Nas primeiras horas da manhã do dia 24 de agosto de 1954, o Brasil tomou conhecimento de que o presidente Getúlio Vargas se matara no Catete e que deixara uma carta-testamento aos brasileiros. Não houve tempo para que as autoridades militares que controlavam de fato o país conseguissem sustar a sua divulgação, o que foi inicialmente feito no Repórter Esso e depois em todas as rádios país afora. Esta carta, magnificamente e emocionadamente escrita, foi o genial contra-golpe de Vargas, que abortou o golpe de estado e atrasou a revolução "redentora" por quase 10 anos. Ainda hoje é um documento histórico de transcendental importância. Há alguns anos procurei uma versão da mesma em inglês e não achei. Decidi assim fazer uma tradução livre que ficou em escondida em grupos de discussão. Agora eu decidi trazê-la para o Café História, embora posteriormente eu tenha achado na Wikipédia uma tradução melhor.

Abaixo o original:



A seguir a minha tradução:

SUICIDE NOTE OF THE FORMER PRESIDENT GETÚLIO VARGAS

Once more, the powers and the anti-people interests joined together
and they both fall both upon my head again. I am not accused, I am
insulted; I am not opposed by, I am fakely charged, and I am not given
the sacred right to defend myself. My voice must be choked, so as I
cannot defend, as always I have been done, the Brazilian people,
mainly the humble people.

I follow my destiny as set ahead. After decades of being ruled and
exploited by the International Economical and Financial Groups, I
turned myself leader of a revolution and I won. I started them the
work of national liberation and I installed the social welfare regime.
I was obliged to resign, but I returned back to office supported by
the Brazilian people's arms.

International Groups, working out an underground campaign, allied to
Domestic Groups both revolted against the labor law. The extra profit
bill was withstood in the National Congress. Hatred was raised against
the fair correction of the national minimum wages. I decided to
upgrade the national freedom through PETROBRÁS, the National Brazilian
Oil Company, and it hardly starts to work and a rioting wave grows
against it. ELETROBRAS, the National Electrical Power Company, has
been despairely hindered.

They do not want the Brazilian Worker to be free. They do not want the
Brazilian People to be free. I took office with raising inflation
destroying the value of the salaries. Foreign companies achieved
profits of 500% per year. More than one hundred million US dollar
frauds in importing operations were unveiled. The coffee crisis came
up, increasing our main product value. We tried to defend its price
and the response was a violent strike against our economy, obliging us
to withdraw.

I have been struggling month after month, day after day, hour after
hour, withstanding a constant, never-ending pressure, silently bearing
everything, forgetting everything, resigning to myself, all that to
defend the people that now do fall aside unsupported. I have nothing
to give to the people, but my own blood. Should the meat-eating birds
want to suck someone's blood, want to suck the Brazilian people, I do
offer my life in holocaus to the people.

I chose that way to be always with you. When you suffer humiliation
you shall feel my soul suffering beside you. When famine hits your
door, you shall feel in your chest the energy to struggle not only for
yourself but also for your children. When you are offended, you shall
feel in your thoughts the power for reaction. My sacrifice shall keep
you joined together and my name shall be your fight banner. Each drip
of my blood shall be an immortal flame on your conscience and shall
keep the sacred vibration to resist. To the odium I respond with the
mercy. And to those thinking to have defeated me, I do respond with my
victory.

I have been the people's slave and today I am getting my liberty to
the everlasting life. But the people, whom I have been slave of, shall
not be anybody's slave again. My sacrifice shall stay forever in their
soul and my blood shall be the price of their rescue. I fought against
Brazil's exploitation. I fought against the Brazilian people's
mistreatment. I have been fighting without weapons. The hatred, the
lies, the fake deeds, nothing took me down. I do fear nothing. Firmly
and softly I step forward the eternity, leaving life to go into
History.

Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, Aug/24th/2004



Em agosto de 1974, vinte anos após o desaparecimento trágico de Getúlio Vargas, a revista O CRUZEIRO já em processo de falência publicou uma edição especial sobre o ex-presidente. Documento interessante, principalmente por ter sido veiculado na ditadura militar que era de fato gerida por seus velhos inimigos. Cópia digitalizada da mesma encontra-se no meu foto album:



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Tags: Carta-Testamento, Getúlio, Suicide-Note, Vargas

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Comentário de Vieira a.j.fontes em 17 abril 2010 às 21:42
Maurício, grato por fazer uma sinópse do período Vargas. As novas gerações não conhecem Getúlio, nem o Estado Novo e nem o PTB( Partido Trabalhista Brasileiro) célula cancerosa da corrupção, clientelismo,assistencialismo e tudo de ruim da política brasileira. A metátase da corrupção do PTB estendeu-se por todo país e,recentemente até Brasília. Vargas democrata? " O diabo depois de velho vira ermitão", sábio ditado popular.Veja na minha página, Goebbles do Nordeste. Um abraço.
Comentário de Maurício José Marzano do Nascime em 17 abril 2010 às 20:46
Vamos aos fatos:
1. GV foi um ditador de 1937 a 1945.
2. GV liderou um governo forte e golpista de 1930 a 1937.
3. A ditadura de GV, como todas, foi violenta e cruel com seus adversários. Por uma habilidade inata do ditador,ele conseguiu cooptar a inteligencia nacional e não ficou na sua conta os débitos, falhas e crimes da ditadura.
4. De 1951 até sua morte ele chefiou um governo democrático, diretamente eleito pelo povo, com oposição e imprensa livres. Não foi o ditador que se suicidou, mas o presidente democrata, emparedado por uma série de erros de sua acessoria direta com o estúpido envolvimento no assassinato do Major Vaz.
5. A oposição a GV era golpista. O suicídio abortou o golpe que só viria em 64.
6. O legado histórico de GV está aí. Não é mais questão de gostar ou não gostar. É só ver. Agora isto não anistia o seu passado de ditador, da mesma forma que a herança positiva de parte da ditadura dos militares de 64 a 85 não os isenta dos crimes que deixaram.
7. Finalizando, Carlos Lacerda, o maior inimigo de GV, era um irresponsável cívico.
8. A morte de GV foi um ato político e corajoso. Era a única forma de sair bem na fotografia.
Comentário de Vieira a.j.fontes em 17 abril 2010 às 18:05
Todo ditador, fascista, acha que sem êle o país se acaba. Pensava assim Mussolini, Franco,Salazar e, modernamente, Castro. Com Getúlio não foi diferente, preferiu a morte a assistir a derrocada do Brasil. Foi-se tarde.

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Está em cartaz nos cinemas brasileiros a co-produção Brasil-Aregentina, "A Oeste do fim do fo mundo", de Paulo Nascimento.

Sinopse: Leon (César Troncoso) é um homem introspectivo que vive em um velho posto de gasolina, perdido na imensidão da estrada transcontinental entre a Argentina e o Chile. Seu único amigo é Silas (Nelson Diniz), um brasileiro que volta e meia o visita para trazer peças para consertar a moto dele. Um dia, a paz de Leon é abalada com a chegada de Ana (Fernanda Moro), uma mulher que escapou da tentativa de abuso sexual de um caminhoneiro com quem tinha pego carona. Sem ter para onde ir e no meio do deserto, Ana recebe abrigo de Leon inicialmente para apenas um dia. Só que o tempo passa e ela não consegue sair do local.

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Felipe II: confira na íntegra a tese de doutorado do historiador José Carlos Vilardaga: "São Paulo na órbita do Império dos Felipes: conexões castelhanas de uma vila da América Portuguesa durante a União Ibérica (1580-1640)". O trabalho foi defendido em 2011 na Universidade de São Paulo.

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