Delimitação do Tema (primeiro passo em uma pesquisa histórica)

 

A Delimitação do Tempo na pesquisa histórica

José D'Assunção Barros

Em um post anterior deste blog (http://ning.it/dUfMAw), procuramos mostrar as diversas partes específicas que habitualmente constituem um Projeto de Pesquisa. Cada capítulo de um Projeto,conforme dizíamos, procura responder a uma questão específica, ou sintetizar elementos relacionados a uma dimensão específica da pesquisa - por exemplo, a Teoria, a Metodologia, as Hipóteses, a Revisão da Literatura Existente sobre o Tema, a Justificativa do Projeto, e assim por diante.

 

Uma das mais importantes partes de um projeto de pesquisa, a qual geralmente se situa logo no princípio do projeto, é o capítulo denominado ‘Delimitação Temática’ (1) ou ‘Exposição do Problema’ (vimos que estes nomes variam muito, de instituição a instituição, e não devem ser tomados como parâmetros absolutos). Este capítulo procura responder a uma pergunta: "Sobre o que é a Pesquisa?" (ou seja: "qual o tema da pesquisa", "qual o objeto, o problema examinado?"). Veremos mais adiante que a resposta a esta pergunta deve sofrer sucessivas delimitações, bem como integrar recortes simultâneos que podem remeter a um tempo, a um lugar, a um problema investigado.

 

Na verdade, o gesto de "delimitar o tema" não corresponde apenas à primeira parte a ser formalizada em um projeto de pesquisa. Podemos dizer que delimitar o tema é mesmo o primeiro passo a ser dado para o estabelecimento de uma pesquisa histórica. Comecemos por clarificar o que é um "tema" aceitável para uma pesquisa histórica de natureza monográfica.

 

 

 

Delimitar o Tema.

 

 

No seu sentido mais lato, “tema” (ver a definição da palavra no Glossário do livro "O Projeto de Pesquisa em História")* é um assunto qualquer que se pretende desenvolver. Quando se propõe que alguém escreva um texto escolar desenvolvendo o tema da “violência urbana”, espera-se que sejam abordados ou desdobrados alguns aspectos pertinentes a este tema. Depois de apresentar ao leitor o tema que pretende desenvolver, o autor pode começar nos sucessivos parágrafos a discutir aspectos específicos e diversificados que se desdobram deste tema, como “as causas sociais da violência urbana”, “as formas de prevenção ou de combate à violência urbana”, “a relação entre violência urbana e criminalidade”, e tantos outros.

 

Conforme veremos, “a violência urbana” pode ser um excelente tema para uma redação escolar, para um artigo de jornal, ou mesmo para um livro de divulgação junto ao grande público, mas não é um bom tema para uma monografia, para dissertação de mestrado ou para uma tese de doutorado. Espera-se, de um trabalho acadêmico de tipo monográfico, ou em modelo de tese, que o tema tenha mais especificidade. Pode-se por exemplo tomar como tema monográfico “A violência urbana no Rio de Janeiro dos anos 90”, ou, mais especificamente ainda, “A interconexão entre a violência urbana e o tráfico de drogas no Rio de Janeiro dos anos 90”. Ou, quem sabe, “Os discursos sobre a violência urbana nos jornais populares do Rio de Janeiro dos anos 90”. Pode-se dizer que, pelo menos no sentido acadêmico, “violência urbana” é apenas um ‘assunto’ um tanto vago, mas os temas acima propostos sim, seriam temas monográficos dotados de maior especificidade.

 

Uma “História da América”, por exemplo, está muito longe de ser um tema. É quando muito um ‘campo de estudos’ ou de interesses. A “Conquista da América” é mais específico, mas tampouco é ainda um tema. Na verdade é um ‘assunto’ que pode dar posteriormente origem a um tema mais delimitado, mas para isto terá de sofrer novos recortes. Pode-se estudar por exemplo “a alteridade entre espanhóis e nativos meso-americanos durante a Conquista da América, nas primeiras décadas do século XVI”. Este foi o tema escolhido por Todorov em uma de suas mais célebres obras. Nele já aparecem recortes ou dimensões mais específicos:  (1) um espaço mais delineado que é a região central do continente americano; (2) um recorte de tempo que se refere às primeiras décadas do século XVI; (3) um problema que é o da “alteridade” (ou do ‘choque cultural’ entre aquelas duas civilizações distintas).

 

Em História, é fundamental que o tema de pesquisa apresente um recorte espacial e temporal muito preciso. Isto corresponde a focar um assunto ainda geral em um “campo de observação” mais circunscrito. Assim, não se estuda em uma tese de doutorado “o Islamismo”, embora este seja um excelente tema para um livro de divulgação visando o grande público. Pode-se começar por recortar este assunto extremamente vasto propondo-se uma pesquisa sobre o “Islamismo fundamentalista no Afeganistão do final do século XX”. Neste caso, já temos um recorte espacial (o Afeganistão) e um recorte temporal (final do século XX). Poder-se-ia recortar mais ainda o tema, impondo-lhe um campo problemático inicial como “as restrições à educação feminina no Islamismo fundamentalista do Afeganistão do final do século XX”. O ‘problema’* é este ‘recorte final’ – esta questão mais específica que ilumina um tema delimitando-o de maneira singular, e que traz em si uma indagação fundamental a ser percorrida pelo historiador.

 

Conforme já ressaltamos anteriormente, a historiografia de hoje exige temas problematizados, sobretudo nos meios acadêmicos. Seriam bons temas para a “História-Problema” de a partir do século XX recortes como ... “a alteridade entre espanhóis e nativos meso-americanos nas primeiras décadas da Conquista da América”, “as restrições à educação feminina no Islamismo Afegão de fins do século XX”, “a dessacralização do poder público durante a Revolução Francesa” (e não simplesmente “A Conquista da América”, “O Islamismo Afegão” ou “A Revolução Francesa”).

 

Ainda mais especificamente, pode-se dizer que um “problema de pesquisa” corresponde a uma questão ou a uma dificuldade que está potencialmente inscrita dentro de um tema já delimitado (resolver esta questão ou esta dificuldade é precisamente a finalidade maior da pesquisa). O “problema” tem geralmente um sentido interrogativo. Retomando-se o tema da “Alteridade na Conquista da América”, poderíamos dele extrair a seguinte indagação: “O Choque Cultural foi vivenciado de formas distintas por conquistadores espanhóis e por conquistados meso-americanos? Ou, ainda, “qual a contribuição do Choque Cultural para a implementação de uma conquista espanhola da Meso-América tão rápida e com um número tão reduzido de homens?”.

 

Dentro do tema do “Islamismo Afegão”, poderíamos por exemplo destacar o seguinte problema em forma de indagação: “quais as funções sócio-políticas que motivaram a restrição à educação feminina no Islamismo Afegão do final do século XX”? Ou, ainda, “que estratégias de resistência foram desenvolvidas pelas mulheres afegãs diante das restrições à educação impostas pelo Islamismo talibã no final do século XX”?

 

Note-se ainda que um problema não precisa estar necessariamente escrito sob a forma interrogativa. O seu sentido é que precisa ser interrogativo. Assim, se declaro que o meu problema corresponde às “funções sócio-políticas que teriam motivado a restrição à educação feminina no Islamismo Afegão do final do século XX”, já está embutida aí uma indagação, mesmo que eu a apresente camuflada sob uma forma redacional declarativa.

 

A incorporação de uma problemática é fundamental para a História hoje que se escreve nos meios acadêmicos e no âmbito da prática historiográfica profissional. Qualquer gênero historiográfico – da história das civilizações à biografia – pode ser percorrido a partir de um problema.

 

O tema por outro lado, não precisa ser atravessado por um problema único. Ele pode ser perpassado por um “campo de problemas” ou por uma problemática que se desdobra em duas ou três indagações mais específicas. Se proponho, sem uma maior especificação, uma tese sobre “a repressão à educação feminina no Islamismo Afegão do final do século XX’, abro um claro espaço para alguns problemas interligados. Nenhuma repressão é gratuita. Freqüentemente ela tem bases políticas, econômicas, imaginárias, religiosas ou consuetudinárias. Assim, uma primeira questão, ou um primeiro problema que se cola a este tema, refere-se precisamente às motivações sociais que produziram o fenômeno da repressão à educação feminina no Afeganistão. Por outro lado, nenhuma repressão existe sem gerar alguma forma de resistência. Estudar a repressão à educação feminina é indagar também pelas formas de resistência que as mulheres afegãs desenvolveram em relação a esta prática no período considerado. Tem-se aí um segundo problema, que pode ser examinado em contraponto ao primeiro. Outro problema implícito poderia se referir ao caráter processual deste fenômeno. Porque ele eclode no final do século XX? Qual a história deste padrão repressivo?

 

O tema proposto, como se vê, abre-se não só a um único problema, mas a um campo de problemas que possivelmente apresentam uma interligação a ser decifrada pelo próprio pesquisador.

 

 

Sintetizando o que vimos até aqui, pode-se dizer que um tema bem delimitado de pesquisa histórica deve trazer muito claramente a definição de três dimensões fundamentais: o recorte espacial (um lugar), o recorte temporal, e o problema (Quadro 3 do livro "O Projeto de Pesquisa em História"). Estas três dimensões devem aparecer adequadamente explicitadas no capítulo “Delimitação Temática” do Projeto de Pesquisa (ou, se este capítulo não está previsto, na própria “Introdução” do Projeto). Além de serem dimensões necessárias para delimitar mais adequadamente o tema, produzindo um verdadeiro “recorte temático”, são estas dimensões que tornarão a pesquisa efetivamente viável. Não posso estudar todos os países muçulmanos do final do século XX (ausência de recorte espacial mais circunscrito), nem o Afeganistão em todas as épocas históricas (ausência de recorte temporal), nem todos os problemas presentes no Islamismo Afegão do final do século XX (ausência de um problema singularizado). Cada um destes três recortes ou dimensões de recortes (espaço, tempo e problema) significa dar um passo adiante na conquista da viabilidade para a realização da pesquisa histórica proposta. Significa também um passo adiante no processo de vencer a dispersão temática e encontrar uma concentração temática bem definida. Sobre este tripé repousa um tema bem delimitado, pelo menos no que se refere aos domínios da Ciência Histórica e mais especificamente dos textos monográficos de História.

 

 

Recorte Espaço-Temporal

 

Uma delimitação adequada do período histórico que será examinado é, naturalmente, questão de primeira ordem para qualquer historiador. A escolha de um recorte qualquer de tempo historiográfico não deve, por outro lado, ser gratuita. É inútil escolher, por exemplo, “os dez últimos anos do Brasil Império”, ou “os cem primeiros anos do Egito Antigo”. A escolha de um recorte temporal historiográfico não deve corresponder a um número propositadamente redondo (dez, cem, ou mil), mas sim a um problema a ser examinado ou a uma temática que será estudada.

 

 

É o problema que define o recorte, e não qualquer coisa como uma dezena de anos escolhida a partir de critérios comemorativos. Tampouco tem sentido deixar que uma tese em História mostre-se aprisionada pelos recortes meramente governamentais. Pode ser que um recorte relativo ao “Brasil  dos anos JK” não corresponda aos limites exatos do problema que se pretende examinar. O mesmo ocorre com a questão do recorte espacial. Pode ser não tenha sentido para um determinado problema histórico escolhido atrelar o seu espaço a uma determinada unidade estatal administrativa (um país, um estado, uma cidade). Uma proposição temática, conforme veremos, vaza freqüentemente as molduras do tempo estatal-institucional ou dos recortes administrativos. Um tema pode muito bem atravessar dois governos politicamente diferenciados, situar-se atravessado entre duas regiões administrativas, insistir em escorregar para fora da quadratura institucional em que o historiador desejaria vê-lo encerrado.

 

 

Trata-se no entanto de uma tendência contra a qual é preciso pôr-se alerta. Por vezes, a mentalidade historiadora é levada automaticamente a fazer suas escolhas dentro dos limites governamentais-administrativos, quase que por um vício corporativo. Cedo o historiador de formação acadêmica vê-se habituado a recortar o seu objeto em consonância com imagens congeladas como a do ‘espaço nacional’ ou do ‘tempo dinástico’: o “Portugal durante o reinado de Dom Dinis”, a “França de Luís XIV”, o “Egito de Ramsés II” – pede-se ao pesquisador um problema que se encaixe dentro de limites como estes. Esta imagem de espaço-tempo duplamente limitada pelos parâmetros nacionais e pela duração de governostalvez uma herança ou um resíduo de herança da velha História Política que dominava explicitamente o século XIX e que ainda insiste em dominar implicitamente boa parte da produção historiográfica do século XX estende-se de resto para a História que almeja também o circuito extra-acadêmico.

 

 

É sempre possível, tal como se disse, que o problema a ser investigado requeira um recorte que comece na metade de um governo e se estenda para a primeira metade do governo seguinte, ou que faça mais sentido abarcando dois países do que um único, ou ainda duas regiões pertencentes a dois países distintos. A delimitação de uma região a ser estudada pelo historiador não coincide necessariamente com um recorte administrativo ou estatal: pode ser definida por implicações culturais, antropológicas, econômicas, ou outras. Um grupo humano a ser examinado não estará necessariamente enquadrado dentro dos parâmetros de um Estado-Nação. Um padrão de mentalidade que se modifica pode corresponder a um enquadramento que abranja duas pequenas regiões pertencentes a duas realidades estatais distintas, ou corresponder a uma vasta realidade populacional que atravessa países e etnias distintas, que se interpõe entre duas faixas civilizacionais, e assim por diante.

 

 

Fica portanto este alerta. Não adianta partir do pressuposto de que os melhores recortes coincidem necessariamente com um governo, um país, uma cidade quando muitas vezes o objeto construído desejaria romper de diversas maneiras estas muralhas artificiais que insistem em contê-lo, em aparar suas arestas e ângulos agudos, ou em mantê-lo sólido quando ele se quer fluido.

 

 

Questões similares também podem ser encontradas nas teses que tomam por objeto a obra de um determinado autor ou artista. Tem pouco valor como história problematizada a escolha de um recorte como “A obra de Machado de Assis” ou “A produção iconográfica de Jean-Baptiste Debret”. Pode-se dar por exemplo que a produção destes autores passe por fases distintas, ou que intercale materiais bem diferenciados do ponto de vista de uma problematização possível. Fazer um levantamento integral da obra de Machado de Assis pode ter sentido em uma tese de literatura. Em História, um recorte que abranja fases heterogêneas só terá sentido se fizer parte do problema verificar como estas fases se relacionam a momentos político-sociais distintos, ou se fizer parte do problema comparar duas fases contrastantes de um autor na sua articulação a singularidades históricas específicas.

 

 

Do mesmo modo, a uma tese sobre “a pintura de Debret nos tempos de D. João VI muito vaga e dando a impressão de que se toma para objeto uma questão comemorativa mais apropriada para um catálogodeve-se preferir algo mais problematizado, como, “a  representação  da  sociedade brasileira nas litografias de Debret (Brasil, 1816-1831)”. Ao invés de tomar para objeto, toda a obra plástica deste pintor francês que aqui esteve na primeira metade do século XIX, recortou-se um problema referente à captação dos tipos sociais brasileiros pelo olhar europeu de um pintor-viajante (Debret). Também se evitou o bem-arrumado ‘recorte político-governamental’, associado à chegada e à partida de D. João VI, e permitiu-se que o recorte traspassasse dois períodos diferenciados que se relacionam à fase do Vice-Reino e aos primeiros anos do Império (1816-1831). O problema escolhido, a ‘representação dos tipos sociais por um pintor francês no Brasil do século XIX’, sendo da ordem cultural ou mesmo da esfera da antropologia política, não teria porque prestar contas a uma cronologia institucional ou estatal, típica da história política tradicional.

 

 

Pode-se dar também que o mais interessante seja não necessariamente se limitar a Debret, mas sim proporcionar uma comparação das estratégias de ‘representação social’ utilizadas por este pintor francês com as estratégias utilizadas por um seu contemporâneo de origem similar, para verificar a partir daí se existem pontos em comum que habilitem a falar em um “olhar europeu” dos pintores-viajantes sobre o Brasil Colonial ou se, ao contrário, verificam-se experiências inteiramente subjetivas. Deste modo, comparar Debret e Taunay, dois pintores que estiveram no Brasil da época de D. João VI como participantes de uma mesma missão artística, pode-se constituir em um problema histórico tão ou mais interessante do que uma investigação em torno da produção restrita a um só destes pintores[1].

 

 

Os exemplos relativos a decisões sobre o recorte de tempo poderiam se estender ao infinito, uma vez que um mesmo tema pode se abrir a inúmeras problematizações possíveis, sendo que cada uma destas problematizações irá conduzir a um recorte ou outro que lhe seja mais adequado. Posto isto, pensar os limites de um recorte em termos de viabilidade para a pesquisa e de adequação ao problema é sempre a postura mais equilibrada.

 

 

A mesma necessidade de problematização historiográfica  poderia ser abordada com relação ao ‘espaço’ construído pelo historiador. Deve ser um espaço problematizado, e não um espaço nacional ou comemorativo. Para dar um exemplo clássico, convém lembrar a obra prima de Fernando Braudel O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe IIque de resto é também uma obra revolucionária no que concerne ao tratamento do tempo, já que introduz pela primeira vez a questão da articulação de durações distintas no tempo histórico trabalhado pelo pesquisador[2]. A demarcação do objeto de pesquisa nesta obra extraordinária nada deve a critérios nacionais, mas sim à construção historiográfica de uma área “econômico-social-demográfica-cultural”, que Braudel chamou de “mundo mediterrâneo”[3].

 

 

O objetivo de Fernando Braudel no primeiro volume desta obra foi construir historiograficamente o mundo mediterrâneo do século XVI como uma unidade geo-histórica, embora percorrida por dualidades diversas que se referem às oposições religiosas (cristãos / muçulmanos), aos contrastes geográficos (deserto / mar; montanha / planície), sem falar na multiplicidade de realidades nacionais que se estabelecem sobre este espaço. A este recorte espacial ampliado aplica-se neste primeiro volume o “tempo longo”, duração onde se tornam visíveis as permanências, os aspectos estruturais, as mudanças mais lentas que à distância oferecem a impressão de uma história quase imóvel relativamente às interações entre o homem e a natureza. Os três volumes de O Mediterrâneo constituem uma verdadeira revolução historiográfica no tratamento simultâneo do tempo e do espaço, e oferecem excelente exemplo das novas possibilidades de recortar o tempo histórico trazidas pela historiografia do século XX.

 

 

É verdade que, em se tratando das pesquisas de Mestrado e Doutorado nos dias de hoje  e mais especificamente ainda em nosso paísnão é possível optar por um recorte e por um projeto de pesquisa tão ambicioso como aqueles realizados por Braudel em suas três obras monumentais, todas elas divididas em três volumes (“O Mediterrâneo ...”; “A Civilização Material do Capitalismo”[4]; “A Identidade da França”[5]). Estas obras consumiram muitos e muitos anos de trabalho. “O Mediterrâneo”, por exemplo, requereu duas décadas de envolvimentojá que Braudel opta pelo tema em 1923, elabora as suas grandes linhas até 1939, e aprofunda-as durante o período de seu aprisionamento em um campo de concentração nazista. “A Civilização Material” consome um período de envolvimento que vai de 1952 (data do convite de Lucien Febvre para que Braudel escrevesse um volume sobre a dimensão econômico-material da Europa pré-industrial) até 1979 (data da publicação da trilogia).

 

 

Pode-se citar um exemplo mais extremo de tese monumental com a Tese de Pierre Chaunu sobre “Sevilha e o Atlântico”, que foi constituída em dez volumes e dos quais os volumes relativos à parte interpretativa possuem mais de três mil páginas. Foi possivelmente a tese mais longa já escrita. Ampla no recorte temporal (um século e meio), vasta no espaço abordado (o Atlântico), extensiva e intensiva na exploração da série documental (toda a documentação produzida pela ‘Casa de Contratação de Sevilha’ entre 1504 e 1650) ... esta tese mostra-se por fim pródiga na apresentação final de seus resultados (7 volumes descritivos e três interpretativos). O trabalho de Pierre Chaunu ficará marcado definitivamente como um clássico da historiografia monumental que se tornou possível em meados do século XX[6].

 Exemplos como este, contudo, estão obviamente distanciados de nossa realidade mais direta.

 

Uma tese acadêmica, no Brasil, deve ser escrita em torno de dois anos e meio para o caso das pesquisas de Mestrado, e em torno de quatro anos para o caso das pesquisas de Doutorado. Além disto, o pesquisador nem sempre conta com alguma ajuda de custo, e quase sempre precisa exercer diversas atividades profissionais regulares durante a elaboração de seu trabalho. Seu tempo é literalmente dividido, e o pesquisador tem de se render resignadamente a esta constatação. Impõe-se aqui, enfaticamente, o critério da viabilidade, que deve interagir dialeticamente com os interesses do pesquisador e da Instituição. Os projetos mais ambiciosos devem ceder lugar às propostas mais exeqüíveis, e é preciso neste momento lidar com a perda: abandonar (ou adiar) a utopia do conhecimento que desejaríamos produzir em favor da concretude do conhecimento que pode ser efetivamente produzido. Os recortes, agora menos por razões científicas do que por razões práticas, novamente se impõem ...

 

______________________________________________________________________________________

 

O texto aqui apresentado foi extraído do livro "O Projeto de Pesquisa em História" [BARROS, José D'Assunção. O Projeto de Pesquisa em História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011. 7a edição] http://ning.it/dNiBrW

 ...

 

Para um artigo sobre "Projeto de Pesquisa", leia: http://ning.it/hiOVFx [BARROS, José D'Assunção. “Projeto de Pesquisa - suas funções e partes constitutivas” in Liberato – Revista da Escola Técnica de Novo Hamburgo, n°11, 2008, p.67-75]

 

*Quem se interessar em receber dois capítulos do livro "O Projeto de Pesquisa em História", para conhecer a obra, peça pelo e-mail: jose.d.assun@globomail.com

 

 

 


Notas:

 

 

[1] Monike Garcia Ribeiro. A  paisagem  artística  no  Brasil como   uma   questão   estratégica   da   memória – o olhar de dois pintores da missão artística francesa : Jean Baptiste  Debret  e  Nicolas Antoine Taunay. Rio de Janeiro: UNI-RIO, 1999.

[2] Fernando BRAUDEL, O mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II. São Paulo: Martins Fontes, 1984. 2 vol.

[3] José Carlos REIS. Nouvelle Histoire e Tempo Histórico. São Paulo: Ática, 1994. p.74

[4] Fernando BRAUDEL, Civilização Material, Economia e Capitalismo, São Paulo: Martins Fontes, 1997. 3 vol.

[5] Fernando BRAUDEL, L’identité de la France, Paris: Flamarion, 1986. 3 vol.

[6] Pierre e Huguette CHAUNU, Séville et l’Atlantique. Paris: SEVPEN, 1955-1956. Os primeiros seis volumes de “Sevilha e o Atlântico”, escritos em colaboração com Huguette Chaunu, correspondem à “Parte Estatística”, e são acrescidos de um Atlas (“Construction graphique”, vol. 7, 1957). A “Parte Interpretativa”, constituída por mais três volumes que foram pelos autores numerados como VIII1, VIII2, e VIII3, correspondem à Tese de Pierre Chaunu propriamente dita. Esta obra inovadora e monumental introduz na historiografia o campo da História Serial, e os sete primeiros volumes correspondem precisamente à montagem desta “série” que reconstitui o tráfico entre Sevilha e a América entre 1504 e 1650. A “Parte Interpretativa” é pioneira ainda ao introduzir na historiografia a oposição conceitual “estrutura / conjuntura”. O próprio Fernando Braudel desenvolve comentários críticos à obra de Chaunu em “Para uma História Serial: Sevilha e o Atlântico (1504-1650)” (Escritos sobre a História. São Paulo: Perspectiva, 1978. p.125-142).

 

 

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Tags: Delimitação, Metodologia, Pesquisa, Projeto, Tema

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