Galeano e a esperança em faíscas...

Mariana Merlim
Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio, fala sobre a importância da utopia para o continuar da “caminhada”
 
Eduardo Galeano fala com paixão. Isso é o que mais me faz brilhar os olhos todas as vezes que, ou leio seus escritos, ou vejo suas entrevistas. De alguma forma, esse já senhor de quase 65 anos intriga-me pela esperança que carrega para onde vai e compartilha com o mundo. Imagino que depois de ter presenciado tantas atrocidades e assistido com os próprios olhos a tantas violências humanas, não seja fácil alimentar qualquer tipo de bela expectativa em relação ao nosso futuro. E ele mesmo diz que do futuro não deseja saber nem prever, mas é o presente que o interessa, porque é nele que podemos contruir um mundo que não é, mas que pode ser. Um mundo possível – diz – pulsando no mundo que estamos, esperando seu nascimento, que é parto complicado. E não importa o que VAI acontecer. Importa-me o que ESTÁ acontecendo!
Alguém pode dizer que esse papo de mudar o mundo é pura inocência da juventude, passageira rebeldia adolescente, mas ao deparar-se com Galeano tratando desse tema com tanta vontade e convicções tão firmes, é impossível não ser incendiado por uma espécie de esperança de, que, sim, talvez, por que não, seja possível.
Utopias, outro alguém pode sussurrar. Sobre estas, o escritor e jornalista uruguaio diz:
“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.
(…) E tomara que isso continue vivo, por que se não, para que viver, se não for porque acredito em algo melhor do que isto?”
Uma cinzenta poeira de indiferença paira sobre nossa sociedade. Descrédito, desânimo… poderíamos citar por horas uma centena de “des” que se instalaram lenta e sutilmente ao nosso redor. Deixamo-nas ficar entre nós, tornar-se parte da rotina. Mas, no meio dessa iminente crise de é a causa humana é caso perdido, faíscas de gente com o sangue que ferve, podem ainda, fazer inflamar com esperança quem se deixar queimar.
Recomendaria a todas as pessoas que lessem e ouvissem Eduardo Galeano. E que, por vezes, quando acordassem descrentes de tudo e da humanidade e o seu destino, permitissem que suas palavras os comovessem a, ainda assim, acreditar mais um pouco.
Mariana Merlim - mari.merlim@gmail.com I @marimerlim

Texto extraído da News Letter Ateliê Editorial

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