Cinema como recurso didático nas aulas de história.

 

Nesse perspectiva, ensinar é estabelecer relações interativas que possilitem ao educando elaborar representações pessoais sobre os conhecimentos, os objetos de ensino e da apredizagem. O ensino se articula em torno doa alunos e dos conhecimentos e a aprendizagem depende desse conjunto de interações.

Selva Guimarães Fonseca. Didática e Prática de ensino de História.

 

Imaginemos a seguinte situação: uma aula de história para uma turma do 7º ano do ensino fundamental. Conteúdo da aula: Descobrimento da América. Após o professor apresentar o assunto, apoiado pelo livro didático, o docente sugere aos seus alunos que assistam em casa o filme 1492: A Conquista do Paraíso, de Ridley Scott. Alguns alunos atenderão ao pedido do professor e irão assistir ao filme.
A partir da situação acima, que voltaremos a discutir, podemos analisar uma das relações existentes entre o Cinema e a História: o uso do filme no ensino de História. Nesse texto pretendo abordar essa relação para que possamos perceber de que forma tal assunto vem sido debatido.
A introdução do cinema como objeto da história, no nosso caso em particular como objeto de ensino de história, nos possibilita perceber as mudanças que vem ocorrendo na própria metodologia do ensino. Para isso, antes de nos adentrarmos na discussão do cinema e sua relação com o ensino, procuremos ver, mesmo que de relance, de que forma o ensino de história vinha e vem sendo aplicado no Brasil.
Infelizmente ainda hoje podemos encontrar em vários colégios um modelo de ensino de história que procura introjetar nos alunos o conteúdo da disciplina, fazendo do aluno um receptáculo de informações. Nesse modelo não existe o questionamento, a prática se resume na “decoreba”. Nesse sistema de ensino onde o senso crítico do aluno não é estimulado, a imagem serve apenas de ilustração, não é analisada e possui apenas uma função de estética.
O livro didático é sempre um ponto polêmico a se discutir. Aqui chamo a atenção para o que muitas vezes ocorre em salas de aula durante o ensino de história. Para alguns professores, o livro didático torna-se o único instrumento de trabalho, o livro é usado como uma verdadeira cartilha. No sistema de ensino que não valoriza a discussão dos temas, o livro didático é apresentado como o material que contem a verdade dos fatos históricos, o que na verdade sabemos que não é. Em minha opinião, o livro didático deve ser visto como um ponto de partida para que se construa uma relação de ensino-aprendizado entre o professor e seu aluno. E que essa construção do saber leve em consideração outros objetos de ensino como o cinema.
Nesse contexto é importante destacar uma mudança na madeira de ver e entender a história. Nas primeiras décadas do século XX, a forma de se perceber a História passa por grandes transformações provocadas pelos Annales, movimento francês fundado por Lucien Febvre e Marc Bloch que propõem novas fontes, novas abordagens e novas metodologias. Nesse bojo teórico estava a utilização de fontes não verbais.
A Nova História vem fundamentar o uso do filme como fonte documental. Segundo Jacques Le Goff:
Ampliou o campo do documento histórico; substituiu a história fundada essencialmente nos textos, no documento escrito, por uma história baseada numa multiplicidade de documentos: escritos de todos os tipos, documentos figurados, produtos de escavações arqueológicas, documentos orais, uma estatística, uma curva de preços, uma fotografia, um filme, uma ferramenta, um ex-voto são para a história nova, documentos de primeira ordem (1990, p.28).
Nesse campo das relações entre o cinema e a história destaca-se o historiador francês Marc Ferro, um dos principais estudiosos nessa área. O historiador propõe duas formas de se ler o cinema: “leitura histórica do filme e leitura cinematográfica da história: esses são dois eixos a serem seguidos para quem se interroga sobre a relação entre cinema e história” (1992, p.19).
Convêm lembrar que no Brasil o uso do cinema como recurso didático não é nada recente. Na década de 30, já se percebia o cinema como ferramenta indispensável na educação de jovens e crianças. O Governo Vargas tornou a educação um dos seus principais alvos e via o cinema como instrumento de divulgação da cultura do Estado. Dessa maneira percebemos que não havia preocupações teórico-metodológicas, mas sim uma forma de fazer do cinema um veículo de massa difusor da ideologia do Estado seguindo os modelos dos regimes autoritários da Alemanha, da Itália e da Antiga URSS.
Não podemos ignorar que vivemos uma era da imagem e o cinema é um dos grandes representantes dessa era. Dessa forma é inegável o peso da imagem sobre os alunos. Voltando a situação inicial do texto: procure imaginar a percepção que o aluno terá após assistir 1492 – A Conquista do Paraíso. O que pesará mais: a aula ou o filme?
O cinema, percebido como recurso didático, possibilita a construção do conhecimento histórico, pois “o cinema possui mensagens fílmicas individuais e múltiplas, mensagens que trazem valores culturais, sociais e ideológicos de uma sociedade”. O filme torna-se um documento a partir do momento em ele apresenta vestígios do passado.
O filme representa uma ótima oportunidade para trabalhar o senso crítico do aluno, pois o uso do filme em sala de aula não cabe apenas no visualizar, mas no questionar a obra cabendo ao professor o papel de guiar tal processo, pois trabalhar com o cinema na sala de aula requer muita atenção de quem vai utilizá-lo.
O cinema, ao tratar de temas históricos, apresenta uma versão de um fato, onde geralmente as liberdades artísticas permeiam toda a obra. O professor deve lembrar ao seu aluno que o filme não representa uma verdade histórica, mas sim uma interpretação dos fatos. Na nossa situação descrita no inicio do texto o que pode acontecer é que o aluno ao assistir ao filme 1492 – A Conquista do Paraíso vai assimilar aquela imagem como sendo “aquilo que de fato aconteceu” sem levar em consideração de que se trata de um trabalho artístico e que carece de uma analise.
Um dos cuidados principais ao se analisar um filme é evitar o anacronismo ao julgar valores e condutas de uma determinada época pelos critérios do presente.
Outro ponto relevante no uso do cinema como material didático é que o filme não deve ser usado como o único material de análise. O filme não substitui o material didático. Sempre que for possível, o professor deve relacionar o filme com outra fonte podendo apresentar outros textos relacionados ao filme como artigos, críticas, letras de música, fotografias. Dessa forma o professor facilita ainda mais o entendimento do filme e o processo de produção do conhecimento.
O uso do filme não funciona se ele não for analisado, por isso a situação descrita no início do texto está completamente errada do ponto de vista metodológico. O professor deve trabalhar o filme em atividades que estimule o senso crítico do aluno, pois cabe a ele conduzir junto com o aluno o processo de ensino-aprendizagem.
Mas na prática como vem sendo utilizado o cinema na sala de aula? Devemos ter em mente que alguns fatores atrapalham o uso de filmes como recurso didático nas aulas de história. Alguns colégios, por exemplo, não dispõe de uma sala de áudio e vídeo. Um espaço como esse evita que tempo seja perdido com a instalação dos aparelhos eletrônicos na sala de aula. Outro fator é a falta de preparo de alguns professores ao utilizar os aparelhos eletrônicos, pois podemos encontrar professores de história, assim como de qualquer outra disciplina, que não utilizam o cinema na sala de aula por não saberem manusear aparelhos de DVD ou data-show. Além disso a falta de alguns títulos disponíveis a exibição faz com que não se possa explorar ainda mais o recurso do cinema. As videotecas são essenciais nesse sentido, mas quantas escolas apresentam videotecas?
Evidente que não tenho a pretensão de discutir tudo a respeito da relação entre o cinema como recurso didático nas aulas de história, mas penso que aqui temos um início para aprofundarmos mais essa discussão. Seguem abaixo as referências dos textos que utilizei para fazer esse artigo, alguns estão disponíveis na internet, se for do seu interesse vamos contribuir ainda mais a analise das relações entre o cinema e história.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
AQUINO. Edineide Dias de. Cinema em foco: uma abordagem cinematográfica/historiográfica no ensino de história. Disponível na internet.
DAVID. Célia Maria; SILVA. Melissa Carolina Marques; OLIVEIRA. Paula Vanessa Moscardini de. A utilização da linguagem cinematográfica no ensino de história. Disponível na internet.
FERRAZ. Liz de Oliveira Motta. História e cinema: luz, câmera, transposição didática. O Olho da História. Ano 12. n. 9, dezembro de 2006. Disponível na internet.
NASCIMENTO. Jairo de Carvalho do. Cinema e ensino de história: realidade escolar, propostas e práticas na sala de aula. Revista de História e Estudos Culturais. Vol. 5. Ano V. nº 2. Abril/Maio/Junho de 2008. Disponível na internet.

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Comentário de Davi Borges em 1 outubro 2011 às 14:42
Parabéns pela postagem, acho deveras importante inserir mídias dentro da sala de aula como auxilio de aprendizagem em sala de aula, não ficando apenas como uma aula expositiva e sim uma aula que disperte a atenção do aluno levado a uma reflexão.   

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