http://www.10pt.org/2012/09/olha-la-a-silvia-da-maria-preta/

Sílvia

Sé, Porto

“Eu sou daquelas pessoas que amamos mesmo, mesmo, o nosso bairro!”

 

encontro com Sílvia da Maria Preta na Rua Escura ©susana neves

 

Nascida e criada na Sé, coração do Porto, Sílvia – ou “Sílvia da Maria Preta”, como é mais conhecida por aquelas bandas – vive num bairro da periferia citadina há uma dúzia de anos. Como tantas outras, também a sua família teve de sair do centro histórico, empurrada pelo abandono e degradação do velho casario.

 

Sílvia, ela própria Maria de segundo nome, lembra esse acontecimento com particular desgosto: “Vou-lhe dizer, o pior momento que nós tivemos foi a nossa saída. (…) Nós fomos estrear a casa amarela que foi construída para acolher pessoas que habitavam na Sé, pessoas que as casas iam caindo e aquilo ali era género um refúgio para acolher as pessoas, para não irem para as pensões. Então a minha mãe foi para ali e deu-lhe um enfarte do miocárdio. A minha mãe, só em pensar que ia sair do bairro, deu-lhe um enfarte. A minha mãe teve um enfarte mesmo na Sé. A minha mãe morreu no sítio onde nasceu, no bairro da Sé”.

 

Maria “Preta”, a peixeira. Cantada em quadras de fados mais ou menos vadios. Filha de Artur “Preto”, o localmente afamado boxista. Matriarca de uma família “das grandes”, daquelas que “toda a gente conhece”, que “tem família em todo o lado”. Aonde a mente não quer ir, o corpo não deixa. Maria Preta ficou ali, no sítio onde nasceu e onde sempre viveu. Pergunta: pode morrer-se de desgosto? Resposta: talvez, se desgosto for o que as árvores sentem quando se lhe arrancam as raízes.

 

Sílvia da Maria Preta ©susana neves

 

Já Sílvia, mais nova, filhos e netos para criar e ajudar a criar, um irmão para cuidar, seguiu a sua vida. Tinha de ser. Foi para Campanhã, realojada pela Câmara num dos bairros da periferia oriental da cidade. A nova realidade não se afigurou completamente estranha. Também ali Sílvia tinha família, alguns velhos conhecidos… Mas a Sé… A Sé é a Sé! Sílvia explica: “[Onde vivo atualmente] Não há… como hei de dizer?  As pessoas metem-se em casa, não há bairrismo – coisa que na Sé existe –, não há bairrismo, as pessoas nem dizem ‘bom dia’, ‘boa tarde’… Não tem nada a ver. (…) Não há convívio, não há convívio. Só tenho a minha vizinha do lado, que é a pessoa que me ajuda quando eu preciso de ir a qualquer lado, toma conta do meu irmão… Na Rua Escura não, falamos com toda a gente, toda a gente nos conhece, nós conhecemos toda a gente…”. É por isso que Sílvia vai quatro vezes por semana à Sé. Uma rotina de que alguns dos que saíram abdicam ao fim de certo tempo, mas em que Sílvia persiste, ano após ano. É por isso também que Sílvia afirma que regressaria à Sé, se a oportunidade surgisse: “Era na hora, era na hora. Eu só peço a Deus…”.

 

Ajuda divina onde os homens falharam? Sílvia esclarece: “O problema é a degradação das casas… (…) Investiram ali… compraram cinco prédios, investiram, investiram, agora não têm dinheiro para as obras, têm aquilo ao abandono, percebe? Agora, se a Câmara fizesse obras…”. Mesmo que a renda passasse a ser um pouco mais alta, Sílvia regressaria ao centro da cidade, como aliás regressou o seu filho mais velho. Veio para perto da Sé, está ali mesmo ao lado, nas Fontaínhas, mas nem sempre é fácil suportar os encargos, as rendas altas complicam a vida de quem regressa, um casal jovem com filhos pequenos dificilmente consegue arcar desafogadamente com os custos de uma casa em boas condições…

 

na Sé ©leina magna

 

E depois há a “má fama”, a insidiosa “má fama” que os naturais e residentes na Sé tão bem conhecem. Confrontada, desde muito nova, com a necessidade de lidar com o estigma associado àquele que foi o seu local de nascimento e, durante muito tempo, de residência, Sílvia, filha de Maria Preta, a conhecida e cantada peixeira, neta de Artur Preto, o afamado boxista, “orgulhosa” portuense, “bairrista” assumida, lamenta as “ideias feitas” que sobre a Sé circulam. Perante tais ideias feitas – que Sílvia, não sem alguma surpresa, foi encontrar no próprio bairro da periferia citadina onde a sua família foi realojada –, a atitude oscila entre a lateralização do descrédito e a asserção identitária, espécie de apelo ao reconhecimento de uma forma de ser e estar única, genuína e em risco: “Nós, em novas, se a gente quiser um emprego qualquer, preenchemos uma ficha… ‘Onde mora?’. ‘Bairro da Sé’. ‘É melhor esperar, depois a gente diz alguma coisa’. Toda a vida o bairro da Sé foi desprezado porque… Há pessoas boas e há pessoas más e não podem fazer isso porque em todo o lado existem problemas. (…) A Sé não é aquilo que o povo diz. A Sé não é aquilo que as pessoas… vêm para a televisão e fazem daquilo um faroeste. Normalmente comparam tudo por igual e não pode ser, porque ali existem pessoas muito humildes e muito acolhedoras. (…) Nós somos pessoas humildes, somos acolhedoras, na Sé ninguém passa fome. Se alguém lá entrar e disser que tem fome, qualquer pessoa não sai dali com fome. (…) Por exemplo, nós no S. João… o nosso S. João é fogareiro cá fora, passa um turista, olha, a gente oferece-lhe um bocado de broa, uma sardinha…”.

 

rusgas de S. João ©susana neves

 

Lateralizando o descrédito e afirmando essa identidade sui generis, revivida em cada uma das quatro visitas semanais, Sílvia, verdadeiraausente-presente, tenta contribuir com o que pode para a preservação de um mundo, o “seu mundo”. E deixa uma declaração de amor eterno: “O meu bairro é o meu mundo. Só posso dizer isso. E já disse isto: se um dia tiver que morrer, que seja no meu bairro. Morrer, era onde eu nasci. (…). Eu sou daquelas pessoas que amamos mesmo, mesmo, o nosso bairro”.

 

© João Queirós (investigador do Instituto de Sociologia da UP)

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Tags: 10pt, Olha_lá, ai_Maria

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