EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA: CONQUISTAS E DESAFIOS

A IMPLEMENTAÇÃO DA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA INFANTIL: O CASO DOS XUKURU DO ORORUBÁ (PESQUEIRA/POÇÃO-PE)

 

Por Sunamita Silva de Oliveira Albuquerque*

 

            Há aproximadamente trinta anos o povo Xukuru do Ororubá luta pelo reconhecimento de sua identidade, por respeito, por seu direito à terra, à dignidade, à vida. A organização sociopolítica garantiu-lhes  a articulação necessária para travarem diversas batalhas, a partir do apoio de alguns grupos simpatizantes, mas, foi a escola, por intermédio de sua sistematização, que os ajudou a afirmar e organizar o conhecimento necessário na manutenção destes direitos.

            Ser  alfabetizado não implica em ser educado. O conceito de educação indígena demonstra que, não é a leitura por si só, responsável pela formação do indivíduo. É perfeitamente possível ser educado sem que se domine a leitura e a escrita. É a partir da conscientização destes valores que a educação escolar indígena é reelaborada pelos povos indígenas, visando a ampliação das discussões e conquista de seus direitos, renegados pela sociedade “nacional” desde 1500, bem como, possibilitar a construção do diálogo inter e intracultural.

            Desta forma, e em detrimento das necessidades atuais advindas da sociedade envolvente, a educação escolar Xukuru do Ororubá foi pensada, elaborada, ganhou significado e é executada. Percebeu-se que lutas corporais não faziam mais sentido, especialmente quando a luta não é justa, paritária. Havia uma necessidade de formar guerreiros e guerreiras, mas não com habilidades em disparar armas de fogo, dardos ou flechas, mas guerreiros e guerreiras que soubessem fazer uso da palavra, para por meio dela, defender sua alteridade.

            Embora a Educação Indígena seja compreendida como suficiente para o desenvolvimento da alteridade, afirmação de suas identidades étnicas e aquisição dos valores difundidos pela comunidade na qual estão inseridos, é na educação escolar que os povos indígenas adquirem subsídios para defender seus direitos, frente as intrusões da sociedade envolvente, buscando argumentos nas leis elaboradas por não índios. Dentre os desafios trazidos para discutir na escola, está o das questões agrárias, dos latifúndios.

            Pudemos verificar em nossa pesquisa que, há uma certa disparidade entre o ensino praticado na educação básica e na Educação Escolar Indígena Infantil Xukuru do Ororubá, tais como, a distribuição de alunos por sala de acordo com o número de matrículas, conforme demonstramos nos gráficos do cap. VI. As salas de aula da região Serra, por exemplo, apresentam-se com turmas multisseriadas, onde as crianças da educação infantil parecem ocupar lugar de coadjuvantes. Três ou quatro alunos em idade pré-escolar, misturados com outros de várias séries, níveis de desenvolvimento e idades distintas comprometem a qualidade do trabalho que pretende ser realizado, por qualquer professor, seja ele indígena ou não. Humanamente já se demonstrou, e é passível de verificação em qualquer sala de aula da zona rural que, não se consegue atender a todos os alunos igualitariamente, com a mesma qualidade, da mesma forma que “não se pode servir a dois senhores, sem desagradar a um deles”.

            Há uma demanda declarada e comprovada por quanto a necessidade da existência das salas de educação infantil, contudo, acreditamos ser inviável a permanência deste segmento, nos moldes que se encontram atualmente. Não há espaço apropriado para atender os pequenos, não há material suficiente e adequado, e falta aos educadores subsídio, apoio dos coordenadores e formadores, para dar-lhes o suporte necessário para elaborarem atividades que sejam condizentes com as competências que precisam ser desenvolvidas nesta idade. O modelo atual, infelizmente, reproduz o que é praticado na educação infantil medíocre da maioria das escolas públicas municipais, onde alguns prédios são usados como depósitos de crianças. Este modelo compromete seriamente a condição de educação diferenciada.

            Em virtude dos diversos embates na luta pela terra (alguns ainda latentes), a integração forçada por mais de quinhentos anos de contato com a sociedade envolvente, a proximidade com o município de Pesqueira, que empregou e emprega mão de obra indígena, o povo Xukuru vive uma realidade bem distinta de vários outros povos que referenciamos neste trabalho, com menos tempo de contato e vivendo em locais de difícil acesso. Constatamos que muitas crianças Xukuru vivem em lares “reformulados”, por terem sido vítimas de abandono por parte de suas mães (ou pai), algumas famílias com problemas com alcoolismo e outras, residentes em Cimbres, que precisam se deslocar da aldeia onde moram para trabalhar em outros locais. Por ser esta uma condição difícil de ser modificada a curto prazo, é preciso refletir acerca de quais cuidados serão destinados a estes filhos e filhos pequenas. Se é inviável estar com crianças pequenas durante a execução de trabalhos braçais, como na lavoura, a escola pode servir ao propósito de cuidar-lhes adequadamente, garantindo-lhes não apenas segurança e alimentação, mas propiciando-lhes desde cedo, meios para que recuperem sua autoestima e, principalmente, desenvolvam sua alteridade, sua identidade étnica, sendo cuidadas por membros da comunidade que lhes sirvam de exemplo, como rege o princípio da educação indígena.

            Quando questionamos o cacique sobre a falta de uma infraestrutura adequada para atender as crianças da Aldeia Vila de Cimbres, ouvimos dele que isso se deve ao fato de serem um governo sem recurso, sem verba, que não recolhe impostos, e desta forma, dependem do governo do estado, ao qual estão jurisdicionados.

            Percebemos a ausência de atividades que são oferecidas aos alunos do ensino fundamental, como por exemplo, as que são desenvolvidas pelos professores de artes indígenas, denominados de professores especiais, por serem responsáveis por ensinar acerca da cultura material do povo, entre as atividades de rotina da educação infantil. Nenhum dos profissionais com os quais conversamos, com exceção da escola Mons. José Olímpio da Aldeia Vila de Cimbres, nos relatou a existência da atuação destes professores com seus alunos.

            A ausência de equipamentos eletrônicos, mesmo os mais simples, que possibilitem às crianças trabalharem com música, essencial para a assimilação dos primeiros conceitos e conhecimentos primários, como já demonstramos é uma outra questão, que no nosso entendimento, conforme pedagogos e psicólogos, precisa ser revista. Se há uma rejeição por artistas seculares, cujo repertório é voltado para o público infantil, para que se valorize e eleve os aspectos culturais do povo, há de se convir que, o critério de seleção não deve ser extremista, uma vez que, a realidade do povo é a de ter acesso a todo esse material através da mídia televisiva e via internet, uma realidade em algumas das aldeias que visitamos. Caberia então, o critério de, filtrar o material disponibilizado nos meios de comunicação, e utilizá-los da melhor maneira possível. Acreditamos que o uso racional é mais benéfico do que a ausência destes elementos.

O povo Xukuru é guerreiro. São destemidos. Mesmo em meio a perdas irreparáveis, como no caso dos seis assassinatos decorrentes do processo dessa luta pela terra, permaneceram de cabeça erguida, firmes, em busca de seu espaço. Tudo o que conquistaram foi por intermédio de suas mobilizações, e se considerarmos o fato de que são seres humanos, estão sujeitos a erros e acertos. Não nos cabe julgar. Aliás, não temos nenhuma condição moral de julgarmos, nem os Xukuru nem povos indígenas quaisquer, uma vez que, até hoje, não abdicamos de nosso conforto e bem-estar, mesmo que isso represente mais poluição quando andamos de carro, várias etnias desalojadas pelo alagamento de suas terras para construção de hidrelétricas para que tenhamos banho quente no chuveiro elétrico e lâmpadas acesas a qualquer hora do dia, sem falar das sanduicheiras, torradeiras, cafeteiras, etc, etc, etc.

            Com a mesma força e autonomia com a qual conquistaram suas terras e o reconhecimento a sua afirmação étnica, saberão reconduzir a educação escolar infantil, que certamente contribuirá com o nascimento de uma nova geração de guerreiras e guerreiros da paz.

 

 

-    Sunamita Silva de Oliveira Albuquerque é graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú. Pós-graduanda em Psicopedagogia pela FACOL  e aluna do 3º período de Licenciatura em História pela UFRPE. Indigenista por opção e educadora há  mais de 10 anos. Assina os blogues: www.educarencantando.blogpot.com/ www.historiasaborigenes.blogspot.com

    Email: sunamitamagalialbuquerque@hotmail.com

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Tags: brasileiros, direitos, educação, escolar, indígena, respeito, índios

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