O Lopizmo: Leitura Ingênua da História - O NACIONAL - Terça-Feira, 01/03/2011 por Mário Maestri

O Lopizmo: Leitura Ingênua da História
Terça-Feira, 01/03/2011 por Mário Maestri


Em 2000, em artigo para a Folha de São Paulo, Francisco Doratioto propôs que o paraguaio Juan Emiliano O’Leary (1879-1969) fosse o “mentor do revisionismo histórico conhecido” como ‘lopizmo’, “movimento nacionalista” que transformou a “imagem de Solano López de ditador, responsável pelo desencadear de uma guerra desastrosa”, “em herói”, “vítima” e “sinônimo da nacionalidade paraguaia”. Entretanto, em um sentido amplo, foram os ideólogos da Argentina mitrista e do Império que criaram o “Lopizmo”, já no início da guerra, ao responsabilizarem o presidente do Paraguai como o grande e único responsável pelo conflito, posição compartida, 135 anos mais tarde, pelo historiador citado.

A apresentação de Francisco Solano López [1827-1870] como o exclusivo e terrível demiurgo daqueles sucessos permitia definir a guerra como operação contra o ‘ditador’ diabólico e pela ‘libertação’ do povo paraguaio, proposta já afixada no tratado de constituição da Tríplice Aliança, em 1865 – “No siendo la guerra contra el pueblo paraguayo sino contra su gobierno [...]”. Essa retórica justificativa, que escamoteava os objetivos profundos da Argentina mitrista e do Império, foi retomada acriticamente pela historiografia nacional-patriótica brasileira e argentina.

A ‘diabolização’ de Solano López foi também funcional aos primeiros governos paraguaios constituídos após a ocupação. Ela retomava a retórica ‘antiditatorial’ das forças liberais e oligárquicas paraguaias, em geral refugiadas em Buenos Aires, derrotadas quando do estabelecimento do Estado francista [1813-1840] e incapazes de recuperarem plenamente o poder aos governos de Carlos Antonio López [1844-1862] e Francisco Solano López [1862-1870]. A responsabilização obsessiva do Mariscal permitia igualmente que elidissem as razões profundas de terem combatido ao lado da Tríplice Aliança, ou seja, a luta pela instauração plena de ordem liberal-mercantil no país.

Apesar dessa origem longínqua, a historiografia denominou estritamente como Lopizmo o movimento historiográfico revisionista sobretudo – mas não apenas – paraguaio, que realizou inversão radical da leitura do papel de Francisco Solano López. De responsável pelo desastre, ele foi elevado à situação de “personificación milagrera de la energia” paraguaia, nas palavras de Manuel Domínguez, verdadeiro construtor magnífico da resistência contra a invasão e destruição do país. Glorificação que, nos fatos, procedia simples inversão epistemológica de sinal da passada diabolização. O que não permite, porém, identificar, em forma simplista, as raízes e os sentidos dos dois movimentos, por além de suas identidades formais ou não.

Em ambos os casos, tratava-se – e se trata – de personificação romântica e ingênua da história, ao explicar os processos e sentidos profundos dos fatos a partir da ação providencial dos grandes protagonistas, positivos ou negativos. Uma leitura do passado que vê, por exemplo, as vitórias dos exércitos franceses a partir da genialidade de Napoleão, e não como determinação fundamental da constituição de exército nacional-cidadão pela Revolução de 1789. Ou apresenta a bestialidades do nazismo como produto da personalidade patológica de Hitler, e não como desdobramento da sanha contra-revolucionária da burguesia alemã, ameaçada pela revolução.

Apesar de suas origens e conteúdos comumente diversos, o Lopizmo positivo e o Lopizmo negativo afastam e impedem a discussão das razões e das forças sociais profundas que embalaram e determinaram aquele doloroso conflito. Paradoxalmente, impedem, até mesmo, uma apreciação objetiva do papel e influência de Francisco Solano López naquele confronto.

A talvez grande explicação para o surgimento do Lopizmo positivo seja a impossibilidade política e ideológica dos seus promotores de explicarem os conteúdos sociais, econômicos, políticos e nacionais profundos da resistência das classes populares paraguaias, mobilizadas, para o bem e para o mal, em torno de Francisco Solano López, que manteve a resistência até sua exaustão. Classes plebéias que empreenderam uma defesa desesperada da organização do país que certamente intuíam que seria destruída, como realmente o foi, através da privatização e venda das terras públicas e do literal aniquilamento físico e social da vasta classe camponesa livre, processo que permitiu a conformação do Paraguai moderno.

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Comentário de Alexandre Florez em 21 abril 2011 às 6:49
Meu caro Mário, uma pergunta é recorrente para mim quando se trata da Guerra do Paraguai: por que o império brasileiro não anexou o território paraguaio após a derrotas das forças daquela nação?
Comentário de Alberto Moby em 12 março 2011 às 22:15

Caro Mário,

 

Uma vez mais coincidimos na interpretação. Quando leio seus textos sobre o Paraguai penso numa canção de Tunai/Milton Nascimento; "Certas canções que ouço / cabem tão dentro de mim / que perguntar carece / como não fui eu que fiz". Queria mandar pra você o meu livro "La noche de las kygua vera: la mujer y la reconstrucción de la idendidad nacional en la posguerra de la Triple Alizanza (1867-1904)", publicado pela editora Intercontinental, de Asunción, no ano passado. Me mande um endereço pra envio.

Comentário de domingos de abreu miranda em 11 março 2011 às 15:25

Interessante o comentário. Precisamos entender mais a fundo os objetivos desta guerra. Eu acredito que Lopez estava se preparando há tempos para a guerra. Independente do ponto de vista que se tenha sobre a guerra da tríplice aliança, o marechal não deixa de ser um ditador, mesmo que tenha tomado posições progressistas em alguns setores. Mesmo José Gaspar de Francia, que enfrentou árdua luta contra os comerciantes, que depois se exilaram em Buenos Aires, manteve um regime despótico. Nem mesmo o líder popular do Uruguai, José Artigas, que se exilou no Paraguai, escapou de suas atitudes duras.

 

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