Todas as solenidades que proliferaram no Brasil, ao longo de dois séculos, são impregnadas de objetivos sujeitadores - mercantilistas, disciplinantes ou políticos. O povo, compreendido como "o conjunto das pessoas pertencentes às classes menos favorecidas; plebe" (Dicionário Aurélio Eletrônico - Século XXI), participa dessas comemorações essencialmente como objeto destinatário da mensagem, embrulhada pelo sedutor perfume de parabéns.

Crianças sabem para que servem o Natal, a Páscoa, o Dia das Crianças, o Dia das Mães e o Dia dos Pais. Qualquer indivíduo razoavelmente esclarecido sabe para que servem o Dia do Trabalhador, o Dia da Padroeira, o Dia de Finados, o Dia de Corpus Christi, o Dia de São Jorge ou outro santo qualquer, dependendo da região.

Mas pouquíssimos conseguiram penetrar nos mistérios do quinze de novembro, do sete de setembro e do vinte e um de abril (interessante é observar que não temos um vinte e dois de abril; temos o vinte e um, do alferes, e o vinte e três, do santo, mas o vinte e dois, esse não temos.

De uma forma de outra, as comemorações sempre serviram para que o poder dominante (cada vez mais dominante, mesmo dizendo-se o contrário) disseminasse suas doutrinas, seus dogmas e suas imposturas. É só ouvir com atenção e refletir sobre os discursos que foram proferidos hoje.

O sete de setembro é um clássico exemplo desse desequilíbrio de forças. Desde os movimentos embrionários que antecederam o "grito do Ipiranga", os representantes das classes populares sempre serviram a interesses que estavam muito além do que tinham conhecimento.

Na Conjuração Baiana (Revolta dos Alfaiates), a intelectualidade emanada da maçonaria manobrava o segmento popular do movimento. Ao final, subiram ao cadafalso os alfaiates Manoel dos Santos Lira e João de Deus e outros - todos pobres, negros ou mestiços. Os maçons saíram incólumes da aventura sediciosa.

Na Inconfidência Mineira, Joaquim José da Silva Xavier era o único sedicioso que não pertencia às elites da época. Com a traição de Joaquim Silvério dos Reis, o Visconde de Barbacena, esvaziou o movimento separatista e prendeu os inconfidentes. Condenados por inconfidência, poetas, militares e religiosos desmentiram. Tiradentes, numa atitude suicida, ainda não devidamente explicada pelos historiadores, assumiu sozinho a liderança do movimento, o que, por ser conveniente, foi aceito de imediato.

Logo veio o perdão de D. Maria I, o qual revogou a pena de morte de todos os inconfidentes, exceto a de Tiradentes, que, em 21 de abril de 1792, no Campo da Lampadosa, subiu ao patíbulo e foi enforcado (em seguida, esquartejado na Casa do Trem).

Diz-se no adágio popular que "passarinho que acompanha morcego amanhece pendurado de cabeça para baixo". Os alfaiates e o alferes que o digam.

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