O Rio de Janeiro e a Guetização Cultural da Música

O Rio de Janeiro e a Guetização Cultural da Música

No último dia 14 de setembro, a banda americana de indie rock, The Killers, cancelou uma apresentação bastante aguardada que faria no Rio de Janeiro, no dia 24 de setembro. Segundo a assessoria de imprensa da banda, “conflito na agenda” foi o motivo. O show em São Paulo, porém, continua mantido. Na verdade, os fãs da banda sabem que o cancelamento está relacionado à péssima venda de ingressos no Rio. E isso tem explicação.

O cancelamento do show do Killers é o sintoma de uma crise cultural que o Rio de Janeiro está passando. Cada vez mais, bandas preferem tocar em outras praças, como Curitiba ou Brasília, além de São Paulo, que sempre está no roteiro de grandes bandas de rock ou de outro gênero musical. A pergunta é: por que isso está acontecendo no Rio?

Há o problema do preço dos ingressos. São caros. Sem dúvida, isso é um obstáculo para quem deseja reunir dez ou quinze mil pessoas para um show. Ainda assim, isso não explica a viabilidade desses mesmos shows em outros estados. No Rio de Janeiro, as pessoas são mais pobres? Certamente, não. Na minha opinião, o problema é identitário. Nas últimas décadas, o Rio de Janeiro abraçou com todas as forças o estereótipo de “cidade samba” ou “cidade funk”. Isso está presente em diversos espaços discursivos: nos meios de comunicação, nos livros, na publicidade, nos discursos públicos, nos produtores culturais da cidade.

Isso não quer dizer que o samba ou o funk devam ser desconsiderados enquanto produtos culturais legítimos e com valor. Pelo contrário, eles devem ser valorizados. O que acontece no Rio não é culpa desses gêneros, mas de como eles são usados. Ao abraçar esses estereótipos, nos últimos anos, o Rio de Janeiro estabeleceu uma prática isolacionista no pano da música. Valoriza-se pouco os outros gêneros, como se fosse preciso vencer a “cultura de raiz” ou “brasilidade”. Nada mais anti-cultural e pseudo-intelectual. Com isso, as novas gerações perdem o contato com outros gêneros musicais. O estado perde diversidade. Não há público significativo para as mais diversas experimentações no campo da música.

Já perdemos a Rádio Fluminense, a Radio Cidade. As gravadoras passam por crises. O último grande evento foi o Rock in Rio. Depois, mais nada. Escutar rock ou outro gênero musical no Rio hoje é quase como um ato de subversão. É preciso tática de guerrilha. São poucas as festas rock que existem na cidade, se comparado com o que ocorre em outros estados, como São Paulo.

No Rio, está em curso uma padronização dos gostos. E para uma cidade que sempre se orgulhou de sua cultura, o futuro parece desastroso. Fico extremamente preocupado com este guetização cultural. Por essa “guetização cultural” entendo a situação de marginalidade com que diversos gêneros musicais possuem no Rio de Janeiro. A pressão dos discursos hegemônicos no Rio fazem com que os produtos culturais que não o samba, o pagode ou o funk fiquem cada vez restritos a guetos culturais da cidade, o que gera preconceito, perda de diversidade, democracia e diversas outras possibilidades. Essa guetização cultural é silenciosa e prejudica muitas pessoas, não raro de maneira inconsciente.

Mais uma vez, não se quer com isso, de forma alguma, estabelecer hierarquias musicais ou ignorar a qualidade do funk, do samba ou do pagode, que sem dúvida fazem parte importante de mossa cultura. O que se quer é possibilidade de convivência de outros gêneros.

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Comentário de Cesar Augusto de Mattos Barretto em 31 dezembro 2011 às 14:23

Oi Bruno,

 

Concordo com tudo que vc disse, apenas não gosto de que chamem essa batida lixo que vem das favelas e dos condomínios de classe média de funk, pois na verdade o funk vem do soul, de James Brown, Pariament and Funkadelic, que tem uma variedade rica em termos de sonoridade e ritmos. Essa batida que se convencionou chamar de funk carioca nada mais é do que uma derivação do Miami Bass Sound dos anos 80.

O funk ficou convecionado também por causa dos bailes funk dos anos 70, que eram animados por músicos de grande expressão e Dj's como Cidinho Cambalhota e Messiê Limá, entre outros. E viva o rock'n roll...

Comentário de Roberto Bastos em 18 março 2010 às 10:52
Saudações nobre Bruno.
Concordo em 95% de suas afirmativas com relação a guetização da cultura no Rio de Janeiro. Vivemos a ditadura do populacho e do mau gosto, o problema é que damos confiança para quem não merecia, por mais que os homens possuam História e historicidade, não deviamos ter colocado os holofotes da atenção e da importância nos mediocres, pois eles não tiveram nenhum refinamento cultural, social e espiritual e hoje, graças aos discursos de culpabilização e as agressões dos bárbaros, somos marginalizados tanto quem curte Rock-and-Roll como quem ouve Música Clássica, somos tratados como playboys, no caso do Rock, ou como velhos decrépitos, nos casos da MPB e Música Clássica.
Volto a repetir que foi graças a transferência da capital do país para Brasília somada à decadência educacional, tendo como consequência a destruição dos valores morais, a manobra política do Leonel Brizola para impedir a entrada da polícia nas favelas, com o discursos de que estaria eliminando os resquícios dos Governos Militares, mas que na verdade fortaleceu os narcoterroristas, o processo de desestabilização da sociedade como rezava a Revolução Cultural Gramsciano e o Foro de São Paulo de 1990, que trouxe esta calamidade humana para a nossa heróica cidade, eu tenho um filho de quase dois anos e me preocupo com os valores que passarei para ele, dos quais vão entrar em choque com os (des)valores da sociedade/bárbarie atuais. Por favor não vai pensar que sou um fascista, mas defendo a austeridade e o refinamento cultural como uma forma de ascender como ser humano civilizado.
Envio-te os meus protestos sinceros de estimas e considerações. O Mi To Fo.

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