http://www.10pt.org/2012/08/olha-la-as-marias-be-e-joao-2/

Isabel e Maria João

Sé, Porto

“Eu sou da Sé, sou verdadeira, filho!”

 

É “longe da Sé”, ali para as bandas da Boavista, que falamos com Isabel e Maria João – ou Isabel “Peixeira” e Maria João “da Maria Preta”, como são mais conhecidas. A entrevista decorre junto às grandes fotografias que o Olha lá, projeto precursor do ai Maria, espalhou pelo Porto com os rostos de alguns residentes da cidade, momentaneamente transformados em símbolos da diversidade cultural e social que, apesar de nem sempre reconhecida, caracteriza ainda assim o velho burgo nortenho.

 

Isabel por ©Rui Sousa

As duas “marias”, Isabel e Maria João, escrutinam cuidadosamente as suas fotografias e logo traçam o veredicto – direto e lapidar, como quase sempre são os veredictos das mulheres da Sé. Maria João não gosta, “e gosta de dizer logo isso”. Mesmo quando contrariada, não se dá por convencida e insiste que outras fotografias “ficaram melhor”. Isabel gosta, mas também tem críticas a apontar: neste caso, a de que a fotografia não deveria ter sido colocada “tão longe”, fora da “sua zona”. À parte estas considerações, as duas consideram que quem olhar para as fotografias vai achar que estão ali duas mulheres “bonitas” e “boas pessoas”. É essa, de resto, a caracterização que fazem das pessoas da Sé em geral, mesmo que as imagens correntemente veiculadas digam o inverso. Isabel fala numa persistente “ideia negativa”, que a degradação do centro histórico e a saída da “gente genuína” reproduz e aprofunda.

 

Mas o que é isso de “gente genuína”? O que é, afinal, uma “genuína” mulher da Sé?

 

Maria João nas Rusgas de S. João por ©Susana Neves

 

Isabel responde sem grandes hesitações. “Genuína” é aquela mulher que é “dali”, nascida e criada, com “raízes” profundas remontando aos pais e avós. Como ela: “ferrenha” e “verdadeira”. “Eu sou da Sé, sou verdadeira, filho!” – diz Isabel, veemente. Maria João complementa: “O que a minha avó sentiu, o que a minha mãe sentiu, sinto eu e, agora, os meus filhos”. O sentimento não cabe em palavras, não vale a pena insistir muito nos pedidos de descrição. Sentimento é sentimento, visceral, ingénito, intergeracionalmente transmitido – e não confinado ao espaço físico concreto. Pode ser-se “genuíno” à distância, o sentimento está no corpo, vai para onde o corpo vai. As raízes são figuradas, portáteis: “Eu tenho família que já não mora aqui, mas é tudo da Sé, ‘mor. ‘Tá tudo enraizado comigo, é tudo da Sé”.

 

Isabel nas Rusgas de S. João por ©Susana Neves

 

Os territórios, porém, não vivem só de sentimentos. A saída dos residentes tem efeitos reais, que Isabel e Maria João não escamoteiam. O que é uma casa sem residentes, um comércio sem clientes, uma rua sem gente? Pode a “genuinidade” preservar-se se o local da sua produção deixar de existir enquanto tal? Isabel e Maria João desconfiam que não. Mas, tal como outras pessoas que saem da Sé, não desistem do bairro, de uma certa ideia de bairro. Uma ideia que prometem continuar a defender com “unhas e dentes”.

 

© João Queirós (investigador do Instituto de Sociologia da UP)

http://www.advancedurbanmarginality.net/joatildeo-queiroacutes.html

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Tags: 10pt, Olha_lá, ai_Maria

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