Queria saber o que é o amor mas não encontrava respostas. Então lembrei de um velho conselho: “a sabedoria está nos livros antigos”. Não hesitei, fui à biblioteca e separei apenas os livros que cheir…

Queria saber o que é o amor
mas não encontrava respostas.
Então lembrei de um velho conselho: “a sabedoria está nos livros antigos”.
Não hesitei, fui à biblioteca e separei apenas os livros que cheiravam a mofo.
(Primeiro fui àqueles que mais cheiravam a mofo e gradativamente fui subindo)
Em Odisséia aprendi com Ulisses que o amor nada mais e que um ato heróico, digno de ser lembrado por seus posteriores. Um ato heróico, ou melhor, um amor, deve ser registrado na História, deve ser tocado por Clio, me disse Ulisses.

Deixei-o de lado, queria saber o que era o amor para Sócrates.
Mas lembrei que Sócrates nada escrevera.
Então aprendi com Sócrates que o amor é indizível, inarrável, incomensurável: nada podia ser escrito sobre ele, o amor não pode ser materializado em uma folha de papel ou num pergaminho qualquer, me disse Sócrates bem baixinho.

Percebi que o amor não era estanque como queria Parmênides; “o amor é ou não é”, me dizia ele em tom bastante lógico.

Fui até Heráclito para mostrar a Parmênides que o amor nada mais é que um rio, pois se a realidade é algo dinâmico, em permanente transformação, o amor também o é.
Ele me disse: “nunca podemos vivenciar duas vezes um mesmo amor/pois suas águas se renovam a cada instante/não tocamos e sentimos duas vezes o mesmo amor/pois este modifica continuamente sua condição”.
Agora sabia que o amor nada mais é que um rio que corre – sempre novo, nunca o mesmo.

Mas Heráclito, com seu amor um tanto dialético, me fez recorrer a Platão. Este, um tanto apressado, nem me mostrou a tese muito menos a antítese, veio logo com a síntese: “o amor nada mais é que uma idéia”, disse ele. Ao meu lado estava Glauco, Adimanto e Trasímaco, todos permaneceram taciturnos, não houve diálogo como de costume.

Resolvi ver se o discípulo era fiel ao mestre, mas logo em seguida lembrei que ser fiel ao mestre não era apenas concordar com ele; para ser fiel, era preciso nunca esquecer os ensinamentos do mestre afim de superá-los. A fidelidade do discípulo é a superação do seu mestre (mas o discípulo nunca deve admitir ter superado seu mestre).

Então abri na primeira página de um de seus vários livros – Política – onde, de imediato estava escrito: “todo amor é um tipo de associação, e toda associação é estabelecida tendo em vista algum bem”, e, prosseguindo, dizia “por conseguinte, o amor, a mais alta dentre todas as associações, a que abarca todas as outras, tem em vista a maior vantagem possível, o bem mais alto dentre todos”.

Em Aristóteles, apesar de conhecer um amor lógico, dedutivo, estruturado e racional, aprendi que o amor está entre as mais altas virtudes humanas.
Surgiu a dúvida; será que Alexandre, aluno de Aristóteles, aprendera e apreendera essa concepção de amor aristotélica? Lembrei que Alexandre tivera uma vida muito ocupada para escrever sobre o amor... e agora, como conhecer o que Alexandre pensava sobre o amor?

Havia esquecido um livro na estante, era “Alexandre e Cézar: vidas comparadas” escrito por Plutarco. Abri involuntariamente na seguinte passagem: “Mas Alexandre, julgando com razão ser mais digno para um rei vencer-se a si mesmo do que triunfar sobre os inimigos, não tocou nas prisioneiras. Nem conheceu antes de seu casamento, outra mulher a não ser Barsina”. Então aprendi que, para Alexandre, o amor nada mais era que conquista aliada ao respeito, à perseverança e à dignidade. O amor para Alexandre era a junção dessas quatro palavras.
(Percebi que minha “busca pelo amor” não era linear, ia e voltava, era uma busca meio confusa, mas lembrei que o amor é confuso e que, portanto, somente uma busca confusa poderia me levar até ele)

De súbito veio uma palavra na cabeça: epicurismo; fui procurar o que Epicuro podia dizer sobre o amor: “A única coisa real que se oferece à nós é o amor, desfrute estável e sem dor, que tem suas raízes no corpo e na carne”. Ele passara um corretivo na definição de Platão e, em um só instante, mostrara que o amor é algo real, algo palpável, possível e digno de ser vivido; em uma palavra, para Epicuro, o amor era um prazer.

Fiquei triste e sorridente
havia buscado na fonte da sabedoria o que era o amor, mas no final continuei com a mesma dúvida que motivara minha busca: o que é o amor?
Queria saber o que é o amor...

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