Quando consigo chegar em casa antes das seis horas da tarde, sento-me em uma cadeira de balanço ao lado de minha mãe. Ela,com os olhos fixos na televisão, só diz para eu ficar quieta, é hora da novela. Então, começo a acompanhar uma trama bem histórica, tão histórica que prendeu minha atenção. Trata-se de um enredo focado no cenário do Rio de Janeiro, no início de século XX, às vésperas da Revolta da Vacina.
Isto posto, resolvi escrever, não sobre a novela, mas sobre a Reurbanização do Rio de Janeiro e a Revolta da Vacina.
Na transição do século XIX para o XX, no Velho Mundo, mas precisamente em Paris, uma completa reformulação urbana e cultural fundamentou-se nos alicerces do belo, no progresso e civilização. Até a I Guerra Mundial, em 1914, o mundo capitalista transpirava uma paz idealizada em tecnologia e avanços científicos. Era uma bela época!
No Brasil, o advento deste fenômeno, a Belle- Époque, está inserido no francesismo que sempre influenciou a cultura brasileira no século XIX . E, inevitavelmente, fez parte do discurso republicano. A república simbolizava a modernidade e a cidade do Rio de Janeiro era a capital da República, daí concebê-la para torná-la agradável para sua elite e, portanto, semelhante às metrópoles europeias. A Modernidade impunha suas regras à Europa. Portanto, também nas cidades americanas, os ventos europeus da Belle-Époque sopravam determinando a modernização e a higienização do espaço urbano, ainda caracterizado por um perfil colonial: ruas estreitas e casas mal ventiladas, cortiços, além da falta de higiene causada pela ausência de saneamento básico. As cidades capitalistas brasileiras tinham ainda este perfil. Havia uma grande população, e tal explosão demográfica era comum, se analisarmos os fatores da época, tais como o fim da escravidão, a imigração estrangeira e o início da industrialização. Lixo, ratos, mosquitos eram detalhes comuns no espaço urbano, assim como as doenças. Modernizar o porto, abrir largas avenidas, erradicar doenças, derrubar os cortiços e principalmente empurrar para longe a população pobre, rude e mestiça eram os desejos da população elegante do Rio de Janeiro.
O presidente Rodrigues Alves (1902-1906) empreendeu a remodelação tão desejada pela elite carioca. Ora, é impossível desvincular a reurbanização do aspecto político, haja vista as disputas partidárias e as ideologias esquerdizantes já fluentes no meio operário da época. Se de um lado havia o humanitarismo e o conhecimento científico, do outro, permeavam os ideais políticos diversos. O resultado: cortiços foram derrubados, dando lugar a belíssimas praças, charmosos jardins, largas avenidas e vistosos palacetes. Saneamento, limpeza pública e pavimentação completaram a reurbanização levada a cabo por Pereira Passos, colocando a cidade à altura da exuberante natureza que a circundava. Tal projeto possuía um perfil autoritário e, ao mesmo tempo, disciplinador, a medida que impunha à sociedade outro comportamento social baseado na disciplina pública. Todavia, além do embelezamento da cidade, o maior impacto foi a deterioração ainda maior das condições de vida dos trabalhadores. O preço dos aluguéis subiu e a população mais pobre foi removida do centro para áreas mais distantes. A ocupação dos morros com barracos tornou-se mais freqüente.
A REVOLTA DA VACINA
Faltava apenas a erradicação das epidemias: varíola, cólera, febre amarela, febre tifóide, hanseníase. Em 9 de novembro de 1904, o governo decretou a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola. Comandava a campanha o Dr. Oswaldo Cruz, responsável pela diretoria da Saúde Pública da capital federal. O anúncio provocou uma onda de protesto, que culminou numa rebelião popular denominada Revolta da Vacina. Nos dias seguintes, oradores populares, e os que, por motivos políticos, se infiltraram no meio, levantavam-se no espaço público recém urbanizado incitando à rebelião. A polícia era recebida a pedradas e também dava as suas pedradas e prendia. Líderes operários, jacobinos, políticos e intelectuais tentavam dirigir o movimento. A multidão circulava ruidosa pelas avenidas largas, pelos jardins, diante das mansões suntuosas. O espaço público era ocupado, à força, pelos manifestantes. A fúria se voltava contra bondes, delegacias, postes de iluminação, calçamentos. O governo perdeu completamente o controle da capital, só retomando com a ação do Exército, Marinha e da Guarda Nacional. A revolta tornou-se epidêmica.
Para a maior parte da população, vítima de seu alheamento das decisões públicas, de uma modernização autoritária, que desalojava os moradores e expulsava-os das regiões centrais, de um poder público que agravava cada vez mais as condições de vida dos mais pobres e não lhes oferecia nenhum tipo de assistência, a vacinação representava uma espécie de violação de seus próprios corpos. Não confiavam e não tinham razões para confiar no poder público.
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Era uma vez na Anatólia
A novela pode ter acabado, mas a Turquia continua em cena no Brasil. Acaba de chegar aos cinemas do país o filme "Era uma vez na Anatília", co-produção Bósnia-Turquia.
Nas planícies da Anatólia, na Turquia, um grupo composto de um policial, um médico legista e um advogado conduz dois prisioneiros em busca do local onde enterraram sua vítima. Já é tarde da noite e, em meio à escuridão, eles não conseguem mais encontrar o local exato onde foi colocado o cadáver. Entre as divagações e os deslocamentos, o advogado e o médico começam a se conhecer melhor, percebendo que eles têm pontos de vista muito diferentes sobre a vida.
© 2013 Criado por Bruno Leal.
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