O legado de Rondon: Morrer se preciso for, matar nunca!

Rondon percorreu mais de 50.000 quilômetros pelo país, fez contato com dezenas de grupos indígenas e criou o embrião da atual FUNAI.
Cândido Mariano da Silva Rondon nasceu em Morro Redondo, Mato Grosso, em 5 de maio de 1865, e concluiu seus estudos elementares na capital do Estado, Cuiabá. Após licenciar-se como professor primário, ingressa no exército como soldado a fim de seguir para a Escola Militar da Corte. Gradua-se bacharel em Ciências Físicas e Naturais e é promovido a tenente do corpo do Estado Maior; atuando como professor substituto de Astronomia e Mecânica. Em 1890, recusa a carreira no magistério para executar uma das tarefas mais árduas do exército àquela época: a construção de linhas telegráficas que ligariam Goiás a Mato Grosso, integrando-as ao sistema nacional já existente.
 
Com Roosevelt na Floresta Amazônica 

Roosevelt e Rondon

Ao atravessar trechos nunca antes percorridos da floresta amazônica, Rondon ampliaria a proposta original de instalação de linhas telegráficas, coordenando estudos etnográficos, geográficos, florísticos e faunísticos ao longo da empreitada. Exigiu que as populações indígenas encontradas na expedição ficassem sob seus cuidados, na tentativa de impedir que os impactos das frentes de expansão que chegariam à região transformassem em tragédia a vida de seus ocupantes originais. Atendendo a um pedido da Presidência da Republica, em 1913 Rondon organiza a viagem do ex-presidente dos EUA Theodore Roosevelt da fronteira com o Paraguai até Belém do Pará. O caráter cientifico da expedição, que seria acompanhada por ele, foi garantido pela contratação de cientistas naturais e geógrafos, permitindo assim a inclusão do rio Roosevelt, de mais de 1.000 quilômetros de curso, nas cartas geográficas brasileiras.
 
Linhas telegráficas reveladoras
 Catete Chefe do Bororo com Randon
A partir de 1907, Rondon lideraria a construção de 2.270 quilômetros de linhas telegráficas, desbravando regiões desconhecidas pelos não índios até então. Foram instaladas 28 estações que se tornaram embriões de novos povoados, e seus estudos geográficos abrangeram mais de 50.000 quilômetros lineares de terra e água. Mais de 200 coordenadas geográficas foram determinadas, e cerca de 12 rios desconhecidos à época foram incorporados aos mapas do Brasil. Suas pesquisas etnográficas, linguísticas, geológicas, botânicas e zoológicas, realizadas por alguns dos mais importantes cientistas de sua época, formaram coleções com cerca de 3.400 artefatos indígenas, 8.837 espécies de plantas, 5.676 espécies de animais, entre outros materiais, doados ao Museu Nacional do Rio de Janeiro.
O serviço de proteção aos índios

Os trabalhos da Comissão Rondon diminuíram a distância entre o Brasil urbano e os rincões do sertão. Enquanto nas cidades a imagem dos índios era idílica, baseada nas visões de José de Alencar e Gonçalves Dias, no interior os povos indígenas eram considerados obstáculos ao avanço do país e exterminados sistematicamente pelas doenças, envenenamento ou ações violentas. Os fatos revelados por Rondon mobilizaram a sociedade em torno da questão indígena, fomentando a criação, em 1910, do Serviço de Proteção dos Índios (SPI), antecessor da Fundação Nacional do Índio (Funai), sob a égide de uma lei marcada pelo relativismo cultural, a tolerância e o reconhecimento das terras ocupadas pelas populações nativas. Em 1927, já como general de Divisão, Rondon organiza e passa a dirigir a Inspetoria de Fronteiras, voltada a resolver os problemas ligados ao povoamento e à vigilância das fronteiras, entrando em contato com as populações indígenas da Amazônia e levando a cabo mais uma série de descobertas e registros científicos. Com a Revolução de 1930 e a instalação do Estado Novo, Rondon se vê impedido de continuar seu trabalho e pede baixa após 47 anos de serviço. A transferência do SPI ao Ministério do Trabalho engessa a instituição e produz retrocessos com relação à política indigenista da época. Após quatro anos em uma função diplomática de mediador em um conflito entre Peru e Colômbia pela posse da cidade de Letícia, Rondon retorna ao SPI e torna-se presidente do Conselho Nacional de Proteção aos Índios, no qual, em 1952, elabora o projeto de Criação do Parque do Xingu. Rondon morre no dia 19 de janeiro de 1958 deixando às gerações futuras um legado de tolerância, amor e respeito pelo Brasil e sua gente, sendo considerado um dos maiores, senão o maior, humanista do país.
 
Uma vida dedicada aos indígenas
 
1892: Nomeado chefe do distrito telegráfico de Mato Grosso, estabelece relações pacificas com os índios bororo de Garças.
1907: Inicia as grandes expedições da Comissão Rondon pelo noroeste brasileiro, revelando ao país uma região de 50.000 quilômetros quadrados.
1910: Criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), embrião da futura Fundação Nacional do Índio (Funai).
Índios Bororo de São Lourenço - 1914
Foto: Major Luiz Thomaz Reis



1927: Nomeado chefe da Comissão de Fronteiras, percorre as fronteiras brasileiras com as Guianas, Suriname, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia e Paraguai.
1952: Encaminha ao Presidente da República o Projeto de Criação do Parque Indígena do Xingu, que seria homologado apenas em 1961.
 
Princípios de Rondon
“Morrer se preciso for, matar nunca”.
“Respeitar os índios como povos independentes”.
“Garantir aos índios a posse das terras que habitam e são necessárias à sua sobrevivência”.
“Assegurar aos índios a proteção direta do Estado”.
FONTE: pôster (4) divulgado em 2010 pela revista Carta na Escola com apoio da Natura.



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