buscam conhecimento" para um realização profissional e intelectual já são sim, o que dirá desse profissonal do futuro?!
Quando me dizem que eu não deveria cursar a academia de Direito porque o mercado está saturado, respondo que: "O MERCADO ESTÁ SATURADO DE MUITOS INCOMPETENTES, DE PESSOAS DESPREPARADAS..POUCOS SÃO OS QUE SABEM O QUE FAZEM E DÃO ORGULHO A PROFISSÃO". Prova disso são os concursos que de 50 vagas dez ou quinze são preenchidas, ou seja só passam os melhores. Concluo dizendo que todos temos possibilidade de mudar essa idéia sobre os acadêmicos, lembrando que buscamos conhecimento....esse conhecimento nos abre portas e essas nos mostram opções de mudar para melhor. Sugestão para os trotes são gincanas de visitas a hospitais,creches,coleta de lixo em locais públicos, isso sim é brincar com inteligencia, respeito e com um proósito relevante.

atenciosamente, Thamyres A.B. de Lima
Comentário de Alcebíades de Lima Oliveira em 17 fevereiro 2009 às 14:11
Caro Keltin,
valeu pelo comentário, se fosse em protesto por condições e acesso à todos a Universidade, ninguém faria mesmo. abraços. Alcebíades
Comentário de Keltin em 17 fevereiro 2009 às 11:15
Concordo plenamente com você. É realmente uma prática abominável. Agora diga: qual é a graça de agredir os calouros? Uma tradição rídicula que não tem ao menos uma justificativa plausível, nunca soube que agredir e ridicularizar é uma forma eficaz de integração. Acho que o bom e velho diálogo se mostra mais civilizado e eficiente. Uma vez perguntei a uma amiga o motivo pelo qual ela todos os anos fazia trote, ela disse: "Ah, é uma forma de comemorar a entrada dos calouros na faculdade e mostrar que sofremos isso e que somos melhores!!!" No mínimo pavaroso. Se fosse para pintar cara e raspar a cabeça em protesto contra a violência e contra a fome, ninguém faria.

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