Paulo Monteiro
No dia 4 de abril de 2012 Do Contrato Social, de Jean-Jacques Rousseau, completou 250 anos. Já no dia 22 de maio será a vez de Emílio ou da Educação alcançar a mesma idade. Com esses dois livros o pensador genebrino criou o cidadão e o jovem. A segunda obra, que deveria ser a primeira em ordem de publicação, lançou as bases da pedagogia contemporânea; a primeira instituiu a cidadania e a democracia liberal.
Rousseau pagou, do ponto de vista pessoal, um preço muito grande por suas ideiais. Acabou condenado pela Igreja Católica, na França, e pela Igreja Calvinista, em Genebra. Os seus livros foram condenados e queimados em praça pública, além de proibidos em muitos países. Do contrato Social entrou contrabandeado nas três Américas, contribuindo para o fortalecimento ideias de independência.
O que caracteriza o estilo de Rousseau e que contribuiu para a influência de suas obras, é o resumo que ele faz do que expõe e à medida que vai desenvolvendo seus raciocínios. Em Do Contrato Social, já nas primeiras linhas, assim justifica o porquê dos seus escritos: “Se fosse príncipe ou legislador, não perderia meu tempo, dizendo o que deve ser feito; haveria de fazê-lo, ou calar-me” (in Jean-Jacques Rousseau, 1712-1778 [Os Pensadores], 2ª. Ed. – São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 21). Abre o Capítulo I, do Livro Primeiro, com estas palavras lapidares: “O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se a ferros” (Op. Cit. p. 22). E prepara o encerramento do Capítulo II, com a máxima que me acompanha há décadas: “A força fez os primeiros escravos, sua covardia os perpetuou” (Idem, p. 25). O capítulo seguinte é iniciado com uma sentença lapidar: “O mais forte nunca é suficientemente forte para ser sempre o senhor, senão transformando sua força em direito e a obediência em dever” (Ibidem, p. 25).
Tendo vivido numa época de intolerância religiosa, da qual foi uma das vítimas mais famosas e um dos mais bravos combatentes desse sistema tenebroso, não é sem razão que prepara o encerramento Do Contrato Social com um capítulo intitulado “Da religião civil”. Dali retiro esta passagem onde resume o que seja, na verdade, todo e qualquer fundamentalismo religioso: “Em todos os lugares onde se admite a intolerância religiosa, é impossível que não tenha um efeito civil e, assim que surge, o soberano não mais o é, mesmo temporalmente. Daí por diante, os padres serão os verdadeiros senhores e os reis não passarão de funcionários seus” (Ed. Cit., p. 144). É o que vemos, ainda hoje, nos mais diferentes pontos da terra, onde a cidadania inexiste e onde a cegueira religiosa, em vez de cidadãos cria misticopatas sanguinários.
Emílio ou da Educação segue o modelo formal de Do Contrato Social. “Tudo está bem ao sair das mãos do autor da natureza; tudo degenera nas mãos do homem” (Tomo I, p. 13). Sãos as palavras iniciais do Livro Primeiro. Sua preocupação pedagógica maior é com a formação de cidadãos. Assim é que vemos nesta passagem da edição que estou citando (Tomo I, p. 21): “Os pais só pensam em conservar sua criança; isso não basta: devem ensinar-lhe a conservar-se quando for homem, a suportar os embates da má sorte, a carregar a opulência e a miséria, a viver, se necessário, nos gelos da Islândia ou na abrasada ilha de Malta”.
Rousseau vai além da educação escolar. Denuncia a maneira como as crianças eram criadas: amarradas com faixas e entregues aos cuidados de camponesas ignorantes. “Sem mães não há filhos. São recíprocas as obrigações entre ambos, e se se desempenham mal por um lado, serão desatendidas por outro” (Tomo I, p. 27). Pregava a responsabilidade dos pais para com os filhos. “Quando um pai gera e mantém seus filhos, não faz mais do que a terceira parte de sua missão. Deve a sua espécie homens; deve à sociedade homens sociáveis, e deve cidadão ao Estado. Todo homem que pode satisfazer esta tríplice dívida e não o faz, é culpável, e mais culpável se o faz mal. Quem não pode desempenhar pode desempenhar as funções de pai não tem direito de ser pai” (Tomo I, p. 31). As citações foram traduzidas de Emilio o la educación, version española de José Marchena revisada y corregida (Buenos Aires: Editorial Albatros, 1944).
Eu poderia encher páginas e páginas com citações dessas obras fundamentais, comprovando uma continuidade no pensamento rousseauniano sobre a criança, o jovem e o cidadão. Essa continuidade é o respeito ao indivíduo e à união livre e responsável deste com a sociedade. Entretanto, como em todos os tempos continuarão nascendo degenerados, sempre encontraremos todo tipo de psicopatas, inimigos da liberdade. E destes, os mais deploráveis são os misticopatas. (Publicado no JORNAL ROTTA, Ano 11, II Fase, Nº 219, página 6, Passo Fundo, de 8 a 24 de abril de 2012).
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Somos tão jovens
Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.
Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.
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