Dia das Mães; O menor esforço. Giuseppe Artidoro Guiaroni, Paraíba do Sul, RJ - 1919 - RJ, 2008

Já em idade avançada, limitado devido a quase cegueira provocada pela catarata que mesmo com cirurgia progrediu muito, uma certa tarde - conta um amigo, ele, caminhando a custo até ao táxi, convidou-o para ir ao centro do Rio “comer um delicioso bolinho de carne que tanto o poeta apreciava”. Na ocasião Guiaroni recitou “com seu vozeirão de locutor” um verso pequenino que disse serem os últimos versos de Fernando Pessoa, mas que o amigo refere haver pesquisado e não achou os versos na obra do poeta português

Ó velha hospedaria da aldeia do nada,
Estou com as malas prontas pra em breve partir,
Reserve-me um quarto em sua morada
Que tenha a janela para o sol voltada
E sombras em volta para eu dormir...

Giuseppe Artidoro Ghiaroni nasceu no município fluminense de Paraíba do Sul, do Rio de Janeiro, em 22 de fevereiro de 1919 e faleceu em 21 de fevereiro de 2008 no Rio de Janeiro, aos 89 anos de idade. Foi jornalista, locutor, produtor, tradutor, novelista e poeta brasileiro. Paraíba do Sul é o município pioneiro da Serra Fluminense, disseminadora de civilização no que se chamava no século XVIII “Sertão da Parahyba”. De família humilde, exerceu atividades de ferreiro, ajudante de cozinha, “office-boy” e caixeiro, passou a redator do “Suplemento Juvenil” de um jornal carioca, iniciando-se assim no jornalismo de onde passou para o rádio. Entrou para a Rádio Nacional em 1942, como tradutor, e já no ano seguinte estreou como novelista com “Um Raio de Luz”. Distinguiu-se como produtor e diretor do elenco de atores da Rádio Nacional do Rio de Janeiro no final dos anos 40, na Era de Ouro do Rádio. Foi produtor de programas humorísticos como “Tancredo e Trancado”, trabalhou na TV Tupi do Rio de Janeiro e para shows de Chico Anísio,  até perto de falecer. Com sua voz aveludada também declamou no rádio poemas belíssimos como "Monólogo das Mãos". (O poema Monólogo das Mãos é tradução e adaptação inspirada em um trabalho de Michel Eyquem de Montaigne (1533, Castelo de Montaigne, 1592), dito Montaigne, escritor e por certo tempo conselheiro da corte francesa. Em 1931 o dramaturgo e diretor brasileiro ODUVALDO VIANNA (São Paulo, 1892 – Rio de Janeiro, 1972) o inseriu em sua peça teatral “O Vendedor de Ilusões” para ser declamado por Procópio Ferreira); Ao Meu Pai; Dia das Mães; A Máquina de Escrever, muitos deles declamados no rádio, também por Paulo Gracindo. Deixou a peça radiofônica que adaptou da Bíblia Sagrada “A Vida Paixão e Morte de Jesus”, encenada pelo elenco da Rádio Nacional do Rio de Janeiro na antiga PRE-8 e que até hoje é levada ao ar das 12 às 13 horas em algumas emissoras de amplitude modulada – AM, por ocasião da Semana-Santa.


Em “Dia das Mães” conta em poesia o infinito aconchego do amor maior

Dia das Mães

Mãe! Eu volto a te ver na antiga sala
Onde uma noite te deixei sem fala
Dizendo adeus como quem vai morrer.
E me viste sumir pela neblina,
Porque a sina das mães é esta sina:
Amar, cuidar, criar, depois... Perder.

Perder o filho é como achar a morte.
Perder o filho quando, grande e forte,
Já podia ampará-la e compensá-la.
Mas nesse instante uma mulher bonita,
Sorrindo, o rouba; e a velha mãe aflita
Ainda se volta para abençoá-la.

Assim parti, e nos abençoaste.
Fui esquecer o bem que me ensinaste,
Fui para o mundo me deseducar.
E tu ficaste num silêncio frio,
Olhando o leito que eu deixei vazio,
Cantando uma cantiga de ninar.

Hoje volto coberto de poeira
E te encontro quietinha na cadeira,
A cabeça pendida sobre o peito.
Quero beijar-te a fronte, e não me atrevo.
Quero acordar-te, mas não sei se devo,
Não sinto que me caiba este direito.

O direito de dar-te este desgosto,
De te mostrar nas rugas do meu rosto
Toda miséria que me aconteceu.
E quando vires a expressão horrível
Da minha máscara irreconhecível,
Minha voz rouca murmurar: “Sou eu!”.

Eu bebi na taberna dos cretinos,
Eu brandi o punhal dos assassinos,
Eu andei pelo braço dos canalhas.
Eu fui jogral em todas as comédias,
Eu fui vilão em todas as tragédias,
Eu fui covarde em todas as batalhas.

Eu te esqueci: as mães são esquecidas.
Vivi a vida, vivi muitas vidas,
E só agora, quando chego ao fim,
Traído pela última esperança,
E só agora quando a dor me alcança
Lembro quem nunca se esqueceu de mim.

Não! Eu devo voltar, ser esquecido.
Mas que foi? De repente ouço um ruído;
A cadeira rangeu, é tarde agora!
Minha mãe se levanta abrindo os braços
E, me envolvendo num milhão de abraços,
Rendendo graças, diz: “Meu filho!”, e chora.
E chora e treme como fala e ri,
E parece que Deus entrou aqui,
Em vez de o último dos condenados.
E o seu pranto rolando em minha face
Quase é como se o céu me perdoasse,
Me limpasse de todos os pecados.

Mãe! Nos teus braços eu me transfiguro.
Lembro que fui criança, que fui puro.
Sim, tenho mãe! E esta ventura é tanta
Que eu compreendo o que significa:
O filho é pobre, mas a mãe é rica!
O filho é homem, mas a mãe é santa!

Santa que eu fiz envelhecer sofrendo,
Mas que me beija como agradecendo
Toda a dor que por mim lhe foi causada.
Dos mundos onde andei nada te trouxe,
Mas tu me olhas num olhar tão doce
Que, nada tendo, não te falta nada.

Dia das Mães! É o dia da bondade
Maior que todo o mal da humanidade
Purificada num amor fecundo.
Por mais que o homem seja um ser mesquinho,
Enquanto a Mãe cantar junto a um berçinho
Cantará a esperança para o mundo!


Sobre ofícios simples e a profissão que conheceu bem de perto e à qual junta o seu dom de poeta, fala em “O Menor Esforço”

Ferreiro e filho de ferreiro,
um dia visitei meu vizinho carpinteiro.
E ao ver quanto a madeira era macia
em relação ao ferro que eu batia,
deixei de ser ferreiro.
Tornei-me carpinteiro e, vendo o oleiro
modelando o seu barro molemente,
cobicei seu oficio de indolente
e larguei meu formão de carpinteiro.
Mas fui depois a casa do barbeiro,
que alisava uns cabelos de menina.
E achando aquela profissão mais fina,
deixei de ser oleiro.
Um dia, em minha casa de barbeiro
entrou um poeta de cabelo ao vento.
E ao ver quanto era livre e sobranceiro,
troquei minha navalha e meu dinheiro
por sua profissão de encantamento…


Do autor:

O Dia da Existência, 1941
A Graça de Deus, 1945
Canção do Vagabundo, 1948
A Máquina de Escrever, 1997


http://remixnews.com.br/mainghiaroni.htm

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Comentário de Anamaria Machado Guimarães em 31 maio 2013 às 15:57

Sem dúvida, Ghiaroni é de um talento incontestável, mas vale uma correção no que diz respeito à autoria do conhecido "Monólogo das Mãos". Ele foi escrito por Oduvaldo Vianna (pai)), em 1931, e faz parte de sua peça "O Vendedor de Ilusões", cujo protagonista era Procópio Ferreira, aplaudido em cena aberta quando o dizia, tal a sua magistral interpretação. Oduvaldo Vianna - e Abigail Maia, grande atriz do início do século XX - foram padrinhos de Bibi Ferreira, que continua a dizê - lo de forma tão magistral quando o seu pai, Procópio, um dos melhores atores que o Brasil já teve.

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