HINDUÍSMO: UMA RELIGIÃO COM ORIGEM NA ÍNDIA

Maria Carvalho
Professora pesquisadora, historiadora e com mestrado em psicopedagogia.

INTRODUÇÃO

Um rápido olhar para o mundo ao redor mostra que a religião desempenha um papel bastante significativo na vida social e política de todas as partes do globo.
Ouve-se falar de católicos e protestantes em conflito na Irlanda do Norte, cristãos contra muçulmanos nos Bálcãs, atrito entre muçulmanos e hinduístas na Índia, guerra entre hinduístas e budistas no Sri Lanka. Nos Estados Unidos e no Japão há seitas religiosas extremistas que já praticaram atos de terrorismo. Ao mesmo tempo, representantes de diversas religiões promoveram ajuda humanitária aos pobres e destituídos do Terceiro Mundo. É difícil adquirir uma compreensão adequada da política internacional sem que esteja consciente do fator religião (GAARDER, HELLERN & NOTAKER, 2006).
Um conhecimento religioso sólido também é útil num mundo que se torna cada vez mais multicultural. Quem vê de fora uma religião, enxerga apenas suas manifestações, e não o que elas significam para o indivíduo que a professa.

O APARECIMENTO DAS RELIGIÕES

Foram registradas várias formas de religião durante toda a história. Já houve muitas tentativas de explicar como surgiram as religiões. Uma das explicações é que o homem logo começou a ver as coisas e seu redor como animadas. Ele acreditava que os animais, as plantas, os rios, as montanhas, o sol, alua e as estrelas continham espíritos, os quais eram fundamentais para apaziguar. O antropólogo Tylor (1832-1917) batizou essa crença de animismo. Tylor foi influenciado pela teoria de Dawin sobre a evolução. A sua concepção era de que o desenvolvimento religioso caminhou paralelamente ao avanço geral da humanidade, tanto cultural como tecnológico. Primeiro em direção ao politeísmo (crença em diversos deuses) e depois ao monoteísmo (crença num só deus). Tylon concluiu que os povos tribais não haviam ido além do estágio da Idade da Pedra e, portanto, praticavam esse mesmo tipo de animismo. Hoje há um consenso geral de que o animismo não é uma caracterização adequada para a religião dos povos tribais.
Nas modernas ciências da religião – Sociologia, Psicologia, Filosofia e Fenomenologia Religiosa –, predomina a idéia se que a religião é um elemento psicológico, mas que tem sua própria estrutura.

O QUE É RELIGIÃO?

Muitas pessoas já tentaram definir religião, buscando uma fórmula que se adequasse a todos os tipos de crenças e atividades religiosas – uma espécie de denominador comum. Existem, naturalmente, até o risco nessa tentativa, já que ela parte do pressuposto de que as religiões podem ser comparadas. Há também os pesquisadores cuja opinião é que o único método construtivo de estudar as religiões é considerar cada uma em seu próprio contexto histórico e cultural. Contudo, há mais de um século os estudiosos da religião tentam encontrar traços comuns entre as religiões (GAARDER, HELLERN & NOTAKER, 2006). Outros pesquisadores fazem comparações a fim de descobrir o que caracteriza o conceito de religião em si.
Para Friedrick Schleiermacher (1768-1834) a religião é um sentimento ou uma sensação se absoluta dependência. Enquanto que Tiele (1830-1902) assevera que religião significa a relação entre o homem e o poder sobre-humano no qual ele acredita ou do qual se sente dependente. Essa relação se expressa em emoções especiais (confiança, medo), conceitos (crença) e ações (cultos e ética)
Nos primeiros anos de século XX, o sueco Nathan Söderblon (1866-1931), arcebispo e estudioso das religiões, ofereceu uma definição baseada nos sentimentos humanos: “religiosa ou piedosa é a pessoa pra quem algo é sagrado”. Sagrado se tornou uma palavra-chave para os pesquisadores da religião no século XX: descreve a natureza da religião e o que ela tem de especial. Esse termo ganhou realce numa obra sobre Psicologia da /religião, A idéia do sagrado, de Rudolf Otto (1917). O sagrado é das ganz Andere, o “inteiramente outro”, ou seja, aquilo que é totalmente diferente de tudo o mais e que, portanto, não pode ser descrito em termos comuns. O autor fala de uma dimensão especial da existência, a que chama de misterium tremendum et fascinossum (em latim, “mistério tremendo e fascinante”). É uma força que por um lado engendra um sentimento de grande espanto, quase de temor, mas por outro lado tem um poder de atração ao qual é difícil resistir.

A RELAÇÃO DO HOMEM COM O SAGRADO

Gaader, Hellern & Notaker, (2006) no livro das religiões assim se expressam: No islã e no judaísmo o homem cumpre suas obrigações religiosas se submetendo aos mandamentos de Deus; nas religiões africanas e indianas, seguindo as regras tribais estabelecidas pelos ancestrais, e na religião chinesa, alcançando uma harmonia, ou uma consonância, com as forças básicas da existência, yin e yan. Em certas religiões, sobretudo, na índia, um dos objetivos é atingir a união com a divindade.


HINDUÍSMO: UMA RELIGIÃO COM ORIGEM NA ÍNDIA

O hinduísmo é uma religião da Índia, mas tem muitos adeptos também no Nepal, m Bangladesh e no Sri Lanka. Depois de muitos anos de domínio colonial britânico, em ‘947 a Índia se tornou uma república independente: um Estado secular (não religioso), com uma constituição que garantia direitos iguais para todas as denominações religiosas e proibia qualquer forma de discriminação baseada em religião, raça, casta ou sexo. Hoje cerca de 80% da população da Índia é hinduísta, 10% muçulmanos e 4% cristã (GAARDER. KELLERN & NOTAKER, 2006).
Em 1947, a tensão entre hinduístas e muçulmanos em razão da independência da Índia resultou na criação do Paquistão como um Estado muçulmano separado, dividido em duas partes distintas, o Paquistão do Leste e o Paquistão do Oeste. Depois da guerra de 1971 entre a índia e o Paquistão, o Paquistão do Leste tornou um Estado independente com o nome de Bangladesh.

O QUE É HINDUÍSMO?

Diferentemente das outras religiões mundiais (budismo, cristianismo e islã), o hinduísmo não tem fundador, nem credo fixo e nem organização de espécie alguma. Projeta-se como a “religião eterna” e se caracteriza por sua imensa diversidade e pela capacidade excepcional que vem demonstrando através da história de abranger novos modos de pensamento e expressão religiosa.
A palavra hinduísmo significa simplesmente “indiano” (da mesma raiz do rio Indo) e talvez a melhor maneira de definir o hinduísmo seja dizer que é o nome das várias formas de religião que se desenvolveram na Índia depois que os indo-europeus abriram caminho para a índia do Norte, de 3 a 4 mil anos atrás (GAADER, KELLERN & NOTAKER).
O hinduísmo não se trata de uma religião do tipo das nossas que se poderia definir negativamente isolando delas o conjunto das formas não-religiosas da existência. Em alguns aspectos, é inseparável da especulação filosófica. Noutros, da vida social. A vida social concebe-se no âmbito das classes e das castas, assim como dos modos de vida ou âçramas: é em função dessas repartições que se estabelece o dever, o imperativo moral, por seu turno de essência religiosa. O termo considerável de dharma, propriamente o “suporte” dos seres e das coisas, designa simultaneamente a lei na sua maior extensão, a ordem que preside aos fatos nas disciplinas normativas, mas mais especialmente a lei moral, o mérito religioso: é o único termo que traduz o nosso vocábulo “religião” e, ao mesmo tempo, o excede e permanece aquém. A condição está subordinada aos quadros gerais da vida indiana (RENOU, 1969).
O peculiar do hinduísmo é que todos os seus estágios históricos são visíveis simultaneamente. Apesar de sua complexidade, ainda se pode experimentar o hinduísmo como um todo. Assim, ele já foi comparado a uma floresta tropical, onde várias camadas de animais e de plantas se desenvolveram num grande meio ambiente (GAARDER, KELLERN & NOTAKER).

A RELIGIÃO VÉDICA

As raízes do hinduísmo podem ser encontradas em algum ponto entre o ano 1500 a.C. e o ano 200 a. C, quando os chamados arianos (“os nobres”, começaram a subjugar o vale do Indo. As crenças dessas pessoas tinham ligação com outras religiões indo-européias, como a grega, a romana e a germânica. Sabe-se disso pelos chamados hinos védicos (da palavra Veda, ou seja, “conhecimento”), que eram recitados por sacerdotes durante os sacrifícios a seus muitos deuses. O sacrifício era importante para o culto ariano. Faziam-se oferendas aos deuses a fim de conquistar seus favores e manter sob controle as forças do caos.
Achados arqueológicos no vale do Indo indicam que houve uma civilização avançada na Índia, anterior à chegada dos indo-europeus, e é certo que essa civilização também contribuiu para o hinduísmo moderno (Idem). Julgou-se encontrar na civilização estrangeira da bacia do Indo (Mohanjo Daro e Harappa), civilização que remonta a 2500-2000 antes da nossa era, traços de um culto hinduísta: protótipo do deus Çiva, representações do linga ou “falo”, alusão figurada a exercícios de Ioga – mas nada de tudo isto é seguro.
Todavia, tudo o que existe no Veda e se encontra na índia clássica não é herdado. Deve-se admitir que o hinduísmo, atestado relativamente tarde nos textos, existia sob alguma forma “primitiva”, desde a época védica e porventura antes.
A época conhecida como período védico tardio, de 1000 a. C. até 500 a. C., marcou uma virada crucial no desenvolvimento religioso da Índia. Importância especial tiveram os Upanishads, que até hoje são os textos hinduístas mais lidos. Foram escritos sob a forma de conversas entre mestre e discípulo, e introduzem a noção de Brahman, a força espiritual essencial em que se baseia todo o universo. Todos os seres vivos nascem do Brahman, vivem no Brahman e ao morrer retornam ao Brahman.

AS CASTAS, AS VACAS E O CARMA

O hinduísmo moderno compreende uma grande variedade de idéias e formas de culto.
a) Sistema de castas: Toda sociedade têm várias formas de distinção e estratificação em classes, mas é difícil encontrar um país onde isso tenha sido praticado tão sistematicamente quanto na Índia. As castas em geral se associam a profissões especiais. /cada casta tem suas próprias regras de conduta e de prática religiosa, que determinam com quem se associar e que tipo de trabalho pode realizar. A base religiosa desse sistema é a noção de pureza e impureza. O contraste entre o que é “limpo” e o que é “impuro” permeia todo o hinduísmo. Para um brâmane, tudo o que tenha a ver com as coisas corporais ou materiais é impuro. Se ele se tornou impuro há diversas maneiras pelas quais ele pode se purificar. O método tradicional mais conhecido de purificação utiliza a água de um dos muitos rios sagrados da índia, como o Ganges. O novel mais baixo no sistema de castas é o dos “intocáveis” ou “sem casta”, também chamados “párias”. As regras das castas eram muito rígidas, mas a Constituição indiana que entrou em vigor em 1947, introduziu certas medidas pra banir a discriminação por castas, entretanto o sistema continua tendo um papel importante, em especial nas aldeias.
b) A vaca sagrada: A vaca é um animal sagrado na Índia e é adorada durante certas festas religiosas. Isso provavelmente se relaciona com um antigo culto de fertilidade; nos Vedas há hinos à vaca, pois ela supre tudo o que é necessário para sustentar a vida. A vaca se tornou um símbolo da vida, e não é permitido mata-la. Em termos de culto, a vaca é mais “pura” do que o brâmane. Assim, a pessoa que toca uma vaca está ritualmente limpa. Todos os produtos derivados da vaca, até mesmo os excremento e a urina são tão sagrados que podem ser usados como agentes de purificação (GAARDER, KELLERN & NOTAKER).
c) Karma e reencarnação: Um conceito-chave na filosofia dos Upanishads é que o homem tem uma alma imortal. “Ela não envelhece quando você envelhece, ela não morre quando você morre”. Um hinduísta acredita que, depois da morte de um indivíduo, sua lama renasce numa nova criatura vivente. Pode renascer numa casta mais alta ou mais baixa, ou pode passar a habitar um animal. Há uma ordem inexorável nesse ciclo que vai de uma existência a outra. O impulso por trás dela, ou que a mantém sempre em movimento, é o Karma do homem, palavra sânscrita que significa “ato”. Entretanto, nesse caso, ato se refere a pensamentos, palavras e sentimentos, não apenas a ações físicas. A originalidade está no conceito de que todas as ações de uma vida, e somente elas, formam a base para a próxima. Assim, o Karma não é uma punição pelas más ações ou recompensa pelas boas. É uma constante impessoal – como uma lei natural. A responsabilidade pela vida do hinduísta e por sua próxima encarnação será sempre dele. O homem colhe aquilo que semeou. O eu a pessoa experimenta nessa vida é resultado de suas ações numa vida anterior. A doutrina do Karma dá sustentação a um esquema de relações sociais como o sistema de castas. Embora a pessoa deva se submeter ao Karma que herdou de uma vida anterior, o indivíduo sempre pode melhorar na próxima encarnação.

O PROCESSO SALVÍFICO

Durante o período védico, a doutrina do Karma e a da reencarnação eram vistas como algo positivo. Por meio dos sacrifícios e das boas ações, o indivíduo podia garantir que iria viver várias vidas. Mais tarde o hinduísmo passou a considerar esse ciclo como algo negativo, como um círculo vicioso a ser quebrado (GAARDER, KELLERN & NOTAKER). O hinduísmo não possui uma doutrina clara e não ambígua sobre a salvação que explique de que modo o homem pode escapar do interminável e cansativo ciclo das reencarnações. Há uma grande quantidade de movimentos e seitas com visões divergentes. Apesar disso é possível distinguir três caminhos diferentes para a graça, que exercem papel relevante na história da Índia. São as vias dos sacrifícios (fazendo sacrifícios e boas ações muitos hinduístas tentam obter a felicidade terrena); do conhecimento (compreender a verdadeira natureza da existência será um caminho para a salvação); e da devoção (o caminho mais seguro para a salvação é o bhakti, a devoção a Deus e a crença nele). No século III a. C., esse caminho para a graça encontrara sua expressão clássica no Bhagavad Git, um poema catequético. O Bhegavad Gita abre o caminho para uma associação mais pessoal com Deus do que os Vedas ou os Upanishads. Ela se caracteriza pelo amor e a devoção (bhakti) do homem para com Deus, num relacionamento eu-tu. É importante ressaltar de que todas as pessoas, independente de sexo ou casta, podem conseguir a graça se se devotarem a Deus. E todas as três vias de salvação se baseiam na doutrina do Karma (Idem).
Aqueles que seguem o Hinduísmo devem respeitar as coisas antigas e a tradição; acreditar nos livros sagrados; acreditar em Deus; persistir no sistema das castas (determina o status de cada pessoa na sociedade); ter conhecimento da importância dos ritos; confiar nos guias espirituais e, ainda, acreditar na existência de encarnações anteriores

BIBLIOGRAFIA

Les Upanishads, Publicada e traduzida por L. RENOU.
La Bhagavad-Gita, tradução de SENART.
Comment comprendre Ia Religion hindoue, Usha CHATTERJI, édition Olivier Perrin.
Le secret du Véda, Sri AUROBINDO.
Documents spirituels, Sri AUROBINDO, Cahiers du Sud.
Trois Upanishads, Sri AUROBINDO.
Essai sur Ia métaphysique du Védânta, Swami SIDDHEVARANANDA, Masque d'or.
“Hindouisme ou Sanatana Dharma” por Solange Lemaître. Col. “Je sais”, Fayard: Paris, 1958 – Há uma edição em português desta obra, intitulada “Hinduismo ou Sanatana Dharma” SP: Flamboyant, 1958.

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Comentário de Osmarina Costa de Aguiar em 2 janeiro 2010 às 15:25
oi Salete, o artigo Hinduísmo faz pensar nas diferências religiosos e o quanto é importante respeitar a cultura do outro. Esta leitura foi muito importante para mim.

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