• Este livro escrito pelo Professor italiano Carlos Ginzburg e publicado aqui no
  • Brasil pela Editora Companhia das Letras foi escolhido para ser o tema de discussões
  • no seminário do dia 22 de novembro. A edição brasileira desse livro possui dois
  • prefácios: um à edição inglesa, outro à italiana, sessenta e dois capítulos, um
  • posfácio, notas e abreviaturas e um índice onomástico distribuídos em 271 páginas.
  • Após lê-lo, conforme a dinâmica da atividade, resolvi escrever uma resenha
  • crítica destacando os aspectos que me chamaram mais a atenção. E um deles foi o
  • que autor fala no prefácio para a língua inglesa: “Como ocorre com frequência, esta
  • pesquisa surgiu por acaso.” Enquanto ele pesquisava sobre os julgamentos de uma
  • ceita do Friuli, deparou-se com uma longa sentença, onde uma das acusações era de
  • que o réu propunha que o mundo havia se originado da putrefação. Em 1970,
  • Ginzburg iniciou a pesquisa que originaria mais tarde ao livro.
  • O Queijo e os Vermes narra a história de Menocchio. Um moleiro,
  • funcionário de moinho, do Friuli que foi preso pela Santa Inquisição por suas ideias
  • contrárias aos dogmas da Igreja Católica. Graças a ele, também é possível entender
  • como as pessoas das classes inferiores viam, analisavam e compreendiam as questões
  • mais polêmicas sobre o funcionamento do mundo. Nosso personagem sabia ler e
  • escrever, procurava por livros, tentava compreendê-los, elaborava ideias próprias
  • após terminar as leituras e tentava discuti-las com as pessoas de sua localidade. Ele
  • se tornou um homem à frente de sua época, pois pensava e questionava livremente
  • até ser impedido pela censura da época: a Santa Inquisição da Igreja Católica.
  • Quem esse indivíduo que permaneceu anônimo até o início do processo era,
  • o que ele lia, como as pessoas de sua localidade lidavam com as ideias dele e quais
  • as causas para a Inquisição interessar-se tanto por ele representam as questões
  • descritas, debatidas e analisadas pelo autor com base em documentos processuais da
  • Cúria Episcopal de Udine, depoimentos escritos, contratos de aluguéis, cartas e
  • algumas páginas escritas pelo próprio Menocchio.
  • Inicialmente, Ginzburg apresenta o personagem. Domenico Scandella
  • popularmente conhecido por Menocchio, morador do Friuli distante vinte e cinco
  • quilômetros de Pordenone. Ele era moleiro, usava a vestimenta habitual deste
  • trabalho, mas exercia outras atividades profissionais, casado, pai de sete filho e já
  • havia sido processado duas vezes pela Inquisição. Disse aos inquisidores, segundo o
  • depoimento, que era pobre, mas isso não pode ser verídico, pois Menocchio afirmou
  • ter dois moinhos alugados e dois campos arrendados que proviam as necessidades de
  • sua família. Ademais, por ser alfabetizado, pôde trabalhar como administrador da
  • Paróquia de Montereale e antes disso magistrado das aldeias da redondeza, portanto
  • sua posição social naquela região foi razoável.
  • Menocchio havia sido processado pela primeira vez por ter dito palavras
  • “heréticas” e “ímpias” sobre Jesus Cristo numa tentativa de difundir e discutir suas
  • opiniões religiosas pessoais que ele havia pensado após anos de leituras. Sim, ele lia
  • livros e deles partia a base de suas ideias bastante originais para a época e que
  • causaram o seu assassinato. Costumava discutir os assuntos religiosos com a
  • população de sua vila, seus amigos e conhecidos que o reprovavam por não aceitar
  • tais ideias ou por medo da repressão católica, conforme os depoimentos de
  • testemunhas no tribunal da Inquisição.

  • Ginzburg cita alguns testemunhos de conhecidos de Menocchio que o
    repreendiam pelos pensamentos “errados” sobre a fé e que haviam sido interrogados
    durante o primeiro processo, mas até aqui não parecia haver hostilidade, apenas uma
    preocupação com as possíveis consequências se este continuasse a falar o que não
    devia. Havia talvez uns trinta anos que ele difundia suas ideias, mas nesse tempo
    ninguém quis denunciá-lo à Inquisição. Foi um delator anônimo que fez a denúncia.
    Os filhos do moleiro suspeitaram do padre de Montereale Dom Odorico Vorai e eles
    acertaram.
    Menocchio não reconhecia nenhuma autoridade sobre as questões de fé na
    hierarquia da Igreja Católica. De tanto discutir, ele deve ter chegado a um ponto em
    que o padre local se irritou e decidiu processá-lo a fim de manter a ordem na
    localidade e evitar que novas ideias fizessem o povo pensar contra a Igreja. Os
    movimentos da Reforma tinham surgido em muitos lugares da Europa.
    As ideias deste moleiro eram tão incomuns e revolucionárias quão as de
    homens conhecidos mundialmente também perseguidos pela Inquisição. Algumas
    vezes elas lembram também a conceitos científicos modernos a respeito do
    nascimento do universo. Menocchio usava metáforas para explicar suas ideias que
    deveriam ser compreendidas em seu contexto literal. Uma delas era a do queijo e do
    leite. Para ele, antes de todas as coisas, existia o caos, onde se encontrava terra, água,
    ar e fogo juntos. Disso, formou-se uma massa da mesma maneira que quando se fazia
    o queijo do leite e da mistura surgiram os anjos que comparou aos vermes lácteos e o
    próprio Deus. Este se tornou Senhor de quatro capitães: Lúcifer, Miguel, Gabriel e
    Rafael. Mas, o primeiro foi expulso com seus seguidores do céu por causa de sua
    soberba. Depois, a fim de cobrir o vazio deixado após a expulsão do traidor, Deus fez
    Adão e Eva e o povo todo, mas este não cumpriu os mandamentos divinos, nem com
    a presença de Jesus preso e assassinado pelos Judeus. Nesse trecho, na explicação de
    Menocchio, lê-se que ele acreditava que todos os seres humanos eram filhos de Deus,
    não apenas Cristo.
    Ginzburg preferiu adiar a análise dos conceitos elaborados por Menocchio
    para descrever a situação do processo que tendia a piorar, porque o moleiro fazia
    declarações anormais para a Igreja e muitas novidades surgiam dos interrogatórios de
    conhecidos tornando-o um verdadeiro herético perante os inquisidores.
    Nosso personagem tentou denunciar a opressão dos ricos contra os pobres.
    Ele era contrário ao uso do latim. Disse que alguém desentendido precisaria de um
    advogado perto para escutar quatro palavras em tal língua. As pessoas mais simples
    não a compreendiam. Menocchio também criticava a grande quantidade de riquezas
    que a Igreja possuía. Em sua mentalidade camponesa, a instituição religiosa e seus
    membros eram tão grandes que tudo parecia lhe pertencer. Ela deveria se manter tão
    pobre como se acreditava que Jesus tivesse sido, honrando assim os verdadeiros
    seguidores, os pobres e livre de preceitos dogmáticos não práticos. A única exigência
    citada pelo moleiro: “Amar a Deus e ao próximo.” Sobre os sacramentos como
    Batismo, Eucaristia, Crisma e Casamento, o moleiro negava todos com a alegação de

    que eles representavam invenções humanas. Eram suficientes as trocas de promessas
    antes de inventarem o matrimônio formalizado. No caso da extrema-unção, ele
    pensava que não valia, porque os espírito não podia ser ungido da mesma maneira
    que o corpo era. Na confissão, respondeu ao inquisidor que as pessoas procuravam os
    padres por não saber quais penitências tomar, mas se elas as conhecessem não
    haveria necessidade de procurá-los. Já sobre a Eucaristia, disse que não via Deus nas
    hóstias, mas apenas um pedaço de massa. Ao vigário geral da paróquia que escutou
    isso, explicou que achava que era o Espírito Santo vindo do céu que se encarnava na
    hóstia durante a cerimônia por ser maior que Cristo que apenas era um humano.
    Menocchio justificava as missas e os sacramentos como um meio de civilidade e de
    diferenciação com os animais não pensantes.
    Menocchio aceitava a ideia de que a Bíblia havia sido dada por Deus, mas
    suspeitava de que seus textos originais sofreram adaptações pelos homens. Faltava
    simplicidade dos Evangelhos e apenas parte deles eram verdadeiros, pois a outra
    havia sido elaborada pela mente de seus autores e cada autor contava a sua própria
    versão dos acontecimentos bíblicos. Com esse argumento, o personagem concluía
    que a Sagrada Escritura havia sido inventada para enganar aos homens. A questão da
    santidade para ele representava apenas um exemplo de como se deve viver. Santos
    não são nada mais que bons exemplos a ser seguidos. Não existe necessidade de
    venerar relíquias ou imagens de santos, mas apenas a Deus, assim como fez Abraão.
    Durante essa parte do interrogatório, Menocchio disse que Jesus era apenas um
    homem e que este Enviado de Deus não morreu para redimir os pecados da
    humanidade. Para conseguir o perdão, é preciso que haja penitências.
    O autor explicou, antes de iniciar a análise da mentalidade de Menocchio, o
    contexto político-social vigente na região do Friuli. Ele notou que os ataques do
    moleiro contra a divisão hierárquica mais elevada da Igreja eram mais intensos,
    devido à sua posição social e disso surgia a alegação de que os membros da
    instituição religiosa prejudicavam os pobres. Entretanto, as críticas à aristocracia
    laica local feitas pelo personagem tinham intensidade menor. Ginzburg procurou
    explicar nos próximos capítulos por que Menocchio culpa tanto a Igreja de arruinálos.
    Uma das possibilidades levantadas era que a instituição possuía muitas
    propriedades em Montereale e em seus arredores, mas isso não explicava a aspereza
    das declarações contra os últimos postos da hierarquia católica. “O Papa, os Cardeais
    e os padres arruínam os pobres. As leis e os sacramentos são mercadorias que
    engordam os padres.” Estas frases adaptadas das existentes no segundo parágrafo da
    página 58 do livro demonstram que Menocchio imaginava uma religião onde todos
    os fiéis deveriam ser iguais, pois o “espirito” ou “Espírito Santo”, ou espírito de
    Deus” encontrava-se presente em cada ser humano. Esta representava sua ideologia
    religiosa e o reconhecimento da opressão de um estamento superior contra um
    inferior.
    Até esse ponto o autor demonstra que Menocchio era alguém que não
    aceitava a imposição das autoridades político-religiosas, que acreditava na tolerância,
    no fim das cerimonias pomposas, na negação dos sacramentos e da divindade de
    Cristo com o objetivo de aderir a uma religião prática, simples, baseada nas ações
    humanas. Esses fatos sugeriram que o moleiro havia entrado em contato com um
    movimento dos Anabatístas, pois a ele o batismo era inútil, já que Deus batiza o ser
    humano quando nasce. Entretanto, logo tal hipótese foi contestada, pois muitas das
    suas ideias a respeito da missa, confissão e eucaristia contrariam o movimento.

    Ginzburg também cogitou que Menocchio tivesse contato com os Luteranos, mas não
    houve evidência que confirmasse essa hipótese, embora muitas das ideias dele se
    assemelhassem às da Reforma.
    Fato que pôde receber confirmação do autor é que os temas existentes
    naquele período como a Reforma, um agente de grande transformação social na
    Europa, não ficaram isolados às classes altas. A população italiana camponesa
    detinha algum conhecimento acerca desses assuntos. Percebeu-se também a
    convivência e possivelmente mistura de diversas tradições antigas com as discussões
    contemporâneas daquele período. Em meio isso, Ginzburg tenta encaixar os
    conceitos religiosos elaborados por Menocchio. “A metáfora do queijo primordial do
    qual nascem vermes que são anjos.”
    Para chegar ao entendimento de qual era a compreensão de Menocchio do
    mundo, de Deus, Anjos, Espírito Santo, sobre a negação da divindade de Cristo e
    que ele não havia morrido para redimir os pecados da humanidade, Ginzburg
    precisou, através dos depoimentos do processo, descobrir os livros que o personagem
    leu e como os leu.
    Os inquisidores negaram-se a aceitar que Menocchio havia aprendido sozinho
    tudo o que ele afirmava contra os dogmas católicos e suspeitaram de que tivesse
    existido alguém para lhe ensinar todas aquelas ideias, afinal era só um moleiro que
    havia aprendido latim nas missas e não um doutor em Teologia.
    Os padres e magistrados que conduziram o processo enganaram-se, pois
    Menocchio havia conseguido emprestado de conhecidos e comprado os livros, cujas
    leituras aguçaram sua mente e fizeram-no começar a raciocinar sobre as questões
    religiosas e que o sistema social dominado pela religião necessitava de mudanças a
    fim de proteger os mais pobres. Na página setenta e quatro do livro, Ginzburg listou
    os livros que o moleiro provavelmente se influenciou e inspirou-o a desenvolver sua
    concepção sociológica, política, antropológica e religiosa do mundo. Vale a pena
    citar alguns deles aqui: a Bíblia em língua vulgar, Il Fiorreto della Bibbia, Il
    Lucidario (ou Rosário) della Madonna, Il Cavallier Zuanne de Mandavilla do Sir
    John Mandevill e o Decameron de Boccacio. Obras não censuradas pela Igreja. A
    partir disso “O Queijo e os Vermes” tornou-se mais esclarecedor.
    Segundo o depoimento de Menocchio, ele explicou que Maria era chamada
    de Virgem porque ela esteve no templo das Virgens, onde havia sido deixada por seus
    pais e que havia lido no lucidario della Madonna que em outra ocasião disse ser o
    Rosário. O que o fez acreditar nessa ideia provavelmente foram os afrescos didáticos
    pintados em 1556 nas paredes da Igreja de São Rocco de Montereale, onde Maria
    aparecia isolada das outras virgens. Porém, ele inverteu os significados, dando mais
    atenção a elas.
    Foi sugerida a possibilidade de que Menocchio pudesse ter conhecido o
    Alcorão, provavelmente a partir do livro de Mandeville e daí saiu a sua hipótese de
    que Jesus poderia ser apenas um profeta enviado por Deus e que este não poderia
    deixá-lo ser crucificado, pois isso contrariaria a justiça divina.
    O caos existia antes de tudo. Este conceito, onde ar, terra, água e fogo
    permaneciam misturados foi uma relação que Menocchio fez com um dos livros de
    Ovídio e de Foresti que bagunçou a cabeça dele. Avançando na leitura, na página 105
    encontra-se um parágrafo com um depoimento que narra a sequência metafórica da
    criação do mundo, porém de maneira distorcida após passar de boca em boca pelo
    povo. “...no princípio o mundo era nada, a água do mar foi batida como a espuma e
    se coagulou como o queijo, do qual nasceu uma infinidade de vermes, esses vermes
    se tornaram homens, dos quais o mais potente e sábio foi Deus e os outros lhe
    dedicaram obediência.” Inexiste referência do caos, devido à simplificação feita pelo
    povo.

  • Para Menocchio, Deus também estava misturado no caos. Este fato gerou a
    necessidade de um novo interrogatório a fim de entendê-lo. O moleiro explicou que
    Deus não tinha consciência de si mesmo naquele meio, pois Ele era imperfeito e
    como uma criança ao nascer que só conhecia a si mesma na medida em que crescia
    começava a se entender, a tornar-se mais perfeito e a viver. Questionado de onde
    Deus recebia o seu conhecimento, Menocchio respondeu que as informações vinham
    do caos. Sobre os anjos, disse usando a metáfora do queijo que eles surgiram
    naturalmente. Depois, receberam memória, intelecto e vontade divinamente. Talvez
    fosse preferível dizer ensinados em vez de memória. Ao falar da criação, o
    personagem explica que Deus igual a um Senhor usou os anjos como trabalhadores
    para fazer todas as coisas, que Ele não poderia ter produzido nada se não existisse
    matéria e se tivesse feito tudo sozinho demoraria mais tempo. Essa explicação na
    página 109 lembou-me ao sistema social daquele época, onde os servos e
    camponeses prestavam serviços ao Senhorio ou Senhor Feudal.
    A narrativa de Menocchio usa muitos termos qualitativos, pois ela é
    totalmente baseada na religião. Contudo, foi fascinante perceber que a relutância dele
    de aceitar a criação do mundo como um ato divino baseia-se em ideias elaboradas
    graças ao seu senso crítico e em experiências cotidianas daquela época. Outro fato
    interessante é a ideia de Deus e os anjos surgidos por Geração Espontânea
    demonstrou que o moleiro preocupou-se em dar uma explicação quase científica às
    suas indagações. As respostas parecem-me mais lógicas e ordenadas que as da Igreja.
    O autor sugere que talvez Menocchio estivesse apenas transmitindo ideias
    míticas aprendidas oralmente através do que atualmente se conhece por cultura
    popular. Na Índia, por exemplo, existe um mito antiquíssimo semelhante ao do leite
    que explica a origem do cosmo pela coagulação.
    Segundo Ginzburg, houve um aumento do alcance da cultura oral graças ao
    movimento da Reforma e à difusão da imprensa que garantiu o acesso da leitura nos
    idiomas falados pelas pessoas comuns. Estes indivíduos mesmo sendo judeus,
    muçulmanos, turcos, cristãos e heréticos eram considerados por Menocchio todos
    filhos de Deus que não se importa com as blasfêmias deles por possuir muito amor a
    dar. Quem blasfema contra Deus não comete pecado, pois só faz mal a si próprio,
    pensava Menocchio. Para ele, só representava pecado a ação que prejudicasse outra
    pessoa.
    Continuando a contrariar os dogmas católicos e até a si mesmo, Menocchio
    disse aos inquisidores que quando o corpo humano morria acontecia o mesmo com a
    alma, enquanto isso o espírito continuava eterno. Ele aceitava a diferença das duas
    entidades, mas definia-as ao seu modo. Haveria dois espíritos, um bom e um ruim, e
    sete almas que possuem funções de operações da mente. Elas eram representadas por
    intelecto, vontade, pensamento, crença, memória, fé e esperança. Com relação aos
    quatro elementos, também existia uma nomenclatura dela correspondente a função
    desempenhada pelo corpo.
    As ideias sobre a alma foram bastante discutidas por filósofos, médicos e
    padres. O autor cita a Universidade de Pádua, o franciscano Girolamo Galateo e
    Paolo Ricci também conhecido como Camillo Renato. Este último influenciou
    diretamente Menocchio.

  • Durante o interrogatório do dia 22 de Fevereiro, Menocchio que antes
    acreditava que o espírito denominado Alma retornava a Deus pareceu se contradizer
    e depois, no dia 1°, voltou a defender sua tese original. Alma e espírito são a mesma
    coisa. Resposta proferida na primeira vez que lhe perguntaram. Após um bombardeio
    de questões, os inquisidores continuaram insistindo na pergunta se a alma de Cristo
    morreria com sua morte. O moleiro confirmou a resposta alegando que ela seria
    desnecessária lá em cima. Ao fazer referências do Juízo Final, disse que o Espírito de
    Cristo por ser terreno ocuparia um lugar reservado aos terrenos.
    Ele também respondeu mais tarde sobre a ideia de Inferno que achava uma
    invenção dos padres, que Deus e homem ver-se-iam pelo intelecto e que o paraíso era
    uma espécie de festa. As influências sobre este lugar são da parte do livro de
    Mandeville que fala de Maomé. Não acreditava na ressurreição da carne, pois se
    todos os corpos voltassem a viver, a Terra cobrir-se-ia deles e achava que as
    indulgências tinham benevolência e o verdadeiro “lugar de punição” era aqui.
    No passado a Igreja era pobre, humilde e pura. Menocchio por saber ler havia
    adquirido esses conhecimentos e tentado difundi-los através de ideias novas com a
    finalidade de conseguir uma reforma da sociedade. Os padres daquela época para ele
    eram sedentos por dinheiro. Quando o papa Leão X instituiu as indulgências eles
    viram uma forma de lucrar, causando, consequentemente, insatisfação e revolta por
    parte dos membros da instituição que conseguiram alertar suas populações a fim de
    desagregar da religião católica romana e fundar versões mais decentes.
    Após o interrogatório, resolveram aplicar a tortura para que Menocchio
    confessasse o nome de seus cúmplices, mas eles não existiam. Ele não falava dessas
    questões nem com a família. Ademais, a maioria da população era de camponeses
    ignorantes que temiam a punição da Igreja se eles descumprissem as regras impostas.
    Os inquisidores promoveram um longo processo contra o moleiro a fim de
    conhecer a profundidade das heresias dele para ajudá-lo a entender que ele havia
    cometido erros gravíssimos contra a fé cristã e que deveria arrepender-se
    verdadeiramente antes de assumir a penitência. Como punição, teve de abjurar
    publicamente as heresias, a vestir para sempre um hábito como sinal da cruz e ficar
    na prisão de Concórdia às custas dos filhos o resto de sua vida. Permaneceu nesse
    lugar que o adoentou por apenas dois anos, pois ele havia conseguido uma liberdade
    parcial por interferência da família. Ficaria para sempre na aldeia de Montereale,
    onde estaria proibido de sair. Lá, voltou a trabalhar como administrador da igreja
    local.
    Com a morte do filho que o sustentava, Menocchio foi procurar o novo
    inquisidor de Udine para pedir dispensa de suas obrigações a fim de poder sair da
    • cidade para trabalhar e conseguir sustentar sua família. A liberdade foi concedida,
    excetuando a obrigação de usar o hábito. Nesse período, ele voltou a defender suas
    teses, o processo foi, então, reaberto, preso novamente, os filhos abandonaram-no,
    sofreu tortura a fim de que revelasse os nomes de seus cúmplices e finalmente após
    ser considerado um relapso, reincidente, condenado à morte na fogueira.
    O homem que disse: “se me fosse permitida a graça de falar diante do papa
    (…) se depois me matassem não me importaria” tornou-se alguém diferente, solitário
    em meio a tantos camponeses que no máximo só sabiam o Credo, um pensador e um
    visionário que só pôde ser resgatado graças a esse seu costume que o levou para a
    morte.

    A nível de comparação, segundo o posfácio e um pensamento pessoal
    assumindo concordância com o autor, esse personagem pode ser comparado ao
    comunista perseguido dentro de países de ideologia capitalista na guerra fria, o
    dissidente que luta por democracia durante uma ditadura e como estes, ele já havia
    sido considerado culpado por simplesmente rejeitar o sistema vigente na época e
    pensar em respostas lógicas a questões tão complexas que as pessoas mais poderosas
    dos séculos XVI e XVII eram incapazes de compreender ou não aceitavam o fim da
    chamada verdade absoluta que elas acreditavam estar na Bíblia, de filósofos da
    Antiguidade e de teólogos renomados.

Autor: Itacir José Santim

Postado originalmente em: http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/3368566

Exibições: 5578

Tags: Carlo, Ginzburg, O, Queijo, Resenha, Vermes, e, os

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Comentário de José Luiz Xavier Filho em 6 novembro 2012 às 14:54

Muito bom.

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Uma promessa

Está em cartaz nos cinemas brasileiros o filme franco-belga "Uma promessa", de Patrice Leconte. 

Sinopse: Alemanha, 1912.  Um jovem diplomata (Richard Madden) ingressa no serviço administrativo de uma usina siderúrgica. Por conta do seu bom trabalho, seu patrão (Alan Rickman) o contrata para o posto de secretário particular. Conforme os dias passam, ele conhece e se aproxima da esposa (Rebecca Hall) do chefe, apaixonando-se perdidamente por ela. Ele recebe a missão de ir ao México repentinamente e, ao anunciar sua partida, a mulher entra em desespero, realizando que ambos se amam. Sendo assim, fazem uma promessa de amor: um dia ele irá retornar e os dois finalmente ficarão juntos.

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