Por Catarina Libonati
TRABALHO NAS DIFERENTES SOCIEDADES E A EDUCAÇÃO
A questão do trabalho só pode ser entendida dentro de um contexto histórico, compreendendo como essa atividade humana se desenvolveu e se organizou nas diferentes sociedades humanas, e de seus valores em relação ao trabalho, tendo como base um sistema educacional vinculado a sua maneira de pensar, agir e senti. Toda educação faz parte de um tipo de sociedade e, por isso, umas das características da educação é reproduzir os valores dessa mesma sociedade. O indivíduo trabalha como foi socializado, processo adquirido pela educação formal, não formal e informal.
De acordo com Saviani (1994) “a educação coincide com as origens do próprio homem [...] as origens da educação se fundem com as origens do próprio homem”. Com base nesta afirmativa nota-se que a educação e o trabalho estão intimamente ligados e esta interdependência se faz vital para humanização do homem. O homem não nasce pronto para realizar as condutas exigidas pela vida em sociedade. Por isso, precisa aprender praticamente tudo que o caracteriza como ser plenamente humano.
A verdadeira conscientização para o valor do trabalho vem do sistema educativo. Uma das finalidades da educação é preparar para a cidadania e para o trabalho, visando à formação de futuros trabalhadores e cidadãos.
Antes de analisar algumas situações e formas de trabalho, é necessário que se responda algumas perguntas: para que existe o trabalho? E quem inventou o trabalho?
Karl Marx considera o trabalho “como uma relação entre o homem e a natureza, sendo que o homem apresenta o papel de potência natural. O homem emprega as forças do que é dotado para amoldar a matéria dando-lhe forma útil a vida. Modificando a natureza exterior altera sua própria natureza” (CASTRO, 2002, p.63). Desse modo, o homem, ao trabalhar, sofre uma transformação no seu modo de pensar, modificando-se. Sendo um importante processo da consciência humana.
Pode-se afirmar o mais genericamente possível, que o trabalho existe para satisfazer as necessidades humanas, desde as mais simples, como o alimento, até as mais complexas como as de lazer; enfim, necessidades físicas e espirituais. O trabalho é uma criação do ser humano para atender suas contingências mais amplas. Ou seja, tem como objetivo maior a manutenção da espécie humana no ambiente natural.
Conforme Araújo; Bridi; Motin (2011, p. 47)
É pelo trabalho que o homem constrói o mundo e, nesse processo, constrói a si mesmo. Trabalho é dispêndio de energia humana para realizar atividade coordenada mediante o uso do esforço físico, mecânico ou intelectual – habilidade, força e/ou criatividade – visando atingir um fim, cumprir uma tarefa, fazer um serviço. [...].
Através das diferentes formas de trabalho, podem-se classificar diversas sociedades. Cada sociedade tem uma forma própria de produção, seu modo de produção (forças produtivas + relações de produção), que constitui a maneira pela qual a sociedade produz seus bens e serviços, como os utiliza e como os distribui. Este é constituído por fatores dinâmicos, que estão em constante mudança: as forças produtivas, que se modificam com o desenvolvimento dos métodos de trabalho, com avanço tecnológico e científico; e as relações de produção, também sujeitas a transformações. O desenvolvimento das forças produtivas acarreta mudanças e rupturas nos modos de produção por meio de revoluções.
Esse processo de desenvolvimento ajuda a classificar diferentes modelos possíveis de organização da sociedade, pois na História, desenvolveram-se formas de trabalho que influenciaram a formação das sociedades:
Sociedades tribais - características
- as famílias unem-se em forma de tribos;
- o trabalho é organizado de modo que os meios de produção sejam comunitários;
- produção muito pequena de bens de consumo;
- trabalho artesanal (não comercializado) e agricultura de subsistência (aquela que não é comercializada), com a finalidade de satisfazer as necessidades de sobrevivência do próprio grupo.
Sociedade escravista – (trabalho escravo). Modelo de organização produtiva relacionado às relações de trabalho características da Antiguidade Clássica e da América nos séculos XVI à XIX. Características.
- aprisionamento de seres humanos por outros;
- forma de trabalho organizada de tal modo que parte dos seres humanos passa a ser considerada meios de produção (objetos e ferramentas);
- formas de dominação e exploração sobre outros seres humanos, escravos que não tinham nenhum direito;
- forma básica de trabalho é a artesanal;
- os produtos finais não se destinam a sobrevivência do grupo que trabalhou.
Sociedade feudal – (trabalho servil). Sistema de relações de trabalho predominante na Europa Medieval (V à XV). Características.
- estruturou-se sobre a divisão entre senhores e servos;
- as relações de produção são de dominação e exploração, baseia-se na propriedade do senhor sobre a terra e no trabalho agrícola do servo;
- a forma básica de trabalho era artesanal, acompanhando uma agricultura de subsistência.
- a sociedade feudal colocava a religião como um de seus principais valores e, por consequência, a educação reproduzia muito desse valor.
Sociedade capitalista – (trabalho assalariado) O capitalismo é um sistema econômico predominante no mundo atual e teve seu início com a Revolução Industrial na Inglaterra no século XVIII. Com ele foram introduzidas novas formas de relacionamento entre os homens.
Características:
- o trabalhador é detentor de sua força de trabalho, que é vendida ao capitalista, dono dos meios de produção, em troca de uma remuneração (salário);
- exploração funcional do trabalhador, que garante a composição do lucro do capitalista (mais-valia);
- “sistema econômico baseado inicialmente na industrialização, sofrendo adaptações nos últimos anos, incorporando novas realidades tecnológicas que ampliam a capacidade do trabalho humano, o que multiplicou as possibilidades de produção e o atendimento às necessidades dos indivíduos. Há uma ampliação significativa dos serviços como fonte de recursos para a persistência do modo de produção capitalista [...]” (DIAS, 2005, p. 260).
- a educação em nossa sociedade reproduz grande parte dessa ideologia, em outras palavras, o sistema educacional reproduz, muitas vezes, valores sociais como o individualismo, a competição, a obediência às leis, respeito à ordem (MAKSENAS, 2000).
Todas as sociedades humanas apresentam formas de distribuição diferenciadas de tarefas entre seus membros, visando sua sobrevivência. A repartição de tarefas, geradora de especialização de indivíduos e grupos, chama-se de divisão do trabalho.
A divisão social do trabalho é responsável pela sobrevivência da humanidade, desta forma parte de uma necessidade da sociedade, que deste modo está dividida em diferentes ocupações, podendo estar diretamente ligadas à produção ou à prestação de serviços, como médico, professor, advogado, padeiro, sapateiro, engenheiro etc. Cada homem desenvolve um trabalho que é social na medida em que pertence a uma divisão estabelecida pelas sociedades humanas em que cada um realiza um tipo de atividade.
A divisão técnica do trabalho tem origem na Revolução Industrial, à fase inicial do modo de produção capitalista, à cooperação e à manufatura (produção). Ocorre que no decorrer do tempo esta divisão técnica ultrapassou os trabalhos meramente produtivos, atingindo também os trabalhos no setor de prestação de serviços. Ela se caracteriza pela subdivisão de uma mesma ocupação, como por exemplo, a ocupação médica chegou a um nível de subdivisões que existe um enorme número de especialistas, como, oftalmologista, cardiologista, ortopedista, urologista, neurologista, etc...
Durante o processo de industrialização nos Estados Unidos, a partir da 1ª guerra mundial (1914 – 1919), surgiu o FORDISMO, implementado por Henry Ford nas suas fábricas de automóveis.
Foram modificações no modo de trabalho na cadeia produtiva industrial, que vieram ser utilizadas em quase todo o mundo capitalista até a década de 70.
O fordismo apresentava as seguintes características: a extrema divisão de tarefas entre os trabalhadores (especializações); a subordinação do trabalhador à linha de montagem; desconhecimento da produção final (alienação); e a produção em massa para um consumo em massa, uma produção em série.
A partir da década de 70 a organização da produção passou por uma série de transformações que ficaram conhecidas como PÓS-FORDISMO.
A principal característica dessa organização da produção é a automação, com o advento da robótica. Passando o trabalhador ao controle e supervisão, havendo a eliminação do controle manual por parte do trabalhador. As atividades mecânicas são desenvolvidas por máquinas automatizadas, programadas para agir sem intervenção de um operador. Os mercados de trabalho foram flexibilizados, isto é: a utilização de diferentes formas de trabalho. O trabalho autônomo, o trabalho temporário, por hora ou por curto prazo, a subcontratação, em suma a terceirização.
Com a crescente utilização de tecnologias computadorizadas e automatizadas, com a flexibilização da produção e do mercado de trabalho, criou-se uma grande instabilidade para os trabalhadores, que passam a não ter mais segurança de um trabalho estável. O desemprego, crescente inclusive nos países capitalistas mais avançados, é hoje o maior problema em todas as sociedades industrializadas”. (TOMAZI, 2000, p. 55).
O processo de reestruturação produtiva que vem ocorrendo com as industrias diminuindo o número de emprego provoca mudanças dos postos de trabalho dentro das empresas. A divisão técnica do trabalho em atividades específicas está sendo substituída pelo o trabalho baseado em equipes e projetos. O que passa ser valorizado é a informação e conhecimento do trabalhador. Quanto mais informação tiver o trabalhador, maior probabilidade terá de vincula-se aos mais novos projetos propostos.
Desta feita, o trabalhador tem seu perfil modificado, a exigência agora, neste século é de um profissional flexível, versátil, crítico, com visão de todo o sistema, bem informado, com conhecimento da informática e das tecnologias de informação. (DIAS, 2005)
No contexto da educação não é diferente. Observa-se nas transformações que vêm ocorrendo neste século um movimento histórico interativo entre sociedade, educação e trabalho, desta feita, como supracitado, educação e o trabalho estão intimamente ligados e esta interdependência se faz vital para humanização do homem.
O ensino como uma categoria da educação, também, está mudando de paradigma com objetivo de atender o novo perfil exigido no mercado de trabalho. As aulas expositivas vêm dando lugar a uma metodologia mais interativa e dinâmica, onde o professor assume um papel mais de orientador. O professor deve ensinar os alunos como pesquisar, orientá-lo na elaboração de trabalhos acadêmicos com alta qualidade do ponto de vista metodológico, orientar de como utilizar a internet no seu cotidiano e na realização de pesquisas, mostrando as vantagens e desvantagens do seu uso. Outro aspecto importante do ensino de hoje, é o professor mostrar ao aluno a importância de saber apreciar diversos pontos de vistas, gerados em diferentes culturas, pois o aluno via internet tem acesso ao mundo todo, não existindo fronteiras para o relacionamento com milhões de indivíduos. Cabe, também, ao professor dar mais ênfase no processo ensino/aprendizagem, estimulando o crescimento, a participação, responsabilidade e criatividade dos alunos, orientando-os para a solução de problemas que implicam na participação ativa e no diálogo constante entre alunos e professores. Assim sendo, contribuindo para a formação acadêmica, profissional e cidadã do mesmo.
Em função do exposto torna-se importante citar algumas habilidades valorizadas pelos empregadores (saiba o que buscam os empregadores) de acordo com Rubin (2012, p. 60 -66):
Superformação. A formação no ensino superior será o básico. Pós- graduação, cursos técnicos, especializações, participações em seminários e workshops serão vitais para acompanhar as constantes mudanças.
Multicultural. Mais que falar outras línguas, o profissional que tiver viajado e interagido com pessoas de outras culturas será mais apreciado pelo mercado. Assim como ler, ouvir músicas novas, se informar e estar aberto ao novo e ao diferente.
Útil e inovador. Inovações que visam contribuir com o próximo, como um produto que auxilie comunidades carentes ou um serviço que diminua a burocracia de uma empresa, serão mais valorizadas.
Pensar digitalmente. A vida acontece na frente do computador. Quem não souber usar ferramentas básicas de informação e de internet tende a ficar excluído.
Transdisciplinar. A capacidade de unir diferentes competências de áreas que aparentemente não se assemelham e dar um novo significado a elas ajudará a arejar a criatividade das empresas.
Competências emocionais. Num mundo cada vez mais informatizado, o capital humano fará toda diferença. E isso significa saber lidar com o outro, ter uma boa comunicação, saber-se colocar e ter um espírito cooperativo
O grande desafio é transformar essa gama de informações resultante da incorporação de novas tecnologias em conhecimento verdadeiro, sistemático e útil para a formação de indivíduos de espíritos críticos, dotados de discernimento e capacidade de pensar por si próprios, estando habilitados para ocuparem um lugar no mercado de trabalho competitivo e que tem por exigência um novo profissional autônomo, colaborativo, versátil, empreendedor, conhecedor de suas próprias vontades, que busque autoconhecimento, atualização constante e intercambio de experiências, isto é, ultraconectado.
Referências
ARAÚJO, Silvia Maria de; BRIDI, Maria Aparecida; MOTIM, Benilde Lenzi. Sociologia: um olhar crítico. São Paulo: Contexto, 2011.
CASTRO, Celso Antonio Pinheiro de. Sociologia aplicada à administração. São Paulo: Atlas: 2002.
DIAS, Reinaldo. Introdução à sociologia. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005.
MARKSENAS, Paulo. Aprendendo sociologia: paixão de conhecer a vida. Edições Loyola, 2000.
PACHECO, Ricardo Gonçalves; MENDONÇA, Erasmo Forte. Educação, sociedade e trabalho: uma abordagem sociológica da educação. Brasília: Universidade de Brasília, Centro de Educação à Distância, 2006.
RUBIN, Débora, O profissional que o mercado quer. Revista Isto É, São Paulo, ano36, n. 2212, p. 60 – 66, 4 abr. 2012.
SAVIANI, Demerval. O trabalho como princípio educativo frente às novas tecnologias. In: FERRETI, Celso et al. Novas tecnologias, trabalho e educação: um debate multidisciplinar. Petrópolis: Vozes, 1994.
TOMAZI, Dacio Nelson. Iniciação á sociologia. 2ed. São Paulo: Atual, 2000.
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Somos tão jovens
Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.
Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.
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