http://www.10pt.org/2012/11/olha-la-a-maria-wilma/

Wilma

Brasil, Porto

“Eu faço questão de não olhar para os olhares que estão à minha volta – é uma forma que eu tenho de me defender e de me proteger”

 

©susana neves

 

Sorridente e jovial, Wilma parece mais nova do que os 48 anos que o seu bilhete de identidade declara. A boa disposição com que nos brinda motiva-nos para mais uma entrevista; a jornada de trabalho vai longa, mas Wilma traz energia renovada ao fim de tarde portuense.

 

Nascida bem no coração da floresta amazónica, Wilma passou a maior parte da sua vida no que para si é a verdadeira “selva” – a urbana. Ainda criança, viajou para S. Paulo e por lá ficou. Estudou, teve filhos, trabalhou. No Brasil, foi professora. Antes de vir para Portugal, aos quarenta anos, dava aulas na periferia paulista, numa zona à época considerada “a mais perigosa da América Latina”. O confronto quotidiano com a miséria e a violência tornou-se demasiado opressivo e Wilma decidiu emigrar. Os filhos estavam a crescer e Wilma teve medo. Saiu. Em Portugal, esperava encontrar um “país desenvolvido”, um “país de primeiro mundo”. Quando chegou, percebeu que a realidade era muito diferente da do Brasil, mas também muito diferente daquela que Wilma esperava encontrar.

artigo JN ( ver + em facebook.com/Olha.La )

 

Deste lado do Atlântico, Wilma conheceu uma outra forma de violência, condensada em palavras e olhares, trejeitos e expressões, mitos e estereótipos; uma violência daquelas que talvez “não mate”, mas que certamente “mói”. Os sociólogos chamam-lhe violência simbólica, por causa dos meios através dos quais ela se exerce, mas os seus efeitos são bem materiais. Enquanto mulher – e, sobretudo, enquanto mulher brasileira –, Wilma provou a materialidade desta violência simbólica: as vagas de emprego misteriosamente preenchidas antes da sua entrevista, as casas por arrendar que afinal estavam ocupadas, as dificuldades para aceder a certos serviços, a ignomínia das palavras e gestos de homens abusadores. Wilma tem exemplos para dar, histórias de discriminação que não esquece. O tom é amargo, não podia ser de outra forma: segundo a nossa entrevistada, em Portugal, “os estrangeiros não são bem tratados”; os brasileiros, em particular, são “muito discriminados – os homens são vagabundos, preguiçosos, as mulheres são prostitutas”. Wilma continua: “Eu sabia que emigrar era algo difícil, mas jamais pensei que iria passar por uma situação destas. E eu sofri muito”.

 

Desde os primeiros momentos, Wilma decidiu que tinha de fazer algo para “atenuar” este sentimento. A sua primeira atitude foi defensiva: “não olhar para a cara das pessoas”. Olhos que não veem, coração que não sente, diz o ditado português, como se tivesse sido pensado para pessoas como Wilma. Ignorar os olhares e expressões foi a forma que Wilma encontrou para lidar com a realidade e preservar a sua integridade, a sua autoestima: “Como eu não via o sentimento deles, então eu já me sentia melhor (…) – e eu faço isso até hoje. Eu faço questão de não olhar para os olhares que estão à minha volta – é uma forma que eu tenho de me defender e de me proteger”.

 

de seu jeito peculiar, Wilma captura o centro histórico do Porto durante o projeto “Olha lá” ©susana neves

Gradualmente, Wilma foi aprendendo a lidar com esta realidade e começou a espreitar para além da esfera protetora que construiu à sua volta. Sente-se cada vez mais forte e arrisca mais o contacto. Conheceu pessoas preconceituosas, mas também pessoas “maravilhosas”, que a “ajudaram muito”. E acredita que as dificuldades a tornaram uma “pessoa muito melhor”. “Não seria a pessoa que eu sou!”, sentencia. O sorriso regressa, finalmente. E o fim de tarde portuense anima-se.

 

© João Queirós (investigador do Instituto de Sociologia da UP)

 

©susana neves

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Tags: 10pt, Olha_lá, Porto, ai_Maria

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