O Conceito de 'Alienação' no jovem Marx (2). Alienação: múltiplos aspectos de um conceito

O conceito de Alienação desempenhou um papel significativo no pensamento de Karl Marx, particularmente na primeira fase de sua produção intelectual. No post anterior, delineamos elementos básicos da identidade teórica de Karl Marx. Nesta continuação, veremos como o fundador do MaterialismoHistórico abordou o problema da Alienação, em suas diversas modalidades, nas obras que constituem a primeira fase de sua produção intelectual, e além.

 

O artigo foi publicado na revista Tempo Social (Vol. 23, n°1, p.223-245), e pode ser lido em sua versão integral em: http://ning.it/pEKN1W.

 

[BARROS, José D'Assunção. "O Conceito de 'Alienação' no jovem Marx". Tempo Social. vol.23,n°1, p.223-245. http://ning.it/pEKN1W]

 

Uma análise mais aprofundada do tema e de suas correlações, bem como de outros aspectos do pensamento de Marx, não apenas da primeira fase de seu pensamento como também da segunda fase, foi publicada no sétimo capítulo do 'volume IV' da coleção Teoria da História (Petrópolis: Editora Vozes, 2011). Neste livro, partimos da metáfora do 'acorde teórico' para examinar a identidade teórica de autores diversos, tais como Walter Benjamin, Ranke, Droysen, Max Weber, Paul Ricoeur, Koselleck e, por fim, Karl Marx, que corresponde ao fecho do volume. Sobre a metáfora do acorde teórico,veja:  http://ning.it/dLPAzn.

 

Além do 'volume IV' da série Teoria da História, o segundo capítulo do 'volume III' da mesma coleção empreende uma apresentação sistematizada dos princípios fundamentais do Materialismo Histórico, examinado como um dos paradigmas historiográficos que se oferecem como alternativas para a análise histórica desde o século XIX. No volume, além do pensamento de Marx e Engels, são examinadas as contribuições de diversos outros autores que constituíram ou dialogaram com o paradigma do Materialismo Histórico.

 

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O Conceito de 'Alienação' no jovem Marx (2)

 

Alienação: múltiplos aspectos de um conceito

 

José D'Assunção Barros

 

Os objetos de estudo e de interesse temático, em Marx, são certamente muitos, embora depois eles tendam a afunilar para o interesse econômico, assim que ofundador do Materialismo Histórico passa a se conceber como imbuído de uma especial missão[1]. De todo modo, podemos esboçar também a própria história das temáticas marxianas, e o tema que estaremos enfatizando desempenha um papel central na produção intelectual do jovem Marx. O primeiro tema que surgiu para Marx, de fato, antes mesmo dos Manuscritos econômico-filosóficos e das Teses sobre Feuerbach, foi a alienação.

 

O jovem Marx encantara-se desde cedo com a percepção de que o homem, este ser concreto e natural, transformara e continuava transformando o mundo, através de seu trabalho e de sua práxis, e que em um mesmo movimento transformara e continuava a transformar a si mesmo. A natureza, transformada pelo homem, “humanizara-se”, incorporara a sua face humana. O homem mudara literalmente a face da Terra, e para onde quer que olhemos, pode-se dizer, não poderemos mais deixar de enxergar a marca humana. Mas, ao mesmo tempo, ao lado deste comovente encantamento diante da capacidade humana de “transformar o mundo e de transformar a si mesmo”, Marx também encontrara a sua terrível sombra: a percepção de que este mesmo homem, neste ponto de sua análise multiplicado pela infinidade de indivíduos, também se perdera na história, se “desumanizara” e se “desnaturalizara”; em uma palavra, “se alienara” (da natureza, de si mesmo e de suas próprias criações). A “alienação” (que tem em Marx o duplo sentido de um “estranhamento” e de uma perda de consciência) logo se tornaria o primeiro tema importante do jovem Marx – o seu objeto mais sistemático de reflexão na primeira fase de seus escritos[2].

 

Quadro 1: As alienações

 

Importante notar que a alienação era então examinada, pelo autor dos Manuscritos econômico-filosóficos, nas suas mais diversas formas. Na verdade, não existia uma só alienação, mas várias delas (ver quadro acima). Tudo aquilo que fragmentava o ser humano, que o apartava do mundo, de si mesmo, das coisas que ele criara; tudo aquilo que o separava da consciência que deveria ter, que o transformava quase em um autômato ou em um “animal desnaturalizado”; tudo aquilo que o mergulhava em uma espécie de sono do qual não parecia ser possível despertar, remetia em Marx ao âmbito da alienação. Lefebvre, na sua Crítica da vida cotidiana (1958), faz notar o caráter “poliscópico” da alienação. Podemos de fato identificar uma significativa variedade de alienações já presentes nos Manuscritos econômico-filosóficos, que pode ser representada pelo esquema acima proposto[3].

 

O tema da alienação, como objeto central de investigação e de reflexão filosófica, permitiu a Marx percorrer sucessivamente várias “críticas”. Antes de retomar este que deverá ser considerado o tema central do primeiro Marx – a “alienação” em suas diversas formas – será oportuno discutir o modelo filosófico a partir do qual o fundador do materialismo histórico desenvolverá as várias facetas de sua reflexão sobre este tema. O modelo da “crítica”, no qual um filósofo busca submeter a um rigoroso escrutínio uma determinada tendência filosófica, ou então se ocupa em analisar o padrão recorrente em certo campo de práticas ou de conhecimento, será o caminho escolhido por Marx. Este modelo tinha sido estabelecido por Immanuel Kant (1724-1804) com as suas “três críticas”, e podemos acompanhar a opinião deste mesmo filósofo segundo a qual o “modo crítico” pode ser considerado uma das marcas desta segunda modernidade europeia que se inicia ao fim do século XVIII[4].

 

Em grego, a expressão crítica (crinein) remete aos gestos de “separar” e de “julgar”, o que é particularmente adequado, pois com o modelo filosófico da crítica o que se busca é desenvolver uma argumentação com vistas a preservar o que merece ser afirmado, e, ato contínuo, colocar em dúvida ou rejeitar tudo aquilo que é falso ou que não merece ser afirmado[5]. É através deste modelo, e dirigindo-se diretamente para a temática da “alienação”, que Marx desenvolve toda a sua crítica inicial a Hegel. A Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel e os Manuscritos econômico-filosóficos – uma obra que Marx não planejava publicar – constituem os pontos altos deste primeiro investimento crítico[6]. Depois, com as Teses sobre Feuerbach e com a Ideologia alemã – esta última escrita em coautoria com Engels e já preludiando, para além do modelo da crítica, a inflexão historiográfica –, seria a vez de criticar a chamada “esquerda hegeliana”, da qual o próprio Marx saíra nos seus tempos de formação acadêmica.

 

Os autores criticados eram, entre outros, Feuerbach, Max Stirner, Bruno Bauer e David Strauss. Stirner, considerado por Marx um “jovem hegeliano”, também satiriza os outros autores em O único e a sua propriedade, empreendendo uma demolidora crítica ao conceito de “homem genérico” de Feuerbach, também feita por Marx. Estes autores, e o próprio Marx, ficaram conhecidos como “esquerda hegeliana” por volta de 1830, quando estudavam na Universidade Humboldt de Berlim. Na verdade, todos eles tinham passado a disputar, após a morte de Hegel, o privilégio de realizar a “Crítica” do filósofo, e desenvolver uma filosofia que pudesse ser recebida como uma verdadeira libertação. O nome “esquerda hegeliana” se refere à oposição deste grupo aos “hegelianos de direita”, a quem coube (e não a Hegel, como às vezes se pensa) a ideia de que a sociedade prussiana representava uma culminância histórica, uma espécie de “fim da história”, que depois seria tomada por autores diversos, inclusive Fukuyama em tempos recentes (1989), mas já deslocando o “fim da história” para a sociedade capitalista liberal de fins do século XX.

 

A discussão em torno do “fim da história” era o ponto de maior atrito entre a “esquerda” e a “direita” hegelianas, pois estes acreditavam que a série histórica de evoluções dialéticas tinha se completado na sua própria época, leitura da qual discordavam os filósofos da “esquerda hegeliana”. Marx logo agregaria à polêmica a ideia de que o fim da série histórica só se poderia dar com a sociedade comunista, tornando-se este telos um aspecto importante da sua versão do materialismo histórico (cf. Souza, 1992). Com Ideologia alemã, adicionalmente, Marx concretiza o seu acerto de contas com o passado acadêmico. Por fim, já bem adentrando a segunda fase de sua produção, aparecerá a crítica desfechada contra Proudhon (1809-1865) em Miséria da filosofia (1847), uma obra isolada, epígono da fase anterior no que se refere ao interesse pelo modelo da “crítica”. Esse livro marca não apenas o rompimento entre Proudhon e Marx, mas também o início de uma oposição visceral entre marxistas e anarquistas, cisão patente nos encontros da Associação Internacional dos Trabalhadores, em particular pelo confronto entre Marx e Bakunin (1814-1876)[7].

 

A fase das “críticas”, em Marx, que precede a fase dos ensaios econômicos e historiográficos, seria particularmente importante como um movimento que já aponta para a fase madura e definitiva. A reflexão sobre a “alienação” – o baixo ostinato de Marx na primeira fase de sua produção intelectual, mas também um tema que nunca o abandonará por completo – seria percorrida sucessivamente pelas críticas à religião, à política, à economia política, chegando finalmente à sua base fundamental, a crítica econômica ao sistema de trabalho no mundo capitalista. Podemos perceber, através de uma análise mais sistemática da obra de Marx, que o tema da alienação realmente não desaparece do seu horizonte de análises: apenas se desloca para uma posição mais lateral e menos visível no palco teórico da análise marxiana. De fato, o “fetichismo da mercadoria” – um aspecto da sociedade capitalista examinado por Marx na quarta seção do primeiro capítulo de O capital – pode ser perfeitamente entendido como um dos muitos casos particulares da alienação[8].

 

A pequena trajetória do pensamento do jovem Marx por dentro do tema da alienação – descendo coerentemente das suas manifestações mais abstratas às manifestações mais concretas que se dão na própria produção da vida material – permite que surpreendamos Marx em um sutil deslocamento que o conduzirá a um novo momento de sua produção intelectual, no qual seria necessário se preparar para ir muito além do campo da filosofia, alcançando a economia, a ciência política e a própria história. Antes de chegar a este ponto, contudo, prossigamos com a pequena história das temáticas de Marx[9].

 

O segundo momento na história dos objetos de estudo de Marx é de fato uma consequência do primeiro: se o homem se perdera ou se “alienara” – “estranhando-se” a si mesmo e à natureza, tal como percebera o jovem Marx – como contribuir então para que ele superasse o seu lamentável estado? Até aqui, Marx é essencialmente um filósofo, e não ainda um economista ou um historiador, ou mesmo um ativista político, o que só ocorreria efetivamente depois[10]. Ousaremos dizer que com as obras nas quais começa a se preocupar com a “retomada da alienação”, Marx se tornou mesmo um “filósofo do despertar”, no sentido de que podemos associá-lo a uma certa linhagem de filósofos e pensadores que buscam refletir sobre os limites do homem (ou de sua consciência) e que, ato contínuo, procuram despertá-lo desta inconsciência, torná-lo ciente de seus limites e dos poderes que o afetam para lhe oferecer materiais filosóficos ou científicos para a sua própria libertação ou conscientização transformadora[11].

 

A pergunta filosófica de Marx, neste segundo momento de sua história temática, passou a girar, portanto, em torno da possibilidade da “retomada da alienação” (isto é, da recuperação do que se apartou ou do que se havia perdido). Esta sutil mudança é particularmente importante, pois, sem abandonar o tema da alienação, Marx começa aqui a se colocar de uma nova maneira diante do mesmo. Não se tratava mais de apenas constatar a “alienação”, mas sim de se situar diante dela munido de uma nova pergunta. Como poderia o homem recuperar o que perdera, incluindo a si mesmo? Como poderia, em outros termos, despertar de sua “alienação”? Foi esta pergunta que levou Marx a investigar profundamente as condições materiais efetivas da existência humana, aquelas através das quais o homem criava e recriava-se, mas que ao mesmo tempo o lançavam paradoxalmente na “perda de si mesmo”, na “alienação”, no “estranhamento”.

 

Perceber que a mais irredutível raiz da alienação humana dava-se no interior do próprio trabalho, submetido à exploração do homem pelo homem, levou Marx ao seu segundo objeto de estudos, que a partir daí passa a dominar amplamente a sua busca da verdade. Das condições da alienação, Marx passaria a filosofar sobre a “retomada da alienação”, sobre as possibilidades de o homem retomar a plenitude consciente de sua própria vida, despertando do seu estranhamento: libertar-se, enfim. O momento deste passing – da expansão da reflexão sobre a “alienação” ao estudo sobre a “retomada da alienação” – está concretizado em certos trechos dos Manuscritos econômico-filosóficos, obra que Marx não pretendia publicar, já que a compusera apenas para o seu autoesclarecimento, e sobretudo neste curto mas intenso texto de duas páginas e meia que constitui as Teses sobre Feuerbach, um texto marxiano que só mais tarde seria publicado por iniciativa de Engels[12]. Foi por causa destas primeiras temáticas filosóficas, a temática da “alienação” em um primeiro momento e logo depois a temática da possibilidade de libertação do “estranhamento” – a “retomada da alienação” – que Marx se tornou um economista, e também um historiador. Não há como expressar isto tão bem senão como nestas palavras de Leandro Konder:

 

 

“era porque a história se caracterizava como um processo contraditório de autorrealização e desrealização prática do ser humano, um processo que englobava toda a realidade dos homens, que se tornava imperioso examinar criticamente o presente como história. E era porque, segundo a nova concepção materialista da história, o conflito entre o caráter social da produção e o caráter privado da apropriação capitalista se tornara o centro da história contemporânea, que passava a ser absolutamente necessário escrever o Capital” (Konder, 2006, p. 85)[13].

 

 

A partir daí os novos temas de Marx se sucedem, entrelaçadamente: dos modos de produção, e em especial o modo de produção capitalista, à possibilidade de superá-lo através da revolução; da propriedade privada ao Estado; da ideologia que oculta dos seres humanos a realidade de sua exploração através do trabalho alienado à possibilidade de desmascará-la. O tema da alienação não desaparece, mas tende a se concentrar na alienação produzida no regime de trabalho sob o sistema capitalista e na alienação que, na sociedade industrial e na sociedade de consumo, transforma pessoas e relações interpessoais em “coisas” e em “relações entre coisas”. Em meio à diversidade de temáticas pertinentes ao mundo capitalista, que tomou por tarefa esclarecer, eventualmente retornam os antigos interesses pela alienação, particularmente o “fetiche da mercadoria” – a tendência do homem moderno a enxergar tudo como mercadoria da qual se apropriar ou que se pode comprar, inclusive o sentimento das pessoas – e a “reificação” (coisificação) do próprio trabalhador[14].

 

Entre os diversos temas que, na sua fase madura, irão atrair a atenção de Marx, podemos lembrar que a questão da “ideologia” proporciona uma certa ligação com os interesses anteriores de Marx pela temática da alienação. Ao reconhecer que a sociedade desenvolve artifícios para ocultar, dos homens que estão inseridos em um modo de produção, a estrutura de dominação que se estabelece sobre as classes exploradas, o objeto a ser investigado pelo historiador marxista passa a ser, de fato, a realidade que se oculta por trás das ideologias[15]. Aqui se torna particularmente importante desmascarar a ideologia da classe dominante, o que deve ser feito pela classe revolucionária do momento – ao menos de acordo com a perspectiva marxista que será herdada por alguns dos setores do materialismo histórico que atrelam à sua práxis um programa de ação que pretende visar o socialismo.

 

O proletariado, em Marx, é a última das classes: aquela que levará a história ao seu termo ao instituir a sociedade de classes após seu enfrentamento terminal com a burguesia. Para realizar esta tarefa, o proletariado precisa desenvolver ao máximo a sua “consciência de classe” (tornar-se uma “classe-para-si”, e não mais apenas uma “classe-em-si”). De igual maneira, este outro trabalhador, o trabalhador intelectual que é o historiador, pode se colocar no ponto máximo possível de compreensão da história ao se situar em sintonia com a posição da classe mais avançada em relação às forças produtivas, que no momento que precederá a instalação do modo de produção socialista seria o proletariado (esta é a perspectiva de Marx, bem entendido, que não seria necessariamente nem a única possível ao materialismo histórico, nem a única que pode ser sustentada pelo marxismo como programa de ação política).

 

De todo modo, nesta leitura teleológica da história que foi desenvolvida por Karl Marx, reencontram-se os vários temas que um dia foram examinados mais aprofundadamente pelo fundador do materialismo histórico: a “alienação” nas suas várias formas (inclusive o “fetiche da mercadoria” e a “reificação do trabalhador”)[16], a “retomada da alienação”, a “luta de classes”, o desenvolvimento histórico da sucessão de “modos de produção”, o desvelamento do funcionamento do sistema capitalista, o desmascaramento das ideologias. Pode-se dizer que é neste momento que o velho Marx se encontra com o jovem Marx, pois a “retomada da alienação” volta a compor o seu conjunto de temas. A “desalienação do trabalhador” – a dissolução daquele estranhamento que, nas sociedades modernas e industrializadas, havia se tornado a raiz de todos os estranhamentos – corresponde ao momento em que o trabalhador percebe, finalmente, que o mundo inteiro é produzido por ele. Este tema seguirá adiante na obra madura de Marx, constituindo uma ponte entre suas análises posteriores e as primeiras obras do jovem Marx.

 
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A primeira parte deste artigo pode ser lida em: http://ning.it/njWylp. Leia o artigo na sua versão integral em: http://ning.it/pEKN1W.

 

[BARROS, José D'Assunção. "O Conceito de 'Alienação' no jovem Marx". Tempo Social. vol.23,n°1, p.223-245. http://ning.it/pEKN1W]

Para uma análise mais aprofundada e abrangente do pensamento de Marx, leia o sétimo capítulo do 'volume IV' da coleção Teoria da História (Petrópolis: Editora Vozes, 2011). Neste livro, partimos da metáfora do 'acorde teórico' para examinar a identidade teórica de autores diversos. Sobre isto,veja:  http://ning.it/dLPAzn.

 

Além do 'volume IV' da série Teoria da História, o segundo capítulo do 'volume III' da mesma coleção empreende uma apresentação sistematizada dos princípios fundamentais do Materialismo Histórico, examinado como um dos paradigmas historiográficos que se oferecem como alternativas para a análise histórica desde o século XIX. No volume, além do pensamento de Marx e Engels, são examinadas as contribuições de diversos outros autores que constituíram ou dialogaram com o paradigma do Materialismo Histórico.

 

Interessados em receber gratuitamente alguns capítulos dos quatro livros da coleção Teoria da História, já disponível nas livrarias, peçam para o e-mail jose.d.assun@globomail.com

 

Uma apresentação da coleção Teoria da História pode ser encontrada em http://ning.it/ec3iGH; e o sumário de cada um dos quatro volumes está disponível em http://ning.it/gFg3Pu.

 
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Notas:


[1] Numa carta de Marx a Engels, de 14 de janeiro de 1858, o primeiro deixa entrever este conflito interno entre as duas facetas: um pensador com múltiplos interesses temáticos e um revolucionário que sente suas escolhas comprimidas pela necessidade de sua missão: “Se um dia eu tiver tempo para trabalhos assim, gostaria muito de escrever duas ou três folhas para tornar inteligível ao vulgo o lado racional, mas ao mesmo tempo sofisticado, do método descoberto por Hegel” (apud Aron, 2005, p. 274; grifos nossos).

[2] Já em Hegel, tal como observa Lukács em seu livro O jovem Hegel (1938), pela primeira vez o conceito de alienação estará situado “no centro de todo um sistema teórico”. Ver Konder (2009, p. 28). Com relação a essa centralidade, devemos lembrar o ponto de partida da leitura hegeliana da história. Na raiz do desenvolvimento histórico, o espírito, de onde tudo partirá, encontra-se em situação de estranhamento (de alienação) em relação a si mesmo. Isto porque o mundo material havia se desprendido do espírito e passara a existir autonomamente (para Hegel, a natureza nada mais é do que a condensação material do espírito). Neste momento, o espírito está alienado de uma parte de si mesmo, que é a natureza. Para Hegel, a história será o processo dialético através do qual o espírito adquire consciência e retoma a posse do mundo. Neste sentido, a história não é mais do que a “desalienação” do espírito. Seu momento final é aquele em que o espírito reunifica-se ao mundo, síntese que é ao mesmo tempo o sentido de toda a história anterior e sua finalização. A consciência final alcançada pelo espírito corresponde ao término do estranhamento, à retomada final da alienação, daquilo que estava apartado de si mesmo.

[3] Outras formas de alienação também foram estudadas, como a decorrente da cisão entre “vida pública” e “vida privada”, discutida em A questão judaica (1844).

[4] Crítica da Razão Pura (1781), Crítica da Razão Prática (1788) e Crítica da faculdade do juízo (1790). No prefácio da primeira, Kant afirma que o gesto de “tudo submeter à crítica” era uma das características mais evidentes da nova era que então se iniciava. Kant via a “crítica” como um traço essencial da nova modernidade (a “segunda”, se considerarmos que a primeira se inicia com o Renascimento).

[5] Kant desenvolve a sua Crítica da Razão Pura a partir de David Hume (1711-1776). Pode-se dizer que Hume foi para Kant o que Hegel seria para Marx: uma base de aprendizado a ser depois superada através da “crítica”. De Hegel, Marx conservará a “dialética”; já o idealismo será descartado.

[6] O terceiro e último Manuscrito encerra-se com a “Crítica da filosofia dialética e geral de Hegel”.

[7] Este ensaio inverte o título do livro escrito por Proudhon: A filosofia da miséria (1846). Proudhon, um dos mais influentes escritores anarquistas da época, havia se correspondido com Marx e mantinha com ele uma relação cordial, com uma certa troca de influências mútuas.

[8] No ensaio “A reificação e a consciência do proletariado”, Lukács cunha o conceito de “reificação” para se referir à transformação das relações humanas em “coisas”, ou “mercadorias”, nas sociedades capitalistas (cf. Lukács, [1923] 1989). A reificação de Lukács corresponde à alienação de Marx. Outros autores chamam atenção para a impropriedade de reduzir a alienação ao “fetichismo da mercadoria”, que seria apenas um dos seus tipos: “O primeiro termo tem maior extensão do que o segundo: existe uma alienação religiosa, política, ideológica, etc., ao passo que o fetichismo da mercadoria corresponde apenas a uma forma de alienação: a alienação econômica” (Garaudy, 1957).

[9] Desde cedo Marx convencera-se da necessidade de adquirir sólidos conhecimentos econômicos, aprendizado que ocorreu em um ano de intenso trabalho a partir da primavera de 1843, entre o encerramento de sua atividade jornalística na Gazeta Renana e a redação dos Manuscritos econômico-filosóficos, quando revela ter adentrado com desenvoltura o espaço conceitual da economia.

[10] As obras econômicas e historiográficas de Marx tinham precedido em sua publicação as obras filosóficas, embora representassem um momento posterior. Com a publicação em 1932 dos Manuscritos econômico-filosóficos e da Ideologia alemã, alguns analistas puderam ter a plena percepção de que Marx era antes de tudo um filósofo.

[11] O século XIX traria outros “filósofos do despertar”. Nietzsche sustenta que qualquer conhecimento é construído e que não existe uma única categoria de pensamento que seja dada previamente pela natureza que não deva ser submetida à crítica. Freud procurou conscientizar o homem acerca de seu próprio inconsciente. Estes três filósofos (se considerarmos Freud um) trazem como característica fundamental este gesto de desvelar e de incitar o homem a fazer algo com esta consciência: transformar sua própria vida. Em Marx, é visado o homem socialmente inserido, que irá se confundir, no limite, com a espécie humana. Em Nietzsche e Freud, é o indivíduo. Nietzsche nada pretende fazer para elevar o nível de consciência das massas, mas vislumbra a possibilidade de preparar o caminho para algo que virá depois, para o “além-do-homem” (o Übermensch). Freud, com a psicanálise, visa obviamente a autotransformação dos indivíduos.

[12] Konder (2006, p. 84) reflete com precisão: “Nos trabalhos imediatamente anteriores à redação dos Manuscritos, Marx tinha se empenhado em aprofundar sua crítica das condições de autoalienação (Selbstentfremdung) do sujeito humano na sociedade burguesa. Em agosto de 1844, porém, ele já refletia sobre a passagem da atividade ‘alienadora’ para a atividade ‘desalienadora’: sua perspectiva passara a se apoiar no projeto revolucionário de uma superação prática das condições do ‘estranhamento’ (Entfremdung)”.

[13] Kosik (1969, p. 72) observa que a publicação tardia dos Grundrisse, em 1939, um conjunto de escritos de 1858 elaborado apenas para preparar materiais para a redação do Capital, deixará muito claro que “Marx nunca abandonou a problemática filosófica”. Nesta obra estão presentes os conceitos da primeira reflexão de Marx, como “alienação” e “reificação”, cuja reaparição revela a unidade do seu pensamento filosófico.

[14] Sobre a “reificação do trabalhador” no exercício de seu trabalho fabril, Marx irá expor no Capital este trecho do Ensaio sobre a história da sociedade civil (1756) de Adam Ferguson (1723-1816): “A ignorância é a mãe da indústria como da superstição. A reflexão e a imaginação não estão livres do erro; mas o hábito de mexer o pé ou a mão não depende nem de uma nem de outra. Desse modo, poder-se-ia dizer que, no que diz respeito às manufaturas, a perfeição consiste em se poder dispensar a inteligência, de modo que a oficina possa ser considerada como uma máquina cujas partes seriam homens”. A esta transcrição, Marx acrescentará: “Na manufatura e na atividade artesanal, o operário serve-se do instrumento; na fábrica, serve à máquina. No primeiro caso, é ele quem faz movimentar o meio de trabalho; no segundo caso, apenas tem que seguir o movimento e torna-se ‘o complemento vivo de um mecanismo morto’” (O capital, XIII, 4).

[15] O desmascaramento da ideologia também revela as classes e interesses de classe. Goldmann (1952) irá dizer: “cada vez que se trata de encontrar a infraestrutura de uma filosofia, de uma corrente literária ou artística, chegamos não a uma geração, a uma nação ou a uma igreja, mas a uma classe social e às suas relações com a sociedade”.

[16] Reificação é o mesmo que “coisificação”. A “reificação do trabalhador” é o processo, inerente ao sistema capitalista, pelo qual o próprio trabalhador se transforma em uma mercadoria e as relações “entre pessoas” passam a ser pensadas em termos de “relações entre coisas”. A obra de referência é Lukács (1989); o texto marxiano de referência é o capítulo “O fetiche da mercadoria”, no Capital.

 

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Tags: Alienação, Marx, Materialismo-Histórico

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