Instrução e Conselho Para a Jovem Noiva
Sobre a conduta e procedimentos nas relações pessoais e íntimas no estado de Matrimônio para a maior santidade espiritual deste abençoado Sacramento e para a Glória de Deus.
Ruth Smythers
Amada esposa do Reverendo L.D. Smythers, Pastor da Igreja Metodista Arcadiana da Conferência Regional do Leste.
(Publicado no ano do Senhor de 1894, na Cidade de New York)
Para a jovem sensível que teve os benefícios de uma criação apropriada, o dia das bodas é, ironicamente, tanto o mais feliz quanto o mais terrível dia de sua vida. No lado positivo, há o casamento em si, no qual a noiva é a atração central, numa cerimônia bela e inspiradora, simbolizando o triunfo em assegurar um homem que proverá necessidades dela pelo resto de sua vida natural. Do lado negativo, há a noite de núpcias, durante a qual a noiva pagará o tributo, por assim dizer, encarando pela primeira vez a terrível experiência do sexo. Neste ponto, cara leitora, permita-me situar uma chocante verdade. Algumas mulheres, de fato antecipam o sofrimento da noite de núpcias com curiosidade e prazer. Cuidado com tal atitude! Um marido egoísta e sensual pode facilmente tirar vantagens de tal noiva. Uma regra cardinal do casamento não deve ser jamais esquecida. Dê-se pouco, dê-se raramente, e sobretudo, dê-se relutantemente. Em outro caso, o que poderia ser um casamento apropriado pode tornar-se uma orgia de luxúria sensual. Por outro lado, o terror da noiva não precisa ser extremo. Embora sexo seja no mínimo revoltante e no máximo doloroso, deve ser encarado, e o tem sido desde o início dos tempos, e é compensado pelo lar monógamo e pelas crianças produzidas a partir dele. É inútil, na maioria dos casos, que a noiva se imponha ao parceiro no encaminhamento da iniciação sexual. Embora o marido ideal devesse ser o que se aproxima da esposa apenas a um sinal desta e apenas para propósitos de obter filhos, tal nobreza e pouco egoísmo não pode ser esperada do homem médio. A maior parte dos homens, se não lhes for negado, buscará o sexo quase todo dia. A noiva sábia permitirá no máximo duas breves experiências sexuais semanalmente durante os primeiros meses do casamento. À medida em que o tempo passa, ela deve fazer todo o esforço para reduzir essa freqüência. Adoecimentos fingidos, sonolências e dores de cabeça estão entre os melhores amigos da esposa neste assunto. Argumentos, resmungos, críticas e querelas também se provam muito eficientes, se usados no fim da tarde cerca de uma hora antes do momento em que o marido usualmente começa a sedução. Esposas espertas estão sempre atentas para métodos novos e melhores de negar e desencorajar os ímpetos amorosos do marido. Uma boa esposa deve esperar ter reduzido os contatos sexuais para uma vez por semana ao final do primeiro ano de casamento e para uma vez ao mês no final do quinto. No décimo aniversário muitas esposas conseguiram completar a geração de filhos e alcançaram o objetivo maior de terminar todos os contatos sexuais com o marido. Nesta época elas podem apoiar-se no amor pelas crianças e nas pressões sociais para manter o marido dentro de casa. Ao mesmo tempo em que ela deve estar alerta para manter a quantidade de sexo tão baixa quanto possível, a noiva sábia prestará igual atenção para limitar o tipo e o grau dos contatos sexuais. Os homens são, na maioria e por sua própria natureza, bastante pervertidos, e se lhes for dada uma chance, envolver-se-ão numa ampla variedade das mais revoltantes práticas. Essas incluem, entre outras, executar o ato sexual normal em posições anormais, pôr a boca no corpo da mulher e oferecer seu próprio corpo vil para que ela ponha a boca. Nudez, conversas sobre sexo, ver fotografias e desenhos expondo ou sugerindo sexo são outros hábitos repulsivos que um homem poderá adquirir se lhe for permitido. Uma esposa sábia tomará como objetivo nunca permitir que o marido lhe veja o corpo despido, e nunca permitirá que ele mostre a ela o corpo nu. Sexo, quando não puder ser evitado, deve ocorrer em total escuridão. Muitas mulheres acham útil ter para elas grossas camisolas de algodão e pijamas para os maridos. Essas peças devem ser trocadas em quartos separados, e não precisam ser removidas durante o ato sexual. Assim um mínimo de carne ficará exposta. Uma vez que a esposa tenha vestido a camisola e apagado todas as luzes, ela deve deitar-se quieta ao longo da cama e aguardar o marido. Quando ele vier, tateando, para o quarto, ela não deve fazer nenhum som que o oriente na direção dela, do contrário ele pode tomar isso como sinal de encorajamento. Ela deve deixá-lo tatear no escuro. Há sempre a possibilidade de que ele tropece e provoque algum pequeno machucado, que ela pode usar como desculpa para negar-lhe o acesso sexual. Quando ele a encontrar, a esposa deve permanecer tão imóvel quanto possível. Movimentos corporais por parte dela podem ser interpretados como excitação sexual pelo marido otimista. Se ele tentar beijá-la nos lábios ela deve voltar a cabeça levemente, de modo que o beijo caia inocentemente nas faces. Se ele tentar beijar-lhe a mão, ela deve fechar o punho. Se ele tentar levantar a camisola e beijá-la em outra parte qualquer, ela deve rapidamente recolocar a camisola no lugar, levantar-se da cama, e anunciar que a natureza a chama ao banheiro. Isso geralmente liquida o desejo de beijar em territórios proibidos. Se o marido tenta seduzí-la com conversas lascivas, a esposa sábia subitamente lembrará algumas questões triviais, não sexuais, para perguntar a ele. Uma vez que ele responda, ela deve manter a conversação, não importa quão frívola possa parecer no momento. Eventualmente o esposo aprenderá que se insistir em ter contato sexual, ele terá que prosseguir com envolvimento amoroso. A esposa sábia deixará que ele levante a camisola apenas até a cintura, e só lhe permitirá abrir a frente do pijama para manter e fazer contato. Ela ficará absolutamente silenciosa ou balbuciará sobre as tarefas de casa enquanto ele a abraça e arqueja. Sobretudo, ela se manterá perfeitamente imóvel e nunca, sob quaisquer circunstâncias dará grunhidos ou gemidos enquanto o ato está em curso. Tão logo o marido complete o ato, a esposa sábia começará a admoestá-lo sobre várias pequenas tarefas que ela quer que ele faça no dia seguinte. Muitos homens obtém a maior porção de seu prazer sexual da exaustão pacífica imediatamente posterior ao término do ato. Assim a esposa deve assegurar que não haja paz nesse período que ele possa desfrutar. Em caso contrário, ele pode sentir-se encorajado a tentar novamente em breve. Um fator crucial pelo qual a esposa deve ser grata, é o fato de que a casa, a escola, a igreja e o meio social do marido trabalharam juntos, por toda a vida, para incutir-lhe um profundo sentido de culpa quanto aos sentimentos sexuais, de tal modo que ele vem para o leito nupcial, desculposamente e envergonhado, já intimidado e diminuído. A esposa sábia se prevalece dessa vantagem e incansavelmente persegue seu objetivo de em princípio reduzir e depois aniquilar completamente os desejos de consumação sexual do marido.
Referências
Smythers Ruth, "Instructions and Advice for the Young Bride". Spiritual Guidance Press. New York, 1894.
Tradução: Araguari Chalar da Silva, Doutor em Sexologia.
Ilustração: Darcílio Lima - Legiões Quadro de Darcílio Lima, natural de Cascavel, no Ceará.
A fase Legiões é dos Anos 60-70. Nesta fase, o autor abordou a repressão sexual a partir do método surrealista com base na Demonologia Medieval e na posição da Igreja Católica de Roma. A tortura física e psicológica andam de mãos dadas no quadro. Surgiu no final dos anos 60, ganhou Prêmio de Viagem ao Exterior nos 70 (o governo brasileiro patrocina a estadia do laureado durante 2 anos em qualquer país de sua escolha). Resultado, conquistou a burguesia européia e faturou muita grana em moeda forte. Nos eventos a que foi convidado, limitava-se a comer e a beber para não falar, pois nada tinha a dizer àquela gente. Sua atitude era percebida como charme de artista. Darcílio foi a maior expressão do Surrealismo tardio e morreu inteiramente louco, regredido à condição de cachorro. Andava de quatro e só comia em "pratos" de cachorro. Muito triste. Foi, sem dúvida, o maior talento do Surrealismo tardio no mundo.
Wladimir Gomide
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Coerentes com a proposta de divulgar textos que possibilitem o conhecimento e a discussão da Sexualidade Humana, apresentamos agora dois documentos inspirados dos séculos XIII e XIV.
Autoria dos medievalistas Prof. Dr. Ricardo da Costa e Profa. Dra. Nayhara Sepulcri, ambos da UFES.
Trata-se de “A donzela que não podia ouvir falar de foder” e “Da mulher a quem arrancaram os colhões”: dois fabliaux e as questões do corpo e da condição feminina na Idade Média (sécs. XIII-XIV).
http://www.ricardocosta.com/pub/fabliaux.htm
Comentário de Thiers Rimbaud em 20 março 2012 às 12:29 Deixo aqui minha contribuição referente ao questionamento feito por Wladimir
"..Percebo agora quão oportuno trazer à luz textos que possibilitem o conhecimento e a discussão da Sexualidade Humana, reprimida ao longo de séculos de "sifilização judaico-cristã".
É também uma homenagem póstuma ao meu querido amigo de primeira hora nas hostes Psi, Araguari Chalar da Silva, quando ainda não sabíamos que nossos caminhos - apesar das diferenças de abordagem que nos separavam - se cruzariam e se entrelaçariam definitivamente."
..................- EU /TU /ELES
........................- GLORIA A DEUS
........................- HOJE
Termos que li no trabalho de Darcilio Lima, seguido das figuras
quase monstros, cobertas de esperma.
Apesar do falus receber uma coroa como se reinasse, o sexo não é livre, ele está acorrentado e perfurado. Sobre a mulher cruzes e mantos religiosos, além das correntes ( estamos acorrentados). A que estamos acorrentados? Segundo o texto transcrito por Wladimir, estamos acorrentados a uma formação de séculos.
O magnífico bico de pena do autor, praticamente desconhecido (pelo menos no Brasil), nunca vi na internet qualquer comentário sobre o ele(eu pesquisei). Quem dele me falou foi minha amiga Michèle Sato e Ivy, agora tenho o prazer de conhecer o trabalho através do companheiro Wladimir. Penso comigo mesmo sobre a questão surreal que o autor tentou imprimir no desenho. Vejo sofrimento o tempo todo em todas as frases.
>
Para mim, isso explica que até hoje reina a miséria relacionada ao sexo, como pecado.
Leio então o texto que Wladimir traz.
Apesar de escrito em 1894, existe uma relação com o presente e percebo esta relação atrelada a atualidade. Penso na miséria humana.
Claro que os tempos mudaram. “ o sexu” é “livre”. Contudo a aparência reina, aparentemente, tudo é permitido, aparentemente a mulher tem o direito de exercer sua sexualidade, pero “acorrentada”.
Nisso decido procurar algo nas ruas virtuais, nos livros e em meu ppio conhecimento.
Boa parte da humanidade continua com o raciocínio preso ao século XXI, tempo em os preconceitos, tabus e receios rendia excelentes discursos como o do texto.
Falar de sexualidade remete ao ato sexual ou à genitália. Sabemos que a sexualidade vai mto além. A sexualidade é uma energia que impulsiona e nos motiva a encontrar intimidade, ternura e prazer. Tríade necessária ao crescimento humano.
Comentário de Thiers Rimbaud em 20 março 2012 às 12:28 ....Encontrei na internet este trecho e creio que ele diz muito
>>>
"Ser um homem feminino
Não fere o meu lado masculino
Se Deus é menina ou menino
Sou masculino e feminino
Olhei tudo e aprendi
E um belo dia eu vi
Que ser um homem feminino
Não fere o meu lado masculino
Se Deus é menina ou menino
Sou masculino e feminino
Olhei tudo e aprendi
E um belo dia eu vi
E vem de lá o meu sentimento de ser
Meu coração mensageiro vem me dizer
Salve, salve a alegria
A pureza e a fantasia
Vou assim todo o tempo
Vivendo e aprendendo"
(Baby Consuelo, Didi Gomes e Pepeu Gomes)
Pensar a sexualidade humana a partir da leitura dessa canção possibilita, em meu entender, refletir sobre a dicotomia constantemente apresentada ao ser humano - ser masculino ou ser feminino - e que lhe exige uma opção muito antes mesmo de ele poder se perceber e sentir. Essa imposição, em muitos casos, impossibilita a vivência da alegria, da pureza e da fantasia que podem (ou poderiam?) caracterizar nossa aprendizagem do que significa ser masculino/ser feminino impedindo, conseqüentemente, a vivência da complementaridade que tais características ofereceriam, principalmente, ao considerarmos a possibilidade de ser um homem feminino sem com isso ferir o lado masculino.
A serviço de que dicotomias dessa natureza têm se perpetuado entre os indivíduos? Será esta uma proposta de debate pertinente? Será adequado refletir sobre as questões latentes no contexto cultural e, nessa direção, nos depararmos com dificuldades tanto na manutenção de comportamentos esperados para homens e mulheres como com as dificuldades decorrentes das tentativas de mudanças de postura destes? Minha proposta, nesse momento, é de refletir sobre a subjetividade existente na sexualidade humana.
Rosângela de Sant´Anna Dall´Agnol
Segundo Foucault a sexualidade da qual falamos hoje, apesar de sua aparência de consistência, é uma invenção moderna. (...) é o resultado (...) dos discursos sábios (psicanalíticos médicos, psicológicos) (...) e das regras e imperativos dos poderes que estabelecem (religioso, judicial, médico, pedagógico); e, finalmente também resultado do sentido e do valor de cada um, de sua conduta, da série de deveres que adota, dos prazeres que conhece ou aos quais aspira, seus sentimentos, seus sonhos. Assim a série de práticas humanas que materializa nos corpos, não existe de maneira natural. Não é algo com o que se nasce, não pertence portanto ao corpo - se o considerarmos como algo dado no nascimento. A sexualidade não é o sexo e sim é um modo de ser que se incorpora a um corpo mediante as práticas.
De minha parte concluo que passados mais de 100 anos do texto transcrito por Wladimir, ainda há muito que se dizer sobre o assunto, penso tbém que sendo o ppio Wladimir especialista no assunto, ninguém melhor do que ele pra tentar juntar todas as contribuições e nos presentear com seu valioso conhecimento.
Comentário de Ivy Gomide em 19 março 2012 às 21:21 Sem dúvida alguma o sexo nunca foi livre, até hoje em 2012 "reina" o desejo acorrentado e vivido por momentos fugases, o ato se completa, entretanto é descartável, tal como uma camisinha. O termo 'usou, jogou fora', está na moda... Indo até Darcílio Lima, vemos esta imagem devastadora e percebemos que sempre foi assim. Darcilio Lima morreu em 1991, totalmente louco no interior do Ceará. Tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente e conviver por diversos momentos. Tive inclusive a oportunidade de vê-lo desenhar e ouvir as incriveis histórias que relatava. Muitas dessas histórias eram fantasias que no mínimo eu chamaria de exóticas. Noventa por cento do seu trabalho possuí o tema erótico e pecaminoso, as correntes são comuns em sua obra tanto quanto a religião, o falus e as lanças. Sem dúvida ele expõe verdadeiros rituais onde o sexo é visto como algo devastador, doloroso e mortal. Darcílio foi um autor autodidata, seu trabalho de conotação surreal ganhou o mundo e foi exposto não só nas Américas. Ele expôs também na europa e japão. Foi reconhecido por onde passou, infelizmente pouca coisa ou quase nenhuma está na internet. Sim, para Darcílio, o sexo está relacionado a dor e pode matar, entretanto esta não é apenas sua visão. Repito: muitos jovens hoje sentem assim, dando reforço a um tabú de séculos.
Comentário de Bruno Leal em 18 março 2012 às 10:31 A imagem do post é impressionante!
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Somos tão jovens
Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.
Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.
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