Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupèry, filho do conde e condessa de Foscolombe, nasceu em Lyon – na França, em 29 de junho de 1900 e desapareceu em 31 de julho de 1944 no Mar Mediterrâneo durante um vôo de reconhecimento sobre as cidades Grenoble e Annecy, durante a Segunda Guerra Mundial. As últimas palavras de Saint-Exùpery, antes de embarcar na missão final e fatal foram: "Se voltar, o que será preciso dizer aos homens?"

Antoine-de-Sant-Exupèry

Foi um escritor, ilustrador e piloto. Muitos anos depois os destroços do avião que pilotava foram achados a poucos quilômetros da costa de Marselha. Seu corpo jamais foi encontrado.

O pequeno príncipe (1943) foi escrito e ilustrado por Antoine de Saint-Exupèry um ano antes de sua morte em 1944 durante o exílio nos Estados Unidos, quando fez visita ao Brasil.

O autor se fez o narrador da história, que começa com uma pane no avião e um encontro com um principezinho no meio do deserto do Saara. Certa manhã é acordado pelo Pequeno Príncipe, que lhe pergunta: "Desenha-me um carneiro"? É aí que começa o relato. O principezinho havia deixado seu pequeno planeta, onde tinha a sua rosa vaidosa e orgulhosa e três vulcões e exterminava rebentos de baobás para que não abafassem o seu planeta. Foi o orgulho da rosa que arruinou a tranquilidade do mundo do pequeno príncipe e o levou a começar uma viagem que o trouxe ao planeta Terra e ao deserto do Saara onde encontrou o piloto. Em suas andanças pela galáxia, o pequeno príncipe conhece uma série de personagens inusitados, plenos de simbolismo. Termina com a despedida do piloto com o principezinho, com um reencontro do principezinho com uma serpente fina como um anel de ouro que lhe “ajuda” a voltar para o seu planeta e a sua rosa.

Sua obra de maior sucesso foi O Pequeno Príncipe; 1943, (em Portugal O Principezinho), mas também escreveu:

· O aviador (1926)

· Correio do Sul (1928)

· Vôo Noturno (1931)

· Terra de Homens (1939)

· Piloto de Guerra (1942)

· O Pequeno Príncipe (Brasil) - O Principezinho; (Le Petit Prince), (1943)

· Cidadela (1948)

· Cartas ao Pequeno Príncipe ( )

*

“Quando eu era pequeno, todo o esplendor do presente de Natal estava também na luz da árvore, na música da missa da meia-noite, na doçura dos risos”


“O que torna belo o deserto, disse o principezinho, é que ele esconde um poço n’algum lugar.”

"O poço a que tínhamos chegado não se parecia de forma alguma com os poços do Saara. Os poços do Saara são simples buracos na areia. Aquele parecia um poço de aldeia.” “É estranho, disse eu ao principezinho, tudo está preparado: a roldana, o balde e a corda”.

“Ele riu, pegou a corda, fez girar a roldana. E a roldana gemeu como gemem os velhos cata-ventos...”

“Tu escutas? Disse o príncipe. Estamos acordando o poço, ele canta.
Tenho sede dessa água, disse o principezinho. Dá-me de beber”.

“Levantei-lhe o balde até a boca. Ele bebeu, de olhos fechados. Era doce como uma festa. Essa água era muito mais que alimento. Nascera da caminhada sob as estrelas, do canto da roldana, do esforço do meu braço. Era boa para o coração, como um presente. Quando eu era pequeno, todo o esplendor do presente de Natal estava também na luz da árvore, na música da missa de meia-noite, na doçura dos risos”

"As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, era ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém... Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto... e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!"

“Sois belas, mas vazias. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela, sozinha, é, porém mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus a redoma. Foi a ela que abriguei com o para-vento. Foi dela que eu matei as larvas. Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa"


“Será como a flor. Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, de noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas"

"Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla"

"Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez tua rosa tão importante”

“Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo”

”Não respondia nunca às perguntas. Mas quando a gente fica vermelho, não é o mesmo que dizer "sim"?”

"O que tanto me comove nesse príncipe adormecido é sua fidelidade a uma flor, é a imagem de uma rosa que brilha nele como a chama de uma lâmpada, mesmo quando dorme"

&&

Capítulo I

“Certa vez, quando tinha seis anos, vi num livro sobre a Floresta Virgem, "Histórias Vividas", uma imponente gravura. Representava ela uma jibóia que engolia uma fera. Eis a cópia do desenho.

Dizia o livro: "As jibóias engolem, sem mastigar, a presa inteira. Em seguida, não podem mover-se e dormem os seis meses da digestão.”

Refleti muito então sobre as aventuras da selva, e fiz, com lápis de cor, o meu primeiro desenho. Meu desenho número 1 era assim:

Mostrei minha obra prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo.

Responderam-me: "Por que é que um chapéu faria medo?”

Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jibóia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jibóia, a fim de que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações. Meu desenho número 2 era assim:

As pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado os desenhos de jibóias abertas ou fechadas, e dedicar-me de preferência à geografia, à história, ao cálculo, à gramática. Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma esplêndida carreira de pintor. Eu fora desencorajado pelo insucesso do meu desenho número 1 e do meu desenho número 2. As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas e é cansativo, para as crianças, estar toda hora explicando.

Tive, pois de escolher uma outra profissão e aprendi a pilotar aviões. Voei, por assim dizer, por todo o mundo. E a geografia, é claro, me serviu muito. Sabia distinguir, num relance, a China e o Arizona. É muito útil, quando se está perdido na noite.

Tive assim, no decorrer da vida, muitos contatos com muita gente séria. Vivi muito no meio das pessoas grandes. Vi-as muito de perto. Isso não melhorou, de modo algum, a minha antiga opinião.

Quando encontrava uma que me parecia um pouco lúcida, fazia com ela a experiência do meu desenho número 1, que sempre conservei comigo. Eu queria saber se ela era verdadeiramente compreensiva. Mas respondia sempre: "É um chapéu". Então eu não lhe falava nem de jibóias, nem de florestas virgens, nem de estrelas. Punha-me ao seu alcance. Falava-lhe de bridge, de golfe, de política, de gravatas. E a pessoa grande ficava encantada de conhecer um homem tão razoável. ”

&

Capítulo XXI

“E foi então que apareceu a raposa:
Bom dia, disse a raposa.
Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
Sou uma raposa, disse a raposa.
Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.

Ah! Desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
Que quer dizer "cativar"?
Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
Que quer dizer "cativar"?
Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?
Que quer dizer "cativar"?
É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços...”
Criar laços?

Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... Eu creio que ela me cativou...
É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...
Oh! Não foi na Terra, disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
Num outro planeta? Há caçadores nesse planeta? E galinhas?
Nada é perfeito, suspirou a raposa.

Mas a raposa voltou à sua idéia.
Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também e por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra, o teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti e eu amarei o barulho do vento no trigo...

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
Por favor... Cativa-me! Disse ela.

A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!

Que é preciso fazer? Perguntou o principezinho.
É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto.

No dia seguinte o principezinho voltou.
Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração. É preciso ritos.

Que é um rito? Perguntou o principezinho.

É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias, uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais e eu não teria férias!

Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
Ah! Eu vou chorar.
A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal, mas tu quiseste que eu te cativasse...
Quis, disse a raposa.
Mas tu vais chorar! Disse o principezinho.
Vou, disse a raposa.

Então, não sais lucrando nada!

Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus e eu te farei presente de um segredo.
Foi o principezinho rever as rosas.

...Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela é, agora, única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida, um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:
Adeus, disse ele...
Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... Repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. “Tu és responsável pela rosa”
Eu sou responsável pela minha rosa. Repetiu o principezinho, a fim de se lembrar. ”

&

Capítulo XXVI

“Havia, ao lado do poço, a ruína de um velho muro de pedra. Quando voltei do trabalho, no dia seguinte, vi, de longe, o principezinho sentado no alto, com as pernas balançando. E eu o escutei dizer:

Tu não te lembras então? Não foi bem aqui o lugar!

Uma outra voz devia responder-lhe, porque replicou em seguida:

Não, não estou enganado. O dia é este, mas não o lugar...

Prossegui o caminho para o muro. Continuava a não ver ninguém. No entanto o principezinho replicou novamente:

Está bem. Tu verás onde começa, na areia, o sinal dos meus passos. Basta esperar-me. Estarei ali esta noite.

Eu me achava a vinte metros do muro e continuava a não ver nada. O principezinho disse ainda, após um silêncio:
O teu veneno é do bom? Estás certa de que não vou sofrer muito tempo?

Parei, o coração apertado, sem compreender ainda.

Agora, vai-te embora, disse ele... eu quero descer!

Então baixei os olhos para o pé do muro e, dei um salto! Lá estava, erguida para o principezinho, uma dessas serpentes amarelas que nos liquidam num minuto. Enquanto procurava o revólver no bolso, dei uma rápida corrida.

Mas, percebendo o barulho, a serpente se foi encolhendo lentamente, como um repuxo que morre. E, sem se apressar demais, enfiou-se entre as pedras, num leve tinir de metal.

Cheguei ao muro a tempo de receber nos braços o meu caro principezinho, pálido como a neve.

Que história é essa? Tu conversas agora com as serpentes?

Desatei o nó do seu eterno lenço dourado. Umedeci-lhe as têmporas. Dei-lhe água. E agora, não ousava perguntar-lhe coisa alguma. Olhou-me gravemente e passou-me os bracinhos no pescoço. Sentia-lhe o coração bater de encontro ao meu, como o de um pássaro que morre atingido pela carabina. Ele me disse:

Estou contente de teres descoberto o defeito do maquinismo. Vais poder voltar para casa...
Como soubeste disso?
Eu vinha justamente anunciar-lhe que, contra toda expectativa, havia realizado o conserto!

Nada respondeu à minha pergunta, mas acrescentou:
Eu também volto hoje para casa...

Depois, com melancolia, ele disse:
É bem mais longe... Bem mais difícil...

Eu percebia claramente que algo de extraordinário se passava. Apertava-o nos braços como se fosse uma criancinha, mas tinha a impressão de que ele ia deslizando verticalmente no abismo, sem que eu nada pudesse fazer para detê-lo...

Seu olhar estava sério, perdido ao longe:

Tenho o teu carneiro. E a caixa para o carneiro. E a mordaça...

Ele sorriu com tristeza.

Esperei muito tempo. Pareceu-me que ele ia se aquecendo de novo, pouco a pouco.

Meu querido, tu tiveste medo...

É claro que tivera. Mas ele sorriu docemente.

Terei mais medo ainda esta noite...

O sentimento do irreparável gelou-me de novo. E eu compreendi que não podia suportar a idéia de nunca mais escutar esse riso. Ele era para mim como uma fonte no deserto.

Meu bem, eu quero ainda escutar o teu riso...

Mas ele me disse:

Faz um ano esta noite. Minha estrela se achará justamente em cima do lugar onde eu caí o ano passado...

Meu bem, não será um sonho mau essa história de serpente, de encontro marcado, de estrela?

Mas não respondeu à minha pergunta. E disse:

O que é importante, a gente não vê...

Será como a flor. Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, de noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas.

Será como a água. Aquela que me deste parecia música, por causa da roldana e da corda... Lembras-te como era boa?

- Lembro-me...

Tu olharás, de noite, as estrelas. Onde eu moro é muito pequeno para que eu possa te mostrar onde se encontra a minha. É melhor assim, Minha estrela será então qualquer das estrelas. Gostarás de olhar todas elas... Serão todas, tuas amigas. E depois, eu vou fazer-te um presente...

Ele riu outra vez.

Ah! Meu pedacinho de gente, meu amor, como eu gosto de ouvir esse riso!

Pois é ele o meu presente... Será como a água...

Que queres dizer?

As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, era ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém...

Que queres dizer?

Quando olhares o céu de noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem rir!

E ele riu mais uma vez.

E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo. Terás vontade de rir comigo. E abrirás às vezes a janela à toa, por gosto e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Tu explicarás então: "Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!" E eles te julgarão maluco. Será uma peça que te prego.

E riu de novo.

Será como se eu te houvesse dado, em vez de estrelas, montões de guizos que riem...

E riu de novo, mais uma vez. Depois, ficou sério:

- Esta noite... Tu sabes... Não venhas.

- Eu não te deixarei.

- Eu parecerei sofrer... Eu parecerei morrer. É assim. Não venhas ver. Não vale a pena...

- Eu não te deixarei.

Mas ele estava preocupado.

- Eu digo isto... Também por causa da serpente. É preciso que não te morda. As serpentes são más. Podem morder por gosto...

- Eu não te deixarei.

Mas uma coisa o tranqüilizou:

- Elas não têm veneno, é verdade, para uma segunda mordida...

Essa noite, não o vi pôr-se a caminho. Evadiu-se sem rumor. Quando consegui apanhá-lo, caminhava decidido, a passo rápido. Disse-me apenas:

- Ah! Estás aqui...

E ele me tomou pela mão. Mas afligiu-se ainda:

- Fizeste mal. Tu sofrerás. Eu parecerei morto e não será verdade...

Eu me calava.

- Tu compreendes. É longe demais. Eu não posso carregar este corpo. É muito pesado.

Eu me calava.

- Mas será como uma velha casca abandonada. Uma casca de árvore não é triste...

Eu me calava.

Perdeu um pouco de coragem. Mas fez ainda um esforço:

- Será bonito, sabes? Eu também olharei as estrelas. Todas as estrelas serão poços com uma roldana enferrujada. Todas as estrelas me darão de beber...

Eu me calava.

- Será tão divertido! Tu terás quinhentos milhões de guizos, eu terei quinhentos milhões de fontes...

E ele se calou também, porque estava chorando...

- É aqui. Deixa-me dar um passo sozinho.

E sentou-se, porque tinha medo.

Disse ainda:

- Tu sabes... Minha flor... Eu sou responsável por ela! Ela é tão frágil! Tão ingênua! Tem quatro espinhos de nada para defendê-la do mundo...

Eu sentei-me também, pois não podia mais ficar de pé.

Ele disse:

- Pronto... Acabou-se...

Hesitou ainda um pouco, depois ergueu-se. Deu um passo. Eu... Não podia mover-me.

Houve apenas um clarão amarelo perto da sua perna. Permaneceu, por um instante, imóvel. Não gritou. Tombou devagarinho como uma árvore tomba.

“Nem fez sequer barulho, por causa da areia.”

&

Capítulo XXVII

“E agora, certamente, já se vão seis anos... Jamais contara essa história. Os camaradas ficaram contentes de ver-me são e salvo. Eu estava triste, mas dizia: É o cansaço...

Agora já me consolei um pouco. Mas não de todo. Sei que ele voltou ao seu planeta, pois, ao raiar do dia, não lhe encontrei o corpo. Não era um corpo tão pesado assim... E gosto, à noite, de escutar as estrelas. Quinhentos milhões de guizos...

Mas eis que sucede uma coisa extraordinária. Na mordaça que desenhei para o principezinho, esqueci de juntar a correia! Não poderá jamais prendê-la ao carneiro. E eu pergunto então: "Que se terá passado no planeta? Pode bem ser que o carneiro tenha comido a flor. "

Ora, eu penso: "Certamente que não! “O principezinho encerra a flor todas as noites na redoma de vidro e vigia bem o carneiro” Então, eu me sinto feliz. E todas as estrelas riem docemente.

Ora, eu digo: "Uma vez ou outra a gente se distrai e basta isto! Esqueceu uma noite a redoma de vidro ou o carneiro saiu de mansinho, sem que fosse notado..." Então os guizos se transformam todos em lágrimas!...

Eis aí um mistério bem grande. Para vocês, que amam também o principezinho, como para mim, todo o universo muda de sentido, se num lugar, que não sabemos onde, um carneiro, que não conhecemos, comeu ou não uma rosa.

Olhem o céu. Perguntem: Terá ou não terá o carneiro comido a flor? E verão como tudo fica diferente...

E nenhuma pessoa grande jamais compreenderá que isso tenha tanta importância.

Esta é, para mim, a mais bela paisagem do mundo, e também a mais triste. É a mesma da página precedente. Mas desenhei-a de novo para mostrá-la bem. Foi aqui que o principezinho apareceu na terra e desapareceu depois.

Olhem atentamente esta paisagem para que estejam certos de reconhecê-la, se viajarem um dia na África, através do deserto. E se acontecer passarem por ali, eu lhes suplico que não tenham pressa e que esperem um pouco bem debaixo da estrela! Se então um menino vem ao encontro de vocês, se ele rí, se tem cabelos de ouro, se não responde quando interrogam, adivinharão quem é. “Então, por favor, não me deixem tão triste: escrevam-me depressa que ele voltou...”

*

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História Regional: Confira na íntegra a nova edição da Revista de História Regional. A RHR foi fundada em 1996 e desde o primeiro volume tem disponibilizado gratuitamente todo o seu conteúdo pela internet. O periódico é uma publicação do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em História (Mestrado em História, Cultura e Identidades) da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Possui Qualis B1

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O Abutre

Acaba de chegar aos cinemas brasileiros um dos filmes mais aguardados do ano: “O Abutre”, de Dan Gilroy. O filme é uma crítica mordaz aos meios de comunicação contemporâneo, escancarando o abandono da ética e da moralidade na cobertura jornalística. Mas a mídia não é o único alvo do filme. “O Abutre” - com atuação visceral de Jake Gyllenhaal - é uma crítica a lógica moderna de gestão que rege a vida moderna, não importante a área ou profissão. 

Sinopse: Enfrentando dificuldades para conseguir um emprego formal, o jovem Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) decide entrar no agitado submundo do jornalismo criminal independente de Los Angeles. A fórmula é correr atrás de crimes e acidentes chocantes, registrar tudo e vender a história para veículos interessados.

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