Caso Battisti: imprensa brasileira atua com desleixo ou má fé?

Um ótimo exemplo da leviandade com que parte da imprensa brasileira está acompanhando o Caso Battisti nos foi dado na semana passada.

A Folha OnLine publicou, no dia 07/10, uma notícia por ela creditada à "Ansa, em Milão" e que nem sequer entrou no portal latinoamericano dessa agência, de tão irrelevante: "Vítima de Battisti quer ser ouvida pelo Supremo" (http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u634796.shtml):

"O italiano Alberto Torregiani, uma das vítimas de um dos crimes pelos quais o ex-ativista de esquerda Cesare Battisti é condenado na Itália, pediu nesta quarta-feira para ser ouvido pelo STF (Supremo Tribunal Federal), que analisa o pedido de extradição feito pela Justiça italiana.

"Alberto é filho de Pierluigi Torregiani, que foi morto em frente à joalheria da família, em Milão, e também foi vítima da mesma ação, cometida em 1979. Ele foi atingido por um tiro e ficou hemiplégico.

"'Se os juízes não conseguem decidir porque falta alguma informação, eu os aconselho a escutarem também as vítimas. Eles conhecem a história apenas das cartas processuais', disse Torregiani, retomando um pedido que já havia feito.

"Em março passado, ele solicitou ser ouvido pelo Supremo, o que foi rejeitado, já que o STF não prevê depoimentos..."

Para que serve uma notícia destas, se não há hipótese nenhuma de Alberto Torregiani vir a depor na conclusão do julgamento do pedido de extradição italiano?

Obviamente, sua serventia, única e exclusiva, é criar prevenção contra Battisti, tentando tanger o STF para o desfecho que a Itália tanto quer enfiar-nos goela adentro.

Assim como a Ansa, a Folha de S. Paulo também percebeu que este mal dissimulado exercício de lobby era matéria de segunda linha, daquelas que só servem para fazer volume no pacote de notícias que as agências internacionais enviam diariamente a seus clientes: não o aproveitou.

Surpreendentemente, O Estado de S. Paulo embarcou, atrasadíssimo, nessa canoa furada. O vetusto jornalão conservador publicou (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091010/not_imp448789,0.php) idêntica ladainha no dia 10/10!

Afora a repetição do mesmíssimo blablablá, a notícia "Vítima de grupo de Battisti quer depor" acrescentou duas informações reveladoras.

A primeira é que Torregiani não tem absolutamente nada a testemunhar no Supremo:

"É difícil traçar um quadro do que está ocorrendo, mas os acontecimentos nos levam a pensar que está sendo procurada uma maneira de adiar a extradição", avalia Torregiani. Battisti sempre afirmou sua inocência e sustenta que o disparo que deixou Torregiani numa cadeira de rodas partiu da arma de seu próprio pai.

"E o que isso tem a ver?", replica Torregiani. "Battisti não fazia parte do comando, mas é uma questão de responsabilidade. Ele foi condenado por ter participado da tomada de decisão, por ter sido o mandante do crime, e o que importa são as intenções. O crime foi premeditado e agora ele deve assumir a responsabilidade por seus atos."

Isto veio ao encontro do que ele mesmo havia declarado à Ansa, que publicou (http://www.ansa.it/ansalatinabr/notizie/notiziari/brasil/20090130200634815389.html) em 30/10/2009 a notícia "Filho de vítima diz que Battisti não estava presente em assassinato do pai":

"O italiano Alberto Torregiani, filho do joalheiro Pierluigi Torregiani, supostamente assassinado por Cesare Battisti, disse que não ficou surpreso com as declarações do ex-militante divulgadas pela imprensa brasileira, nas quais ele alega inocência.

"'Ele não disse nada de novo', considerou ele, que ficou paraplégico após ser atingido no mesmo tiroteio em que seu pai foi morto.

"Torregiani revelou que Battisti não participou da ação que culminou no assassinato de seu pai porque havia ido à localidade de Mestre, onde teria matado o açougueiro Lino Sabbadin. 'Está tudo nos autos do processo', explicou.

"Para ele, no entanto, 'o problema é que existe uma sentença de condenação definitiva e testemunhos que indicam ele e seus cúmplices como responsáveis pelo homicídio de meu pai'".

Aqui também houve duas omissões significativas. Torregiani "esqueceu" de dizer:

* que, segundo "os autos do processo", os dois assassinatos foram planejados na casa do dirigente máximo do grupo Proletários Armados para o Comunismo, Pietro Mutti, em reunião na qual é atribuída a Battisti (que, na verdade, não estava presente) apenas a omissão, ou seja, não teria objetado; e
* que depois Mutti, como delator premiado, imputou mentirosamente a Battisti a autoria direta dos dois assassinatos, tendo a acusação engolido suas lorotas interesseiras como se fossem a tábua dos 10 mandamentos.

Aí a defesa levantou um pequeno e singelo detalhe: a distância entre as duas localidades (500 quilômetros) não podia ser transposta no intervalo de tempo transcorrido entre as ações (duas horas).

A derrubada de uma das mentiras de Mutti foi um embaraço? Longe disso. Apenas se remendou a peça acusatória, colocando Battisti como assassino de Lino Sabbadin e autor intelectual da morte do joalheiro Pierluigi Torregiani.

Quanto a Mutti, a própria Corte de Milão assim se pronunciaria sobre sua teia de falsidades, em 31/03/1993:

"Este arrependido é afeito a jogos de prestidigitação entre os seus diferentes cúmplices, como quando implica Battisti no assalto de Viale Fulvio Testi para salvar Falcone, ou Battisti e Sebastiano Masala em lugar de Bitti e Marco Masala no assalto à loja de armas 'Tuttosport', ou ainda Lavazza ou Bergamin em lugar de Marco Masala em dois assaltos em Verona".

E o que pretenderia, afinal, Alberto Torregiani fazer no Brasil, se admite que não viu Battisti entre os assassinos do seu pai?

Ora ele afirma que "está tudo nos autos do processo", ora ele diz que os ministros do STF "conhecem a história apenas das cartas processuais".

Pretenderá dizer-nos aquilo que nem mesmo acusadores tão tendenciosos ousaram sustentar no julgamento de cartas marcadas a que Battisti foi submetido em 1987?

E é aqui que entra a segunda informação reveladora da matéria do Estadão:

"Autor do livro Já Estava na Guerra, Mas Não Sabia, em que contou sua experiência, Torregiani entrou há pouco tempo na política. É responsável pelo Departamento de Justiça do Movimento pela Itália, liderado por Daniela Santanchè...".

Para quem não sabe, trata-se de um agrupamento reacionário cuja líder (http://gladio.blogspot.com/2008/09/daniela-santanch-promessa-favorvel-ao.html) é coproprietária de um night-club para ricaços da Sardenha, uma senhora assumidamente neofascista e que rompeu com Berlusconi por considerá-lo demasiado tímido na defesa dos ideais direitistas...

Então, a motivação de Alberto Torregiani salta aos olhos: quer apenas aparecer no noticiário, já que engata uma carreira política e literária como vítima profissional, nas fileiras da extrema-direita italiana.

Que a Folha OnLine e O Estado de S. Paulo tenham concedido espaço para esta não-notícia é patético... ou suspeito.

O único sítio apropriado para ela são os sites e blogues da extrema-direita, dedicados a martelar incessantemente propaganda enganosa, como Goebbels recomendava.

Para estes, aliás, as notícias da Folha OnLine e de O Estado de S. Paulo acabaram servindo como munição. Vários, começando pelo do Reinaldo Azevedo (http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/vitima-de-grupo-de-battisti-quer-depor/), reproduziram uma ou outra.

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Tags: Battisti, STF, extradição, imprensa, refúgio

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Comentário de MiIton Cavalheiro Mendes em 19 outubro 2009 às 12:47
Olá, Sérgio.
Ainda não estou habituado à economia de palavras. Não obstante, gostei da tua concisão: Battisti é um criminoso comum. Já é mais do que tempo para deixarmos de lado os rótulos dos frascos e passarmos a questionar a validade dos conteúdos... muitos destes mofados, diga-se.
Comentário de Sergio Fonseca em 14 outubro 2009 às 16:25
Bastitti é um criminoso comun. Cabe a justiça italiana decidir de fato o que fazer com o criminoso. Ponto final.
Comentário de MiIton Cavalheiro Mendes em 14 outubro 2009 às 15:54
Meu prezado Celso:
Democracia é uma coisa complicada. Como tal, se obriga a abrigar dentro de si o germe da própria destruição. Manter um congresso nacional como o nosso, porque é necessário num regime democrático, torna clara essa aparente contradição.
Outra coisa complicada é relativizar a Justiça, submetendo-a aos azares da ideologia de plantão, qualquer que seja esta. O Nazismo logo vem à mente quando se pensa nisso. Ou o Comunismo, especialmente na sua versão estalinista. Ou o regime vigente nos estados teocráticos.
A partir daí, et pour cause, discordo respeitosamente da sua análise do assunto, especialmente quando entra no mérito processual da questão. Não obstante, concordo com o seu argumento no sentido de que “não há hipótese nenhuma de Alberto Torregi...” É evidente que não. O Brasil sequer deveria estar na situação surrealista de o Supremo ser obrigado a julgar atitudes olímpicas de um Ministro da Justiça.
Noto no seu texto as habituais colocações voltadas para a atribuição a uma direita ou extrema-direita a tudo aquilo que se atreva a discordar das verdades desde há muito estabelecidas pela esquerda.
Por que, meu prezado Celso, alguém que não é “ de esquerda” - ou, pior, sendo ou tendo sido se atreva a pensar um bocadinho sobre as coisas - deva ser imediatamente carimbado como “de direita” e, a partir daí, todas as conclusões a que chegar sejam liminarmente desconsideradas?
Por que razão existe a necessidade, preliminar a qualquer discussão, de uma classificação prévia das pessoas num mofado maniqueísmo esquerda x direita? Quando perguntaram a Lula se ele era marxista ele respondeu que era torneiro mecânico. Ponto. A ideologia está cada vez mais se confundindo com a religião, e as posições vem se tornando matéria de fé. Vamos parar com isso!
Penso que o Brasil está desempenhando um papel lamentável ao se imiscuir nos assuntos internos de outros países. Ou existe um Estado de Direito no Brasil ou não existe. Por mais que se esforcem os partidários de abordagens alternativas à Constituição, não podemos ficar sujeitos a arbitrariedades fundadas nos valores de cidadãos que estão autoridades, hoje, mas provavelmente deixarão de sê-lo amanhã ou depois. Um conselho estudou o caso de Battisti e concluiu pela negativa de concessão de refúgio. Ponto final.
Um cidadão, Senhor Tarso Genro, investido no cargo de Ministro da Justiça, e ao arrepio da recomendação daquele conselho, concedeu o refugio. Quem se respeite a inteligência das pessoas e não se venha a atribuir qualquer possibilidade de isenção ao Senhor Tarso Genro. Concedeu o refúgio por se tratar de uma pessoa notoriamente "de esquerda" e como tal, preliminarmente boa. Dois boxeadores cubanos, ao demonstrarem insatisfação com o tipo de democracia praticado em Cuba, foram prontamente devolvidos ao bondoso regime caribenho, para "reeducação", num ato puramente fascista que em tudo se assemelha à entrega de Olga Benário aos nazistas.
Ou aceitamos que a Itália é um país democrático ou que se negue formalmente essa condição. Não há meio termo. Battisti, até prova em contrário, é criminoso condenado na Itália, por assassinatos cometido fora de qualquer período revolucionário ou de exceção. Não cabe ao Brasil selecionar quais dos cidadãos italianos são bons e quais não o são.
Vale o mesmo para a aviltante situação em Honduras. Um presidente em fim de mandato, ávido pela continuidade no poder, num surto de bolivarianismo devidamente estimulado pelo Senhor Hugo Chavez, tenta dar um golpe de estado através da mudança de cláusulas pétreas da constituição daquele país. Rigorosamente dentro das disposições constitucionais é deposto e, numa estratégia absolutamente infantil, é mandado para fora do país, em vez de ser preso, conforme estabelece a legislação.
O senhor Marco Aurélio Garcia e seu fiel acólito Senhor Celso Amorim - deveria ser o contrário, mas, com Ministro fraco, tudo acontece, desde a submissão a “assessores” até a admissão pública de ser um desinformado e dizer que ninguém sabia do retorno do Senhor Zelaya - abrem as portas da nossa embaixada ao ex-presidente, que se dizendo perseguido em Honduras, pediu mas não pediu refúgio.
Não estava em perigo na Nicarágua ou fora de Honduras. Se voltou, o fez por vontade própria. Hoje, manda e desmanda em nossa embaixada, numa atitude debochada e repugnante a qualquer cidadão brasileiro de bem. Dela, conclama suas milícias, concede entrevistas e exerce todos os atos proibidos a pessoas acolhidas em embaixadas. Mas isso vale, pois o Senhor Zelaya deixou de ser um abjeto conservador “de direita”, condição da qual fez uso para ser eleito, para, num ato que me arrisco a qualificar de traição política aos seus eleitores, se tornar "de esquerda", e, portanto bom. Melhor ainda, bolivariano.
O que pensaria o Brasil se o Senhor Collor, deposto, se refugiasse na embaixada da Itália, ou da França, ou da Alemanha e, de lá, conclamasse o povo brasileiro a depor o sucessor?
Por que razão o Brasil não exige a desocupação da nossa embaixada, por violação das condições de refugiado de fato, já que o Senhor Zelaya se recusou a solicitar asilo? Basta dar um prazo, 72 horas, por exemplo, para que o ex-presidente saia mediante salvoconduto para qualquer lugar que o acolha, após o que o Brasil simplesmente mudaria o endereço da sua representação diplomática e devolveria aos hondurenhos sua livre determinação.
Acho que é isso. E, por favor, não me qualifique como integrante “da zelite”, pois estou muito, mas muito longe disso. Por enquanto, dou-me por satisfeito em poder fazer esse comentário sem ser preso ou encaminhado para alguma atividade de reeducação.

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