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O filme "Marighella" de Isa Grinspum Ferraz será lançado comercialmente no dia 10 de agosto em 6 capitais, no circuito Espaço Unibanco/Itaú. Avisem seus amigos. Precisamos encher as salas nas 2 primeiras semanas para que o filme não saia logo de cartaz. A concorrência por salas é pesada

http://boitempoeditorial.wordpress.com/2011/11/18/marighella/

Marighella

Por Lincoln Secco.

Como filmar a biografia de alguém que não deixou rastros nem imagens? O revolucionário brasileiro Carlos Marighella esteve quase sempre mergulhado na luta clandestina contra as ditaduras brasileiras.

A diretora do filme Marighella, Isa Grinspum Ferraz, logrou definir o herói que também é o seu tio, apanhando a dimensão política filtrada pelo cotidiano. Seu filme é montado em torno de pistas. A diretora concatena entrevistas, músicas, fotografias e cenas de época sem uma narrativa didática de nossa história. Ao contrário, a totalidade das contradições da sociedade brasileira se forma nos olhos do espectador a partir de uma bela colagem em que as fases de uma história de opressão e busca da liberdade são mediadas pela biografia de um personagem que foi capaz de expressar o seu tempo.

Poucos revolucionários brasileiros encarnaram ideologica e “biologicamente” o nosso povo, como acentua Antonio Candido em depoimento no filme. Carlos Marighella era italiano, negro, baiano, comunista e poeta. Homem de tantas dimensões já seria em si e por si mesmo difícil defini-lo. Como falar do revolucionário cuja maior parte da vida se passou na prisão ou na clandestinidade?

Entre tantos méritos, o filme tem o de mostrar Marighella como um quadro político de primeira ordem e não como um aventureiro.

Em suas análises, ele nos deixou um legado teórico de coragem, pois chamava a Ditadura pelo seu nome e não pelos eufemismos tão comuns na vida acadêmica de ontem e de hoje. Para ele, havia no Brasil uma tirania fascista. É claro que faltava ao Brasil uma mobilização de massa para sustentar tal análise. Como dizia Florestan Fernandes, nem isso as elites das classes dominantes tiveram capacidade de fazer. No entanto, quando Marighella usava a expressão “fascismo militar” estava optando por um “conceito forte”, capaz de mobilizar simultaneamente a leitura que desvenda a natureza do regime e a a prática que o denuncia.

Carlos Marighella, como os depoimentos do filme mostram, também cometeu erros de avaliação da conjuntura. Mas mesmo assim, sua opção pela tática da guerrilha urbana demonstrou-se essencialmente certa. Ele percebeu que o fascismo militar, ao impor-se pela violência e pelo terror, produzia o seu contrário: a violência revolucionária. No entanto, a violência dos guerrilheiros era, nos termos de Mao Tse-tung, justa, pois visava eliminar uma tirania.

Sem a luta dos guerrilheiros no Brasil, a ditadura poderia ter se estendido no tempo e restringido ainda mais suas opções de abertura controlada. É verdade que a Ditadura se utilizou da guerrilha como pretexto para recrudescer sua violência. Contudo, ela também usou o simples movimento pacífico de massas para isto. A guerrilha foi necessária acima de tudo para o povo. Com ela, os brasileiros mostraram que não sofreriam calados e que a coragem naquela altura tinha um nome: Carlos Marighella. 

***

Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

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