Palavra Acesa (Fernando Filizola)

Se o que nos consome fosse apenas fome
Cantaria o pão
Como o que sugere a fome
Para quem come
Como o que sugere a fala
Para quem cala
Como que sugere a tinta
Para quem pinta
Como que sugere a cama
Para quem ama
Palavra quando acesa
Não queima em vão
Deixa uma beleza posta em seu carvão
E se não lhe atinge como uma espada
Peço não me condene oh minha amada
Pois as palavras foram pra ti amada
Pra ti amada
Oh! pra ti amada
Palavra quando acesa
Não queima em vão
Deixa uma beleza posta em seu carvão
E se não lhe atinge como uma espada
Peço não me condene oh minha amada
Pois as palavras foram pra ti amada
Pra ti amada
Oh, pra ti amada
Pra ti amada

 

Todas as vezes que escuto esta canção, fico encantada com a harmonia dos  instrumentos em notas que ecoam em sons diferenciados pela forma de uma corda no violão ou do sopro na flauta  e na  percussão dos tambores, que ritmados, parecem galopar em meio a beleza da dança da poesia. Penso muito sobre a palavra acesa, viva e que é comparada a uma espada. Lembro-me logo de Jesus Cristo, o verbo que se fez carne. Jesus, a palavra viva! Mas, como este texto tem um objetivo histórico, então, a primeira análise que faço é sobre o grupo musical  Quinteto Violado e sua trajetória na MPB, procurando  inserir sua arte pernambucana e nordestina na conjuntura sociopolítica do Brasil entre as décadas de 1970, 80 e 90, tanto em tempos de ditadura militar, onde a censura, por proibir,   transformava o artista em um erudito poeta com suas complexas metáforas, tanto nos tempos de liberdade e democracia, a partir de 1985, quando expressar o regionalismo era algo imprescindível  à arte musical.  Mas, tal é a minha empolgação com a poesia do autor Fernando Filizola, que as palavras transportam-me para mais longe, saindo do Nordeste, do Brasil, voando em direção aos confins deste planeta Terra. O mesmo ocorrendo com o tempo, que deixa de ser o cronológico com seus recortes limitáveis. Assim, não há mais espaço e tempo, apenas a permanência da palavra acesa para a humanidade.  

A História tem como linguagem básica a escrita, sendo  consenso científico que o início de uma história com suas datações e registros é decorrente da invenção da escrita, a partir da necessidade humana de se expressar através de símbolos, daí a originalidade e pioneirismo das notáveis civilizações da Antiguidade, tais como a egípcia com os hieróglifos, a Suméria com sua escrita cuneiforme, e a grande civilização  dos maias, que tem uma escrita ainda em estudo pela Paleografia.

 As exigências do cotidiano como a contagem de grãos, a fiscalização, o censo, e registros de batalhas, além dos feitos de imperadores exigiam códigos que deram origem às letras e palavras. Desta feita, podemos traçar um paralelo entre os tempos imemoriáveis com o contexto do espaço e tempo de vida do poeta.  Destaquemos a primeira estrofe do poema: “Se o que nos consome fosse apenas fome cantaria o pão como o que sugere a fome para quem come” . O que consome o homem são as suas necessidades, e a alimentação corresponde à manutenção da vida , portanto, nos primórdios da humanidade  as atividades de trabalho, a produção do conhecimento e  tecnologias, e o surgimento das primeiras cidades, estabeleceram-se baseadas na produção do alimento, primeiro a caça, a coleta e na Revolução Neolítica,  a agricultura. Pergunto-me, então, por que Filizola começa escrevendo sobre a fome? Fome como necessidade orgânica, fome de conhecimento e espiritualidade, ou de liberdade de expressão? Não consigo desvincular as três.  O próprio conhecimento é produzido com a finalidade de suprir as necessidades humanas tanto materiais,  como espirituais, portanto a cultura se insere de maneira espontânea. Ora, voltando às raízes do poeta, é notória a situação social decorrente das secas no Nordeste brasileiro, pensemos nas terras áridas, na ausência de chuva, na escassez dos grãos, em crianças magras e esquálidas, em retirantes de lábios rachados pela sede e pela fome. Séculos de descaso político, social e tecnológico, o que me fez pensar no que escreveu  Pero Vaz de Caminha[1]

 “ Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.”

. Tracemos um paralelo com as civilizações hidráulicas, aquelas que mesmo em desertos, desenvolveram tecnologias e souberam transformar os cursos de água dos grandes rios em fontes inesgotáveis de produção de grãos. O Rio Nilo, Rio Tigre e Eufrates, Rio Ganges, Rio Amarelo. Além dos grandes reservatórios de água das cidades maias.  Comparemos com a escassez de tecnologias  para esta região que é contemplada pelo grande Rio São Francisco. Ora, sem água é impossível a produção de alimento.

 Todavia, segundo o poeta, o que consome o homem não é apenas a fome, e continua: “ Como que sugere a fala para quem cala”. A escrita advém da fala, o homem é o único animal falante, o único capaz de articular  fonemas. Pensemos na comunicação. Ora, o poema foi escrito nos anos 70 em um momento de linha dura no contexto ditatorial  brasileiro e mundial pois era a Guerra Fria o grande pano de fundo numa ordem mundial bipolar, a censura era radical, não havia liberdade de expressão. Todavia, as palavras se acenderam e deixaram belezas  postas em seu carvão nas músicas, nos muros, na imprensa clandestina, nos encontros de estudantes em centros de cultura, nos subterrâneos das prisões e nas dores e gritos das torturas. Nossos ouvidos devem ir  longe no tempo e ouvir  todos os que por motivos políticos e religiosos foram calados, pensemos em Sócrates, o filósofo que foi condenado a morte por suas palavras, em Jesus de Nazaré, que ensinava através de suas parábolas, e por falar de um reino eterno, ameaçou o poder político romano e o religioso judeu, sendo condenado a morte de cruz, um dos maiores instrumentos de tortura romana,   em Joana D’Arc, mulher guerreira, que por ser conselheira de um rei e, todavia,  por ser mulher e camponesa, foi calada em um contexto medieval, acusada de bruxaria pela inquisição e queimada na fogueira. Em Giordano Bruno, também calado pelo fogo da inquisição, Galileu que soube usar os carvões de suas palavras.  Gandhi, Martin Luther king, Che Guevara. Tantos nomes de homens e mulheres que por falarem aquilo que tinham como verdade, foram calados. O poder político e religioso mata o homem, mas acende a palavra.

 E o poder da palavra na democracia? Desde Atenas, na Grécia Antiga, até a luta revolucionária fundamentada nos ideais liberais de um Rousseau, Voltaire e Montesquieu. Quantos livros foram queimados como sendo malditos, por despertarem o homem para uma visão mais racional e individual? A luz do conhecimento do racionalismo ou a luz da revelação de Deus. Palavra acesa! 

E Filizola continua “ como que sugere a tinta para quem pinta”.  A pintura é a expressão do contexto histórico em todas as eras: na pré-história os registros deixados pelas pinturas rupestres mostram as caças e figuras humanas. Em Creta há as imagens femininas sugerindo uma sociedade matriarcal, além da presença das lutas com touros, nos remetendo ao mito do Minotauro.  Nas cidades orientais do Egito, China e Índia, nos templos e pirâmides, pinturas de divindades e cenas do cotidiano. Nos afrescos romanos e gregos os tons e imagens antropomórficas escrevem que a cultura gira em torno do homem com toda a sua beleza de formas. Nas telas renascentistas o  classicismo antropocêntrico é resgatado se contrapondo ao teocentrismo medieval. O homem  é visto e representado como um ser  racional portador de seu próprio destino, seu corpo é valorizado, os prazeres mundanos, o hedonismo é a regra. Há a simbiose entre arte e ciência. A busca por perfeição conduz o artista a conhecer as entranhas do corpo humano, além do avanço da alquimia na busca dos tons de tintas que ficariam impressos nas pinceladas de Leonardo da Vinci, em sua instigante Gioconda, nas madonas de Rafael e no êxtase de  Miquelângelo, na belíssima Capela Sistina. Toda a arte gira em torno dos anseios das lideranças da época: a igreja, os reis e os burgueses.

E a pintura  de Picasso mostrando os horrores de Guernica, alvo das atrocidades Hitleristas na Guerra Civil Espanhola? E Cândido Portinari com as cores dos retirantes nordestinos de um Brasil modernista? A tinta para quem pinta é como a pena para quem escreve.  Observe tudo o que o artista de rua tem a falar em seus matizes de spray.

E “ a cama para quem ama”. Filizola conclui esta primeira parte do poema falando do amor.  O amor move o mundo em todos os sentidos. É a própria essência que conduz as ações humanas. No princípio foi inevitável que um homem e uma mulher se deitassem para que houvesse o crescimento populacional, e o espaço fosse sendo ocupado. A ciência diz que o primeiro homem tem como berço o continente africano, migrando, posteriormente, para outros lugares. Mas, o que pensou o poeta ao falar do amor, esta palavra que acende e que não queima em vão nos corações e mentes deixando-os com beleza incomparável todas as vezes que é  pronunciada e praticada?     Amor à pátria, pelo regionalismo, pelos ideais, pela igualdade e democracia? Era momento de utilizar metáforas. Ora, em sua conclusão, todas as palavras  escritas e cantadas foram dedicadas a sua amada. Portanto, penso que a amada somos nós, seus leitores e ouvintes, os que admiram a sua arte regional, nacional e mundial . Permita-me, grande Quinteto Violado, mostrar o meu amor pela palavra acesa, palavra que tem o poder de expressar ideias, sentimentos e tornar o mundo melhor.  Principalmente, permitam-me os amantes, aqueles que mesmo em tempos de luta, repressão, guerra, ou liberdade, não perderam a esperança proclamada pela palavra.

             



[1] A Carta de Pero Vaz de Caminha. Biblioteca Virtual. Biblio.com.br

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