Michel Foucault (9). Nota-Verbete extraída do 'Volume IV' de Teoria da História

Nos últimos posts, têm sido apresentados neste blog alguns textos extraídos do livro Teoria da História (BARROS, José D'Assunção. Teoria da História, 4 volumes. Petrópolis: Editora Vozes, 2011). Uma das características do livro é o empenho em expor com a maior clareza possível os diversos temas, sem perder elementos da complexidade dos mesmos (isto é, sem banalizar os esclarecimentos). À medida que vão sendo desenvolvidos os vários temas (ver o sumário do livro em http://ning.it/gFg3Pu), diversos autores - historiadores, filósofos, antropólogos, sociólogos, e pensadores em geral - vão sendo apresentados. Nos capítulos dos diversos volumes, aspectos mais problematizados relativos a estes autores, ou a asuntos vários, são discutidos dentro do espírito de unir clareza e complexidade; contudo, sempre que aparece um autor ou personagem pela primeira vez, uma nota de pé-de-página o apresenta à maneira de um verbete, de modo a situar o autor ou personagem em questão, mesmo que em comentários rápidos.

 

Alternando com textos sobre diversos assuntos (inclusive textos extraídos do próprio livro Teoria da História), vamos postar nas próximas semanas algumas destas notas-verbetes sobre historiadores, filósofos e outros pensadores, tal como eles aparecem no livro Teoria da História.

 

Para os interessados em conhecer um pouco de cada um dos quatro volumes de Teoria da História, basta ou deixar um recado com e-mail neste tópico, ou pedir os capítulos pelo e-mail jose.assun@globo.com.

 

Uma apresentação de Teoria da História e do conteúdo de seus quatro volumes pode ser encontrada nos links http://ning.it/ec3iGH e http://ning.it/emygs0

 

A Nota-Verbete de hoje refere-se a FOUCAULT, um dos mais importantes e influentes filósofos do século XX, particularmente significativo para a história (campo de saber). O verbete busca apreender as fases da produção foucaultiana, embora certamente este seja um dos autores mais difíceis de ser classificado nos seus diversos momentos, uma vez que está se reinventando contantemente.

 

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Foucault. Michel Foucault (1926-1984) nasceu em Poitiers, e escreveu uma extensa e importante obra, abrangendo campos de saber diversificados como a filosofia, a antropologia, a psicologia, a história, a sociologia, a ciência política, a linguística, geralmente tratados de maneira interdisciplinar e entremeados através de uma fascinante habilidade discursiva que fez dele um dos escritores mais expressivos de sua época. Reinventou-se constantemente como autor, e por isso sua obra é difícil de ser classificada e localizada em fases bem definidas. Se quisermos pensar em seu acorde teórico, a primeira nota a considerar, talvez a única que permanece como uma nota de influência que perdura durante toda a sua vida, é a inspitação nietzscheniana. A nota-nietzsche está presente em todas as fases do acorde-Foucault, ou desse complexa polifonia emconstante mutação acórdica que é a produção bibliográfica de Foucault. Uma segunda nota importante, que aumenta de intensidade em momentos diversificados mas está sempre presente, é um certo empirismo, uma atenção metodológica importante aos fatos e informações cuidadosamente pesquisados em arquivos e instâncias diversas. Foucault sempre foi um empirista, um pesquisador nato, e de modo geral suas obras flutuam no ambiente de uma antropologia empírica bem fundamentada em uma rigorosa crítica histórica. Há ainda um certo ceticismo presente em toda a sua produção, mas que parece diminuir, como veremos adiante, na última fase, em que Foucault já parece acreditar mais nas possibilidades de resistência ao poder (e não apenas na importância de denunciá-lo) mesmo que estas resistências se dêem frequentemente ao nível da ação individual, da afirmação das identidades e singularidades, das afrontas aos padrões estabelecidos. De todo modo, foi uma precupação fundamental e sempre presente em sua acórdica filosófica a preocupação com o poder - e frequentemente com as relações entre "poder"  e "discurso", compreendendo esta última expressão de uma maneira não restrita apenas ao âmbito textual. Particularmente, esta análise ao poder se mostra na sua sempre acurada crítica às intituições políticas, sociais e disciplinares, tais como as prisões, as clínicas médicas, os sistemas educacionais, o controle nas fábricas, a psiquiatria, os sistemas de imposições e restrições relacionados à sexualidade e tantos outros.

 

Uma vez compreendidas as dificuldades de pensar a constante reivenção foucaultianas como fases autorais bem definidas, poderemos tentar enfrentar o desafio de apreender um pouco as mudanças acórdicas do pensamento de Michel Foucault, nas várias fases ou momentos de sua produção como autor de livros e conferências - uma atividade que frequentemente se entremeou na trajetória do filósofo francês, já que os diversos cursos que proferiu todos se transformaram em livros e foram pensados também com esta destinação.

 

Grosso modo, podemos propor uma divisão compreensiva da obra de Foucault em quatro fases acórdicas, mas, assim mesmo, reconhecendo que este será um esquema demasiado simplificador para a produção deste filósofo. Antes de mais nada, evocaremos uma fase introdutória que está muito próxima ao período de formação acadêmica de Michel Foucault, e onde poderemos ver repercutida em seu acorde teórico uma influência forte e dupla, combinando o Materialismo Histórico e a Fenomenologia. Esta fase pode ser bem tipificada pela primeira obra conhecida de Foucault, intitulada Doença Mental e Personalidade (1954), mas também pela tese de Doutorado intitulada “Loucura e Desrazão”, e que mais tarde seria publicada com o título História da Loucura (1961). Mas esta obra é já de certo modo uma inflexão para a fase seguinte. Por um lado ela concretiza o interesse muito claro de Foucault pela combinação de três áreas que constituíram muito fortemente a sua formação: a Filosofia, a Psicologia, e a História. Por outro lado, História da Loucura já anuncia as idéias estruturalistas que caracterizarão a segunda fase. / De fato, a segunda acórdica no pensamento de Michel Foucault é aquela em que se pode perceber um diálogo mais intenso com o Estruturalismo, e que se desenvolve nos anos 1960. Chamaremos a esta fase foucaultiana de “Fase Arqueológica”, e situaremos seus marcos, além desta obra de inflexão que é História da Loucura (1961), nas obras O Nascimento da Clínica (1963), As palavras e as coisas (1966), e Arqueologia do Saber (1966), sendo que esta última obra também é já uma espécie de ponto de inflexão para uma próxima fase, já que já começam aqui a aparecer as primeiras críticas ao Estruturalismo. / Uma terceira fase é aquela que poderemos definir como a de uma “Análise Tecnológica do Poder”, e que corresponde fundamentalmente à maior parte das obras escritas nos anos 1970. Desde a Ordem do Discurso (1971), uma síntese extraordinariamente precisa da nova perspectiva, até obras extremamente relevantes como Vigiar e Punir (1975) e o primeiro volume de História da Sexualidade, que leva o subtítulo de A Vontade de Saber (1976), esta fase se define muito claramente por um novo enfoque, menos teórico e mais histórico-metodológico, e por um novo objeto, voltado para o esforço de compreensão acerca dos modos como o poder se estabelece e se faz obedecer no seio das diversas sociedades. / Por fim, definiremos uma quarta fase acórdica no âmbito de uma certa continuidade em relação à fase anterior no que concerne à preocupação com os aspectos políticos, mas que por outro lado apresenta um deslocamento de temáticas, abandonando mais especificamente o estudo das tecnologias de poder e voltando-se para o estudo das formas de luta e resistência inerentes às relações d poder. Esta fase também adquire uma cor nova e específica na produção foucaultiana no sentido de que o indivíduo adquire uma nova centralidade enquanto ponto focal de afirmação da liberdade. De fato, aqui veremos se pronunciar na produção foucaultiana o reconhecimento da possibilidade de transformação do mundo através das resistências ao Poder, uma perspectiva que era radicalmente rejeitada na primeira fase – já nesta que o homem era sobredeterminado por estruturas que estavam além do seu alcance – e de alguma maneira também secundarizada na segunda fase, mais voltada para os modos como o poder se estabelece do que para os modos como os homens podem enfrentar as diversas tecnologias de poder. Esta fase é assinalada pelas obras escritas entre 1977 e 1984.

 

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A nota-verbete acima, com alguns elementos novos, foi extraída do 'Volume IV' de Teoria da História [BARROS, José D'Assunção. Teoria da História, volume IV: Acordes Historiográficos. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, p.30]

 

Capítulos de cada um dos quatro volumes de Teoria da História podem ser pedidos para o e-mail jose.assun@globo.com

 

Para uma apresentação do livro, ver http://ning.it/ec3iGH e http://ning.it/emygs0 [BARROS, José D’Assunção. Teoria da História, 4 volumes. Petrópolis: Editora Vozes, 2011]

 

A apresentação do Volume IV de Teoria da História pode ser encontrada em: http://ning.it/emygs0. A proposta de análise acórdica pode ser encontrada em http://ning.it/dLPAzn.

 

 

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Tags: Acorde, Análise-Acórdica, Foucault, Notas-Verbetes, Teoria

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