Marco Antonio Villa não pode ser rotulado como um historiador especialisa. O professor da Universidade Federal de São Carlos aborda vários temas na carreira e aproveita para romper com várias sensos-comuns na história
Como todo bom historiador, Marco Antonio Villa tem história para contar. Em sua carreira, já escreveu e publicou mais de vinte livros, que tratam de temas diversos, da Idade Média à Revolução Mexicana. Professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), Marco Antonio não gosta da história "especialista", como diz na entrevista concedida gentilmente ao Café História. E por ser sincero em suas declarações, conquista não apenas leitores, mas também polêmicas. Recentemente, a editora Imprensa Oficial do Estado de São Paulo lançou o seu mais novo livro "1932: imagens de uma revolução", no qual Villa desconstrói uma série de explicações clássicas a respeito de um dos acontecimentos históricos mais emblemáticos da História da República brasileira. Ele já tocou também em outros temas espinhosos, como João Goulart e Tiradentes. Mas engana-se quem acha que se trata de um polemista. Marco Antônio Villa é pesquisador de arquivo, atento aos desafios da escrita e cuidadoso com os usos partidários (e panfletário ou mítico) da história. Quer conhecer mais sobre ele? Então leia abaixo mais um entrevista bem especial que o Café História traz para você. Está imperdível!
CAFÉ HISTÓRIA - Professor Marco Antônio Villa, antes de tudo, muito obrigado por conceder essa entrevista ao Café História. Em nossas edições anteriores, sempre começando perguntando como o entrevistado tornou-se historiador. Portanto, como começou o seu envolvimento com a História? Para o senhor, que característica faz da História uma “ciência” diferente das demais ciências humanas?
MARCO ANTONIO VILLA - Inicialmente cursei Economia. Atrasei muito o curso devido a minha participação no movimento estudantil. Em certo momento, resolvi abandonar Economia e prestar novo vestibular para História. Lia muito desde o Colegial, especialmente livros de História, tanto do Brasil, como das revoluções socialistas, além, o que era freqüente naquela época, de muita teoria marxista. História difere pela forma como trabalha com seu objeto, como recorta seus temas, etc.
CAFÉ HISTÓRIA - Professor, seu mais recente livro, "1932: imagens de uma revolução", acaba de chegar às livrarias e já provoca discussões sobre a interpretação histórica sobre o tema. Em grande parte dos livros didáticos, o episódio da Revolução sempre foi explicado como uma reação das velhas oligarquias. Esta visão está errada? Por quê?
MARCO ANTONIO VILLA - Está, ou melhor, é possível outras leituras. Em um país com a tradição autoritária como o nosso, a Revolução de 32 é um marco na luta pela democracia. A relação entre ela e o PRP, os “carcomidos” de 30, foi uma construção política de momento e que invadiu a historiografia sobre o tema (e que é muito restrita). Também não é possível transformá-la em movimento separatista ou anti-varguista. De um lado, porque o separatismo nunca esteve no centro do movimento (basta recordar que os dois principais comandantes militares – Klinger e Figueiredo – não eram paulistas), de outro, porque Vargas sempre teve (desde o célebre comício de janeiro de 1930, da Aliança Liberal), forte influência política em São Paulo (basta também recordar as votações consagradoras que teve em 1945 e 1950). 1932 é um tema espinhoso, mas temos (assim como outros) de enfrentá-lo e não ficar repetindo ladainhas, sem qualquer trabalho de pesquisa.
CAFÉ HISTÓRIA - O senhor dedica parte significativa do livro às artes desenvolvidas em 1932, como a música e a literatura. Que peso pode ser atribuído aos intelectuais e artistas daquele tempo dentro do contexto que culminou com aquela Revolução?
MARCO ANTONIO VILLA - Faltam estudos sobre isso. Até hoje, por exemplo, Mário de Andrade não tem uma boa biografia (e não só ele, entre os intelectuais modernistas). Muitos deles tiveram participação política nos acontecimentos. Cassiano Ricardo, por exemplo, brilhante poeta, é ignorado como um participante e importante observador da cena política paulista e brasileira dos anos 20 até os anos 50. Mostro que alguns intelectuais mais anti-varguistas em 1932, o apoiaram de forma entusiástica no Estado Novo.
CAFÉ HISTÓRIA - A Revolução de 1932 é apenas um dos seus temas de estudo. Sua dissertação de mestrado fala sobre Pancho Villa; sua tese de doutorado, sobre Canudos. Em seus mais de vinte livros, o senhor aborda temas como a histórica da Seca no Nordeste. Essa característica parece ir contra a tendência cada vez mais forte de especialização em nossa área. Qual a sua opinião sobre a especialização vista hoje nos estudos históricos?
MARCO ANTONIO VILLA - Evidentemente, não gosto desta história de “especialista”. Daquele pesquisador que desde a graduação, passando pelo mestrado, doutorado, pós-doutorado, livre docência, titulatura, só pesquisa e escreve sobre o mesmo tema. Que falta de interesse, de prazer pela pesquisa, pela novidade, pela ousadia de enfrentar novos temas. Estes não passam de burocratas da história, como aqueles velhos amanuenses das repartições públicas do passado.
CAFÉ HISTÓRIA - Em alguns de seus trabalhos, o senhor desconstrói mitos da história nacional, como Tiradentes e João Goulart. Em que medida esses e outros "mitos históricos" brasileiros influenciaram na condução política do país e nos rumos da própria historiografia? O senhor vê hoje a construção de algum novo mito (para alguns, "ídolo")?
MARCO ANTONIO VILLA - O mito de hoje é o presidente Lula. Disse uma antiga filósofa (que teve, inclusive, em certa época, muita influência na pesquisa histórica, infelizmente) que quando ele fala o mundo de descortina, tudo fica claro, nada mais está oculta, tudo está revelado. Quer mito maior que esse? Será o maior mito da história do Brasil. Tem seus méritos, claro. Mas muitos intelectuais silenciaram nestes 7 anos. Alguns em troca de alguma “boquinha”. E somos o país da “boquinha”...
O caso do Jango é de simples substituição do panfleto, da ideologia mais rasteira, pelo esforço do pesquisador. Quando você, como pesquisador, acaba conhecendo melhor seu objeto (Jango) percebe que sua presidência foi um desastre. Cabe como historiador apresentar este governo, deixar “as fontes falarem”.
O problema é que, no Brasil, intelectual não gosta de biblioteca e historiador não tem simpatia pelo trabalho nos arquivos. Quando briguei, em 2004, pela Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, não recebi apoio de ninguém. Pelo contrário, fizeram um pequeno abaixo-assinado, publicado na seção dos leitores da “Folha de S. Paulo”, dizendo que a biblioteca não tinha nenhum problema. O mais triste é que os signatários não iam pesquisar na BMA há muito tempo. Um deles desde meados dos anos 50.
CAFÉ HISTÓRIA - Mundo contemporâneo. Professor, em entrevistas recentes, o senhor tem criticado a diplomacia brasileira por sua falta de combatividade em prol dos interesses nacionais. Porque o Itamaraty tem optado por esta política externa? Estamos sendo subservientes a países como Venezuela e Bolívia?
MARCO ANTONIO VILLA - Sim, a política externa é nociva aos interesses nacionais. È panfletária e irresponsável. Basta um Evo Morales qualquer dar um grito, para que o nosso governo recue. É uma espécie de um passo á frente e dois passos atrás. É o anti-Lenin.
Lula não conseguiu até hoje entender a importância da política externa. Para ele é uma fonte de caridade, de “ser bonzinho”. Distribui dinheiro para os ditadores da África Negra (certamente os recursos serão embolsados pelos ditadores e sua parentela). Aceitou renegociar o Tratado de Itaipu em bases absurdas. Critica a Colômbia, que é o único governo que tenta enfrentar o tráfico de drogas. A foto de Lula e Morales, ambos com colares com folhas de coca resume tudo.
CAFÉ HISTÓRIA - Com bastante freqüência, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, evoca Simón Bolívar em seus discursos. Qual a estratégia por trás desse “lugar de memória”?
MARCO ANTONIO VILLA - Piada pura. É como o Fidel citando Marti como uma espécie de marxista. Chávez é a velha América Latina, é o caudilho bufão, mas perigoso. O Brasil não o leva a sério. E não podemos esquecer as enormes compras de armas realizadas pela Venezuela. Logo teremos problemas com ele.
CAFÉ HISTÓRIA - O tipo de caudilhismo político encarnado por figuras como Hugo Chávez é útil para América Latina ou representa um retrocesso?
MARCO ANTONIO VILLA - Retrocesso puro. Lembro dos velhos ditadores, bons personagens de literatura, porém verdadeiras tragédias para seus povos.
CAFÉ HISTÓRIA - Professor, se existisse um Prêmio Nobel para a História, qual historiador o senhor acha que seria digno de recebê-lo? Por quê?
MARCO ANTONIO VILLA - Dos vivos, nenhum. Claro que deve ter bons historiadores pelo mundo, porém escolher um melhor não dá. No Brasil temos alguns grandes historiadores. Um deles é Fernando Novais.
CAFÉ HISTÓRIA - Chegamos ao fim de nossa entrevista. Gostaríamos de encerrá-la com uma questão ligada ao Café História. Um dos objetivos da rede é usar as novas mídias para fortalecer a divulgação da história no Brasil e favorecer a troca de idéias e experiências entre diversos profissionais. Para o senhor, o historiador brasileiro em geral ainda é muito resistente às novas tecnologias ou já está familiarizado com seus potenciais?
MARCO ANTONIO VILLA - Acho que vai, pouco a pouco, habituando-se às novas tecnologias. Eu mesmo vou caminhando gradualmente. Mas a cada dia fico mais fascinado pelas facilidades no campo da pesquisa, pela possibilidade de trabalhar mais rápido, com mais qualidade. E poder escrever mais. Afinal, tem muito tema interessante para ser explorado e só vivemos uma vez.
Marco Antonio Villa - possui mestrado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (1989) e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (1993). Atualmente é professor da Universidade Federal de São Carlos. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Império e História do Brasil República.
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Comentário de Ilcéia de Oliveira Pinheiro em 25 fevereiro 2012 às 21:22 Certa vez Nietzche descreveu um homem cujo tema de estudo era "a orelha". Tratava-se de um especialista que de tanto exibir o seu tema de estudo ficou desfigurado: seu corpo havia encolhido enquanto a sua enorme orelha crescia e de nada mais ele sabia falar. Essa figura de linguagem utilizada por Nietzsche de certo modo endossa o parecer de Marco Vila sobre os historiadores especialistas. Gostei dessa colocação do professor, precisamos avançar e sair dessa limitação na academia.
Comentário de Karin Adami em 1 junho 2011 às 13:56 Excelente a entrevista...realmente os historiadores brasileiros não gostam de bibliotecas arquivos,inclusive na formação de bachareis não temos uma boa base(falo por mim)Talvez por que nossos professores também não tiveram,e acabam passando por cim..
Comentário de getulio miranda barbosa jr em 26 março 2011 às 14:35
Comentário de Thiago de Souto Lopes em 23 março 2011 às 21:11
Comentário de Maria Janaina Botelho Corrêa em 17 março 2011 às 22:57
Comentário de Fred em 9 janeiro 2011 às 22:56
Comentário de Vinicius AA em 2 fevereiro 2010 às 8:59 Bem-vindo (a) ao
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Somos tão jovens
Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.
Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.
© 2013 Criado por Bruno Leal.
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