Pierre Vilar e o conceito de 'Modo de Produção'

'Modo de Produção' é um dos conceitos centrais do Materialismo Histórico. O conceito, todavia, beneficiou-se de inúmeras releituras, depois de proposto por Marx e Engels por ocasião da fundação do paradigma do Materialismo Históirico. Historiadores, sociólogos e filósofos vários, ligados a este paradigma, rediscutiram o conceito à luz de novas proposições teóricas, de novas constatações empíricas a partir da história efetiva, ou de novas demandas teórico-metodológicas. No texto abaixo, veremos a posição de Pierre Vilar com relação à delimitação deste conceito.

 

O texto foi extraído do primeiro capítulo do Volume III de Teoria da História [BARROS, José D'Assunção. Teoria da História, volume III: Os Paradigmas Revolucionários. Petrópolis: Editora Vozes, 2011]. O primeiro capítulo deste volume aborda o paradigma do Materialismo Histórico não apenas como ele foi compreendido e aplicado por Marx e Engels, mas também por historiadores, sociólogos, antropólogos e filósofos que posteriormente aperfeiçoaram o paradigma e nele introduziram variedades que podem ser compreendidas como novas correntes teóricas do Materialismo Histórico.

 

O primeiro capítulo do 'volume III' de Teoria da História (Paradigmas Revolucionários), parte de uma distinção inicial entre "materialismo histórico", "marxismo" e "pensamento marxiano", e em seguida passa a esclarecer os fundamentos deste paradigma social-ecoômico-historiográfico que surge em meados do século XIX a partir dos trabalhos de Marx e Engels. São discutidos sucessivamente os princípios e conceitos fundamentais do paradigma "Dialética", "Modo de Produção", "Luta de Classes", "Praxis", "Ideologia", entre outros. Busca-se trazer uma discussão complexa sobre aspectos mais polêmicos, como o "Determinismo", a definição de "Classe Social" ou o que seria efetivamente um "Modo de Produção", no entender de autores que vão de Marx e Engels a Gramsci, Lukács, Thompson, Hobsbawm, Godelier, Pierre Vilar, Perry Anderson, Walter Benjamin, entre outros. O texto aqui reproduzido faz parte do subcapítulo que examina a posição de diversos teóricos e intelectuais - sejam historiadores, sociólogos, antropólogos ou outros - com relação ao conceito de 'modo de produção'.

 

O segundo capítulo do volume aborda a contribuição de Friedrich Nietzsche para a História, discutindo o que foi denominado no livro como "Paradigma da Descontinuidade". As críticas de Nietzsche à noção mecanicista de Progresso, ao finalismo historiográfico, à escrita linear da história, e às insuficiências de certos setores historiográficos para desenvolver uma História que seja útil à Vida são apresentadas não apenas evocando a obra e proposição de Nietzsche, mas também de outros autores que retomaram estas mesmas críticas, tais como Michel Foucault, entre outros. Será a História uma Arte ou uma Ciência, como pensavam taxativamente os historiadores do século XIX? Como elaborar uma História que efetivamente sirva à Vida? Essas e outras questões são desenvolvidas no segundo capítulo do 'volume III'.

 

Capítulos da série Teoria da História podem ser pedidos para jose.assun@globo.com  Uma apresentação de Teoria da História e do conteúdo de seus quatro volumes pode ser encontrada nos links http://ning.it/hF11Zj e http://ning.it/gjDwtD

 

 

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O Modo de Produção segundo Pierre Vilar [Teoria da História, III, p.62-64]

 

Em diversificados textos de Pierre Vilar, o tratamento mais complexo dispensado ao modo de produção – concebido como simultaneamente determinado e determinante – expressa-se através da atenção conferida a aspectos por vezes secundarizados pelo marxismo mais corriqueiro de sua época. Assim, no artigo escrito para a revista dos Annales de 1973, intitulado “Histoire Marxiste, histoire em construction” (1973-b), Pierre Vilar chama atenção para um aspecto pouco abordado no delineamento de um Modo de Produção: as condições geográficas. Depois de destacar a influência do clima, do relevo, e de outros aspectos geográficos na vida humana, Vilar acrescenta que cada sociedade manipula o espaço em função de suas técnicas, necessidades e organização interna (LEMARCHAND, 2007, p.97). Percebe-se simultaneamente o diálogo com Febvre e Braudel, e a preocupação em estabelecer os horizontes marxistas de sua concepção.

 

Avançando ainda mais na complexificação do conceito de Modo de Produção, Vilar acrescenta-lhe também a importância da Demografia, impondo-se ao mesmo tempo para redefinir as forças de produção e o potencial de consumo. Para aquilatar a importância das reflexões pioneiras de Vilar neste sentido, devemos acompanhar as análises de Lemarchand, que dissertou mais sistematicamente sobre “A Noção de Modo de Produção em Pierre Vilar” (2007, p.98). Um artigo de Pierre Vilar datado de 1956, intitulado “Le temps du Quixotte”, escrito para a revista Europa, já trazia a Demografia para primeiro plano. O ensaio de Pierre Goubert que introduz o estudo da demografia para a França do século XVII, intitulado Beauvais et Le Beauvasis data de 1960. E os materialistas históricos dos anos 1960, na sua maioria, ainda expressariam uma acentuada desconfiança em relação à Demografia, então uma ciência recente.

 

Tudo isto ilumina o caráter inovador de Pierre Vilar ao trazer para as discussões sobre o Modo de Produção simultaneamente as instâncias Geográfica e Demográfica. Isto, naturalmente, sempre dentro do horizonte maior do Materialismo Histórico, e será oportuno lembrar que em 1960, mesmo ano da publicação do Beauvais de Pierre Goubert, Pierre Vilar profere uma conferência intitulada “Crescimento Econômico e análise histórica” na qual ressalta a importância da dimensão demográfica mas critica a autonomização da Demografia, ressaltando que o fator população não poderia se constituir na chave universal para a compreensão da História.

 

Por fim, Pierre Vilar acrescenta ao Modo de Produção o aspecto mais renitente entre os marxistas de sua época: a superestrutura, a começar pelo papel do Estado, sempre lembrando que seu principal objeto de estudos históricos nos anos 1960 refere-se à Monarquia na Espanha dos séculos XVI e XVII. Em seguida, a Ideologia, incluindo o desprezo da aristocracia espanhola pelo trabalho, e, particularmente, a Religião, destacada com especial cuidado por Pierre Vilar para uma correta compreensão do mundo feudal, o que é nos dias de hoje uma instância de primeira ordem para a compreensão do modo de produção feudal, mas cujo papel fora muito negligenciado pelos marxistas franceses da época de Pierre Vilar. Vale ainda lembrar que, sintonizando com uma concepção análoga expressa nos anos 1960 pela micro-sociologia política de Georges Gurvitch, Pierre Vilar ainda chama atenção para o fato de que cada instância da formação social – a economia e a Política, por exemplo – tem o seu ritmo próprio.

 

 

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O texto apresentado neste post foi extraído do primeiro capítulo do ‘Volume III’ de Teoria da História [BARROS, José D’Assunção. Teoria da História, volume III – Paradigmas Revolucionários. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, p.62-64]. No primeiro capítulo deste volume, é abordado o paradigma do Materialismo Histórico; no segundo capítulo, examina-se inicialmente a contribuição de Nietzsche à reflexão historiográfica, ao lado de sua crítica do conhecimento e de seus severos questionamentos contra a noção mecaniscista de progresso.
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Quem se interessar em receber alguns capítulos da obra Teoria da História, para conhecê-la melhor, basta deixar um comentário com seu e-mail neste tópico, ou então pedir para jose.assun@globo.com. Uma apresentação da obra pode ser encontrada em http://ning.it/hF11Zj

Referência: BARROS, José D'Assunção. Teoria da História, volume III: Paradigmas Revolucionários. Petrópólis: Editora Vozes, 2011.

 

Leia o sumário geral da obra em: http://ning.it/gFg3Pu

 

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Tags: Marxismo, Materialismo-Histórico, Modo-de-Produção, Vilar

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