Profissão: Professora de História
Professora desde 1977, no Rio de Janeiro, Selma Zalcamn conta ao Café História as dificuldades e prazeres de se dar aula de história para o Ensino Básico
Na entrevista deste mês, o Café História deixou um pouco o terreno da universidade e foi conferir o espaço das salas de aulas das escolas. Queríamos saber como andam as esolas brasileiras. Quais as dificuldades dos alunos? O que pensa o professor? Quais suas experiências mais positivas no ensino da História? O bate-papo foi com a professora de História Selma ZAlcam, que dá aulas desde 1977 em escolas do Rio de Janeiro. No entrevista, Zalcman conta sobre o desafio que é falar sobre o passado em um mundo que vive intensamente o presente, dentre outras questões, como dar aula dentro de instituições judaicas. Não perca!
CAFÉ HISTÓRIA - Olá Selma, é um prazer tê-la como entrevistada do Café História. Vamos começar nossa conversa não com a Selma professora de História. Mas a Selma aluna. Existe alguma lembrança especial dos tempos em que você sentava do outro lado da sala de aula? Como eram os seus antigos professores de História?
SELMA ZALCAM - Tenho lembranças muito boas de alguns professores de História como a Arlete Togashi e Otoni. Estudei no Anderson numa época em que havia o curso Clássico. As aulas de História, especialmente, eram de uma novidade enorme e traziam informações muito diferentes de tudo que eu conhecia.
CAFÉ HISTÓRIA - Atualmente, os estudantes estão imersos em um mundo de IPHONE, IPOD, MP3, Internet, enfim, um mundo bastante digitalizado, quer tenham acesso a esses bens de consumo ou não. Falar sobre História em sala de aula tornou-se mais difícil? Como o professor hoje deve discutir o passado em uma realidade tão fascinada com o próprio presente?
SELMA ZALCAM - As aulas de História hoje são um espaço para informações mais apuradas e de abertura de debates e idéias que podem ser transformadoras. O passado ainda é um assunto que, dependendo muitas vezes do professor, desperta a curiosidade de uma forma maravilhosa. Quando conseguimos trazer o passado para o presente da sala de aula e mostrar como existem relações entre os fatos, todos nós ficamos felizes e mais contemporâneos de nosso tempo.
CAFÉ HISTÓRIA - Além dos livros didáticos, você utiliza outros recursos em suas aulas? Existe alguma experiência como docente que você gostaria de contar? Sinta-se à vontade...
SELMA ZALCAM - Sempre que possível faço uso da Internet. São informações preciosas que temos disponíveis. Utilizo vídeos, documentos e esse ano muita literatura. Fiz uma experiência com a Biblioteca Virtual Camões (Portugal) com meus alunos de 6º ano. São livros sobre a história das navegações e conquistas portuguesas que podemos ler e também escutar a narração em português de Portugal. Pensei que eles iriam reclamar, mas o resultado foi dos melhores e aí incluo pais e responsáveis que participaram do trabalho em casa.
CAFÉ HISTÓRIA - Uma pesquisa recente da Fundação Getúlio Vargas apontou que quase 60% dos jovens não estão na escola pública porque não vêem sentido nesse modelo de escola que ai está. O que um professor deve (e pode) fazer para tentar mudar esse quadro?
SELMA ZALCAM - Minha experiência mostra que a realidade da escola realmente não combina com a realidade dos alunos que hoje estão na escola pública. Infelizmente ainda não tenho uma resposta para esta questão. O que tento fazer é trazer para o aluno as possibilidades que o estudo pode dar à ele. O que sempre mantenho com os alunos é um diálogo franco, aberto e muito carinhoso. O afeto é o grande trunfo que tenho e que mostra ao aluno a autoridade sem autoritarismo, os limites e contornos que muitas vezes eles só conhecem na escola.
CAFÉ HISTÓRIA - Fala-se muito hoje em interdisciplinaridade dentro da escola. Você tem visto isso acontecer? Porque é importante trabalhar conceitos como esse?
SELMA ZALCAM -A interdisciplinaridade torna os assuntos mais interessantes, mais abrangentes e mais completos. E é um grande exercício para o professor que precisa multiplicar sua visão sobre um assunto que ele só conhecia de uma forma. Quem sai ganhando com a interdisciplinaridade é o aluno que aprofunda os conhecimentos e se torna mais capaz de discernir sobre as questões.
CAFÉ HISTÓRIA - Voltemos ao universo da História. Você identifica alguma mudança no ensino de história nos últimos anos? Que conteúdos perderam força e que conteúdos são hoje mais contemplados pelo currículo escolar da disciplina?
SELMA ZALCAM - Deixamos de ter nomes e datas como a linha mestra e passamos a reflexão como o ponto crucial. Nem sei que pontos mudaram tanto porque sempre trabalhei de uma forma que achava correta, com muita interpretação de textos e documentos, trabalhos com mapas, plantas e portulanos e tudo que possa aproximar a História da humanidade da História dos meus humanos, os meus alunos.
CAFÉ HISTÓRIA - Judaísmo: Como é dar aula em uma escola judaica? Quais são as particularidades deste tipo de instituição. Existe uma outra relação com a História?
SELMA ZALCAM - Minha experiência com a escola judaica é muito particular. Leciono no Instituto de Tecnologia ORT onde um grande número de alunos não é judeu. Como quase todas as religiões estão presentes em sala de aula o exercício se torna muito interessante. O foco da História são os judeus e sua passagem pelo mundo; as características e particularidades de um grupo que sobrevive há tanto tempo mantendo sua individualidade mas sempre em processo de transformação. As relações com a História são mantidas sempre já que não podemos trabalhar um grupo isolado da sua realidade plena.
CAFÉ HISTÓRIA - Desinteresse do aluno, salários baixos, formação lacunar do professor, violência na escola, infra-estrutura comprometida. Essas são algumas das dificuldades enfrentadas por muitos professores brasileiros hoje. Para você, qual o maior obstáculo, hoje, para o desenvolvimento da educação no país?
SELMA ZALCAM - Vivemos num mundo onde o ser educado é uma ameaça constante. Alguém que saiba ler, escrever, interpretar e opinar coloca em risco uma sociedade pautada no vazio.
CAFÉ HISTÓRIA - Apesar de todos os problemas, escola é sobretudo sinônimo de coisa boa. Não pode sucumbir diante do desânimo e dos problemas. Qual a melhor coisa em ser professora, em especial, professora de história?
SELMA ZALCAM - É muito bom ser a parte que pode introduzir coisas novas e orientar os alunos em questões que muitas vezes só ocorrem em sala de aula.
CAFÉ HISTÓRIA - Chegamos ao fim de nossa entrevista. Você pode terminar esse bate-papo mandando alguma mensagem para todos os professores de história do Café História? O espaço é todo seu...
SELMA ZALCAM - Prazer. Quando o prazer de entrar em sala acaba, quando a curiosidade e o sorriso saem de cena, é hora de procurar outra coisa. Ser professor precisa combinar com ser feliz porque é uma profissão onde o outro existe muito próximo. A sala de aula é como um palco de teatro: a troca de energia existe, precisa ser constante.
Selma Zalcman é formada em História pela UFRJ e leciona desde 1977. Já trabalhou na rede municipal de ensino e hoje atua no Instituto de Tecnologia ORT, além das Escolas Eliezer Max e Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (ISERJ). Zalcman lecona especialmente com o sexto ano e Ensino Médio com História Geral, do Brasil e Judaica. Seus outros projetos incluem aulas de História Judaica na Congregação Judaica do Brasil, para alunos em processo de conversão. Selma Zalcman é também membro do Café História.
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Somos tão jovens
Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.
Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.
© 2013 Criado por Bruno Leal.
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