As frutas deixaram às árvores e foram parar na tevê!
Ao ligarmos nossos televisores, ao folhearmos revistas de moda ou mesmo revistas masculinas, e mesmo ao ouvirmos certas músicas, nos deparamos com uma nova modalidade de “produto” que vêem ganhando cada vez mais espaço na sociedade brasileira: as mulheres frutas. É “mulher melancia”, “mulher jaca”, “mulher moranguinho”, uma verdadeira feira de produtos HUMANOS!Sempre femininos. Tem frutas para todos os gostos.
Mas o que esta por trás dessa onda de mulheres se apresentarem aos nossos olhos como frutas? Bem. É muito simples. Vivemos em um mundo capitalista. Numa sociedade, que a cada dia se consolida como a sociedade do consumo. Tudo o que é produzido hoje, visa - quase sempre - o consumo. E como Marx mostrou, nesse sistema, até mesmo o ser humano torna-se um produto, nos reificamos, tornamo-nos como “coisa”. E nesse sentido, muitas mulheres tem sido vistas como um objeto, como uma coisa a ser consumida; como uma fruta. Contudo, não quero reduzir esta analise e primar por um determinismo econômico, não faríamos uma leitura completa dessa realidade.
O filósofo Wittgenstein alertou-nos para que estivéssemos atentos a linguagem cotidiana, já que construímos e temos contato com o mundo a partir da linguagem. Seguindo essa idéia desse filósofo - a de observarmos a linguagem cotidiana - encontramos numa expressão comumente utilizada em nosso cotidiano, a relação entre mulher e fruta. Sim. Quem nunca ouviu alguém perguntar para um rapaz “se ele nunca provou da fruta?”O que seria esse “provar da fruta” se não, o ato de ter se relacionado sexualmente com uma garota? Pois bem. Essa expressão é extremamente problemática e preconceituosa em relação a mulher. Pois esta tem ligação com o mito fundador da nossa sociedade cristão ocidental.
Na Biblia, no livro de Gênesis, lemos sobre a criação do mundo e do ser humano. E também sobre a queda e expulsão destes que viviam no Paraíso. Motivo: a desobediência. Que foi...Haha! Comer o FRUTO proibido. A mulher não só foi a primeira a comer o fruto, como também foi ela quem teria seduzido Adão a provar do fruto. Logo temos: mulher + fruto = pecado.
Mas não foi só na tradição judaica - já que este mito pertence a este povo - que a mulher se encontrou numa situação desconfortável . Os gregos antigos também viam - ainda que havia variações de época e lugar - a mulher como um ser inferior. O sábio Aristóteles, por exemplo, afirmava que a mulher era um “homem incompleto”. E é na Idade Média que o legado grego e o legado judaico-cristão se "fundiram" , e o estigma da inferioridade, mais a ligação ao pecado, acompanhariam as mulheres. O historiador Georges Duby mostra em “Eva e os padres”, como na mentalidade medieval a mulher era a portadora do pecado. Ele escreve sobre o estigma de Eva, sobre como a mulher era tida como fraca e sujeita a se entregar ao pecado, aos vícios da carne. O pecado não esta mais no fruto, ou melhor, a mulher passa a ser vista como o fruto que leva ao pecado, cabendo ao homem resistir a tal tentação.
Assim vemos que na antiguidade e também na Idade Média a mulher sofreu com a inferiorização e o estigma do pecado. Mas e hoje? Ainda existe preconceito para com as mulheres? Infelizmente, sim.
Isso está claro na idéia da mulher enquanto fruta. O nu feminino não é mais aquele dos idéias artísticos que buscavam celebrar e representar a natureza. A Vênus a Madonna dos renascentistas, que transmitiam a beleza e a perfeição da natureza, não existe mais.Não.Agora Ela [a mulher] é simplesmente um objeto de consumo, um 'saboroso alimento' que visa dar prazer. Não é vista pelo que é, ou o que pensa. Mas, por quantos centímetros de bunda ela tem, quais são as suas padronizadas medidas ou seu bronzeado artificial. São levadas a buscarem padrões, que não respeitam nacionalidades ou origens, basta lembrar dos concursos de Miss Universo ou mesmo os desfiles de moda. Não me espanta vermos diversos casos de doenças como bulimia, anorexia, e outros males que afetam sobretudo as adolescentes que estão em processo de construção de suas identidades. A chamada ditadura da beleza esta aí, amplamente fortalecida e sendo disseminada pelos meios de comunicação em massa. Chega disso...MULHERES DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!
Neste mês em que se comemora “O dia internacional da Mulher”, não se deixem levar pelos atrativos consumistas. Não é uma data para se preocupar com presentes, mas sim, para despertar a reflexão. Qual o seu lugar no mundo? Que lugar ou papel vocês estão desempenhando na nossa sociedade? Por favor: não caiam também no estremo em que muitas mulheres caem, tipo, “a mulher é por natureza mais inteligente que o homem”, e coisas do tipo. Isso não ajuda, é apenas um preconceito ao contrário. Uma idéia errada, não se vence com outra idéia errada. Somos iguais, somos humanos! E alguns são bons em certas coisas e outros não, independente do sexo, da raça ou da origem. Por isso, abaixo as mulheres frutas, e viva as mulheres humanas! Modele, ou não, o seu corpo como você achar melhor. Se quiser ter bumbum e seios grandes, os tenha, não há nada de errado em querer ter o chamado "corpão" - desde que não seja por uma padronização, simplismente para ter uma boa imagem na sociedade - Se exercite visando o seu bem estar e a sua saúde; antes de amar alguém, ame a si mesmo. Procure mais o conhecimento do que a beleza, ou melhor, procure descobrir o que é o belo, como nos ensinou Platão. Viva, lute, transforme; esse é o papel de todos nós, mulheres e homens.

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Comentário de larissa godinho martins em 15 maio 2011 às 18:38

Poxa izac, adorei seu texto.  Muito liindooo.

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