http://www.10pt.org/2011/10/olha-la-na-rua-o-rui/
Rui
Sé, Porto
“Made in Oporto”
Colaborador activo e forte entusiasta do Olha lá, Rui, 37 anos, um filho da Sé actualmente a residir na Vitória, “ali junto às Galerias de Paris”, olha orgulhoso o retrato gigante do seu rosto: “reparei que podia ter feito a barba neste dia, mas está bem, está muito bonito”.

©Susana Neves
Fotógrafo amador, são suas algumas das mais surpreendentes fotografias da exposição que o Olha lá organizou e que a Casa-Museu Guerra Junqueiro acolhe por estes dias. A quantidade de instantâneos que Rui reteve do Porto nos últimos meses, por causa do Olha lá mas não só, daria, aliás, para cobrir por inteiro as paredes daquela e de outras Casas, mas isso é outra conversa. Agora, o que se pedia era que Rui, depois de tanto objectivar, passasse finalmente para o lado da frente da objectiva. Junto ao seu retrato, como quem tira, ainda assim, mais uma fotografia, Rui oferece-nos um apanhado do Porto: “A imagem que as pessoas têm do Porto é sempre a mesma. É aquela imagem de que as pessoas são bem recebidas, que as pessoas do Porto são acolhedoras, recebem todo o mundo de braços abertos…”. Como em qualquer fotografia, tem de haver, todavia, um negativo. Rui sabe-o: “Só que há outra imagem da cidade que parece que afasta as pessoas, que é… tu desceres na Rua de Mouzinho [da Silveira], tu desceres em muitas das ruas do centro da cidade do Porto, onde tu vês o abandono, onde podia estar restaurado, onde podiam estar as mesmas pessoas que lá viveram, que provavelmente nasceram nesses mesmos lugares [e] que saíram para outros lugares porque ali não tinha mais condições… A política da cidade funciona assim: preferem ver a cidade vazia, sem ninguém, do que ‘tar lá a morar pessoas e depois há aquele contexto em que ‘tão os prédios por habitar e em que pagas 400 ou 350 euros e não tens as mínimas condições lá dentro. Isto é, porque precisas de viver no centro, porque te fica mais económico a nível de transportes, que trabalhas perto, e tentas arranjar uma casa perto do teu trabalho, os transportes cada vez ‘tão mais caros, não é?, e aí a cidade do Porto não tem como receber essas pessoas. Muitas pessoas que trabalham no Porto não vivem no Porto, ‘tá tudo fora do Porto”.
Rui fala de muita gente com a qual em tempos conviveu: “A cidade do Porto é cara! Viver na cidade do Porto é caro! E o dinheiro que a gente dá por uma casa não compensa. Se formos a ver o real valor, não é o real valor. Há casas que… Isto não vale 50 euros por mês. E elas estão a ser alugadas por 250! (…) Eu tive centenas de pessoas que andaram comigo na escola e agora conto quatro ou cinco [que vivem no centro da cidade]. Uns vão prá Maia, outros vão pra Ermesinde, pra Gondomar…”. Rui teve ele próprio de mudar. A sua casa no velho Bairro da Sé, onde nasceu e onde viveu até aos 26 anos, ameaçava ruína e Rui foi obrigado a sair para a periferia citadina. Acabaria, todavia, por regressar, já não para a freguesia de origem, mas para muito perto. Na Vitória, aliás, sente-se bem: andou ali na escola, tem por aquelas bandas muitos amigos e familiares, desde os catorze anos que tem naquela freguesia o seu barbeiro, o mesmo de sempre… Rivalidades entre as freguesias? Só nas rusgas de S. João, mas sempre “saudáveis”…

©Susana Neves
Uma mudança mais drástica seria, entretanto, insuportável, nota Rui: “Eu não me consigo adaptar a cidade nenhuma. Nasci na cidade do Porto, gosto da cidade do Porto, conheço a cidade do Porto por dentro e por fora, conheço gente em todos os lugares, tenho um amigo em cada esquina da cidade do Porto. Sou cidadão do Porto, do qual me orgulho, posso mostrar pra geral, toda a gente pode ver, eu não tenho preconceito de dizer ‘Bib’ó Porto’ – e eu sou do Porto”. Poderá então dizer-se Rui tem o Porto inscrito no corpo? A resposta é duplamente afirmativa, porque é tanto figurada como literal. Rui mostra-nos o braço tatuado: “Made in Oporto”. Feito no Porto. Perguntamos-lhe o que significa isso, afinal.
“Ora bem, uma pessoa que é feita no Porto é uma pessoa que já vem com gerações de Porto, é uma coisa com uma marca genuína, onde tens os teus avós que nascem no Porto, onde tens os teus tios que nascem no Porto, onde tu nasces no Porto, sentes a cidade, e depois há um extra, que é uma coisa que vai fazer com que a tua paixão pela cidade aumente, que é o Clube. Não há como, não há como não envolver o Futebol Clube do Porto nessa matéria, porque… falar do Porto, cidade, é falar do Futebol Clube do Porto, e falar do Futebol Clube do Porto é falar da cidade…”.

©Rui Sousa
Ouvida esta resposta, preparamo-nos para perguntar a Rui se não acha a definição demasiado fechada, demasiado restritiva, mas a oportunidade perde-se na encruzilhada das ideias e das palavras. Havemos de voltar ao assunto. Mas a adesão entusiasta de Rui à renovação do olhar sobre o Porto proposta pelo Olha lá sugere-nos, desde já, que ele há-de concordar que nesta marca “Made in Oporto” caberão, de dia para dia, cada vez mais coisas.

©Rui Sousa

©Susana Neves
© João Queirós (investigador do Inst. Sociologia da UP)
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Somos tão jovens
Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.
Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.
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