OS DIVERSOS TIPOS DE COLONIZAÇÃO
Marília Pantoja do Nascimento*


Desde o Ensino Fundamental é colocado ao aluno a existência de apenas dois tipos diferentes de colonização: a colonização de povoamento e a colonização de exploração. E mais, a diferença entre estes dois tipos de colônia é vista como fator determinante para o maior desenvolvimento de uma e o subdesenvolvimento de outras, ou seja, os países que foram colônias de povoamento, hoje, em geral, são considerados ricos, desenvolvidos, “superiores” economicamente aos países que foram colônias de exploração. Este artigo tem por objetivo romper com esta visão errônea, colocando os vários tipos de colonização, seus objetivos, suas diferenças e o importante papel que as colônias tiveram para o desenvolvimento da economia européia.
O mito de se pensar que existiram apenas dois tipos de colonização surge da diferença entre o modelo colonial luso-espanhol e o modelo colonial anglo-saxão, este segue a linha de primeiro povoar, defender, administrar e, assim, vai explorando, enquanto o primeiro inicialmente explora, defende, administra e, assim, vai povoando. Ou seja, ambas foram ao mesmo tempo colônias de povoamento e de exploração.
Em Formação do Brasil Contemporâneo, o autor, Caio Prado Júnior, ao falar sobre O Sentido da Colonização também distingue dois modelos coloniais em que a colonização toma rumos totalmente diverso, ele se refere ao tipo de colonização das zonas temperadas e ao tipo de colonização das zonas tropical e subtropical.
A colonização das zonas temperadas ocorre em larga escala após o século XVII, tem objetivos especiais, diferentes dos objetivos da colonização das zonas tropicais, “é a situação interna da Europa, em peculiar da Inglaterra, suas lutas político-religiosas que desviam para a América as atenções de populações que não se sentem vontade e vão procurar ali abrigo e paz para suas convicções” (PRADO JÚNIOR: 1999, p. 26).
Segundo o autor, durante mais de dois séculos, os “resíduos” das lutas políticas, religiosas, etc, da Europa serão “despejados” na América. É importante destacar que as condições naturais, como o clima, das zonas temperadas se assemelhavam às da Europa, por isso era preferível “para que não buscava ‘fazer a América’, mas unicamente abrigar-se dos vendavais políticos que varriam a Europa, e reconstruir um lar desfeito ou ameaçado” (PRADO JÚNIOR: IDEM), ou seja, vinham em busca de melhores condições de vida, “o que os colonos desta categoria têm em vista é construir um mundo novo, uma sociedade que lhe ofereça garantias que no continente de origem já não lhes são mais dadas” (PRADO JÚNIOR: 1999, p.27). Estas são circunstâncias especiais que dão origem a um novo tipo de colonização, “a que não tem relação direta com ambições de traficantes ou aventureiros (...) que tomará um caráter inteiramente apartado dos objetivos comerciais até então dominantes...” (PRADO JÚNIOR: IDEM).
Já a colonização das zonas tropicais e subtropicais toma um rumo diferente, primeiramente por conta das condições naturais diferentes das da Europa, que por um lado, repelem o colono que vem como simples povoador, mas que por outro pode servir de forte estímulo, pois de acordo com o autor, “tais condições proporcionarão aos países da Europa a possibilidade da obtenção de gêneros que lá fazem falta” (PRADO JÚNIOR: 1999, p. 28), como o açúcar, a pimenta, o tabaco, o anil, etc. Mas o objetivo do colonizador aqui será outro, o colono europeu “viria como dirigente da produção de gêneros de grande valor comercial, como empresário de um negócio; mas só a contra-gosto como trabalhador. Outros trabalhariam por ele” (PRADO JÚNIOR: 1999. p. 28-29). Mesmo quando vinham como simples trabalhadores, muitas vezes sem saber onde se fixariam, em que trabalhariam, assim que tivessem oportunidade, partiam para a região de zona temperada em busca de maiores oportunidades e um gênero de vida mais afeiçoado ao que tinham na Europa. “O colono europeu ficará então aí na única posição que lhe competia: de dirigente e de grande proprietário” (PRADO JÚNIOR: 1999, p. 30). Em síntese:

“Como se vê, as colônias tropicais tomaram um rumo inteiramente diverso do de suas irmãs da zona temperada. Enquanto nestas se constituirão colônias propriamente de povoamento (...), escoadouro para os excessos demográficos da Europa que constituem no Novo Mundo uma organização e uma sociedade à semelhança do seu modelo e origem europeu; nos trópicos, pelo contrário, surgirá um tipo de sociedade inteiramente original. Não será a simples feitoria comercial (...), mas conservará no entanto um acentuado caráter mercantil, será a empresa do colono branco, ...” (PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo: colônia. São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 31)


Assim, como o próprio Caio Prado Júnior afirma, “a colonização dos trópicos toma o aspecto de uma vasta empresa comercial, mais completa que a antiga feitoria comercial” (PRADO JÚNIOR: 1999, p. 31), sempre com um caráter explorador em propósito do comércio. “É este o verdadeiro sentido da colonização tropical, de que o Brasil é resultante...” (PRADO JÚNIOR: IDEM).
Os autores Ciro Flamarion Cardoso e Hector Perez Brignolli, em uma obra intitulada História Econômica da América Latina, discorrem sobre os vários tipos de colonização, seguindo alguns critérios de classificação, como por exemplo, a forma de se colonizar pode variar de acordo com as potências colonizadoras; com seu grau de vinculação ao mercado mundial; segundo os tipos de produção que a colônia pode desenvolver e qual mão-de-obra emprega .
O critério de classificação das colônias segundo as potências colonizadoras, de acordo com os autores, é um critério frágil, pode haver sim certas diferenças entre distintas áreas coloniais, dependendo do nível econômico e social das potencias metropolitanas, mas também há semelhanças, como por exemplo, “o Brasil açucareiro (colônia portuguesa) e as Antilhas francesas e inglesas produtoras de açúcar, teremos colônias escravistas essencialmente similares entre si, ainda que colonizadas por três países diferentes” (CARDOSO e BRIGNOLLI: 1983, p. 75)
Segundo o grau de vinculação ao mercado interno, Cardoso e Brignolli apontam “distinções entre os núcleos exportadores que produzem metais preciosos e produtos tropicais para vendê-los à Europa, zonas subsidiárias voltadas para o mercado local ou internacional...” (CARDOSO e BRIGNOLLI: IDEM), mas, em seguida, afirmam que “... de qualquer maneira uma tipologia realmente explicativa não pode somente basear-se na esfera da circulação, sem considerar a estrutura social.” (CARDOSO e BRIGNOLLI: IDEM).
Segundo os tipos de produção, a colonização pode variar de acordo com a região explorada e com seus recursos naturais disponíveis, assim, tivemos colônias de mineração, exportadora de produtos tropicais, as colônias produtoras de alimentos para os próprios mercados da América . Assim tivemos também diferentes modos de se colonizar, explorar e povoar em um mesmo território, como no Brasil, que em determinadas regiões produziu o açúcar, em outras os produtos tropicais, ambos para exportação; a agricultura e a pecuária para abastecer o mercado interno e inter-colonial; no século XVII houve também uma região aurífera muito forte, exportadora de metais preciosos, etc. Além disso, o Brasil, em determinadas áreas e atividades, utilizou a mão-de-obra escrava indígena e negra. Segundo os autores, “... com este critério já podemos construir um quadro mais interessante, dado que os tipos de produção têm grande influencia sobre as técnicas, a organização social, etc.” (CARDOSE e BRIGNOLLI: 1983, p. 75-76).
Segundo a mão-de-obra empregada, temos colônias que se basearam na exploração das comunidades, como no Peru, México, Guatemala, etc, ainda que a mão-de-obra negra não tivesse de todo ausente. Onde as comunidades indígenas foram dizimadas rapidamente pela violência, pelas “guerras justas”, pela exploração, por epidemias, etc, como no Brasil, nas Antilhas, nas Guianas, tivemos colônias onde a utilização da mão-de-obra negra teve fundamental importância .
Como podemos notar, não houve somente dois tipos de colonização, o cenário colonial se moldou de diferentes formas, de acordo com a região geográfica, com o clima, com os recursos naturais disponíveis, com os objetivos dos colonizadores (e da metrópole), etc. Mas, por que a colonização foi tão importante? Qual seria o papel da colônia? Qual sua importância?
Quando falamos em colônia, no sentido histórico da palavra, temos a idéia de que se trata de uma possessão que um Estado mantém em terras estrangeiras, através da ocupação, do povoamento . Antes do achamento do Novo Mundo, os países europeus tinham por entendimento que a “colonização”, segundo Caio Prado Júnior, não passava de um estabelecimento de feitorias comerciais em terras “descobertas”, nas Américas a situação foi diferente.

“Para os fins mercantis que se tinham em vista, a ocupação não se podia fazer como nas simples feitorias, com um reduzido pessoal incumbido apenas do negócio, sua administração e defesa armada; era preciso ampliar estas bases, criar um povoamento capaz de estabelecer e manter as feitorias que se fundassem e organizar a produção dos gêneros que interessassem ao comércio. A idéia de povoar surge daí, só daí.” (PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo: colônia. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 24)

Caio Prado Júnior, Ciro Flamarion Cardoso e Hector Perez Brignolli concordam que “a colonização da América foi sem dúvida, em ultima análise, uma conseqüência da expansão comercial e marítima européia, um aspecto do grande processo de constituição do mercado mundial” (CARDOSO e BRIGNOLLI: 1983, p. 72) e isto não seria possível sem a associação de interesses e investimentos de capitais privados e públicos, logo, tais investimentos almejavam o “lucro”, e um bom lucro. Assim, como afirma Fernando Navais:

“O sistema de colonização que a política econômica mercantilista visa desenvolver tem em mira os mesmo fins mais gerais do mercantilismo e a ele se subordina. Por isso, a primeira preocupação dos Estados Colonizadores será de resguardar a área de seu império colonial face às demais potencias; a administração se fará a partir da metrópole, e a preocupação fiscal dominará todo o mecanismo administrativo. Mas a medula do sistema, seu elemento definidor, residirá no monopólio do comércio colônia”. (NOVAIS, Fernando. O Brasil nos quadros do antigo sistema colonial. IN: Brasil em perspectiva. MOTA, Carlos Guilherme [org.]. 21 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. p. 51)

O monopólio do comércio é importantíssimo para os objetivos mercantis da metrópole, para o fortalecimento da economia européia, e “define o sistema colonial porque através dele que as colônias preenchem sua função histórica, isto é, respondem aos estímulos que lhes deram origem, que formam a sua razão de ser, enfim, que lhes dão sentido” (NOAVIS: 2001, p. 52).
A meu ver, o objetivo, o sentido da colonização, os motivos que levaram os emigrantes a se dirigirem ao novo mundo é, entre outros, fator determinante para explicar a formação, o desenvolvimento das colônias e os rumos que elas tomaram. Ns zonas temperadas, onde os colonos procuravam estabilidade, segurança, prosperidade, melhores condições de vida, construir um mundo novo, refazer uma história, houve a preocupação com o desenvolvimento local, econômico, social, político, etc. já nas zonas tropicais os objetivos eram de explorar comercialmente, os colonos vinham para “fazer a América” e voltar ao lugar de origem enriquecidos, dignos de maior status social, etc, não tinham a intenção de se fixar, e sim de explorar, o desenvolvimento local se deu para isso, para complementar a economia da metrópole, que através do pacto colonial pode fortalecer e desenvolver a economia mercantilista e a cumulação primitiva de capital. Pacto este que impôs à colônia um regime de dependência. Dependência esta que, em especial os países latino-americanos, até hoje tentam superar.


REFERÊNCIAS:



CARDOSO, Ciro Flamarion. BRIGNOLLI, Hector Perez. História Econômica da América Latina. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1983.


LUFT, Celso Pedro. Minidicionário de Língua Portuguesa Luft. 20 ed. São Paulo: Ática, 2001.


NOVAIS, Fernando. O Brasil nos quadros do antigo sistema colonial. IN: Brasil em perspectiva. MOTA, Carlos Guilherme [org.]. 21 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.


PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo: colônia. São Paulo: Brasiliense, 1999. 23 ed.

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