Arquivo Café História | Quando o Fascismo Estraga o Futebol

Quando o Fascismo Estraga o Futebol

Manifestações fascistas ganham cada vez mais adeptos no universo do futebol europeu e assustam muita gente que achava que este passado fora enterrado após a Segunda Guerra Mundial

No dia 15 de março de 2010, em rodada válida pelo campeonato italiano de futebol, o jogador argentino Mauri Zárate, do Lazio, causou polêmica ao saudar a torcida de sua equipe com um gesto fascista, realizado com o braço direito enquanto os times se aqueciam em campo. O jogador, que não pôde entrar em campo por ofender um árbitro, assistiu o jogo nas arquibancadas, próximo aos "ultras", torcedores de extremistas do Lazio. O incidente, porém, não figura como um caso isolado. Nos últimos anos, a relação entre partidos políticos de extrema-direita, grupos neonazistas e futebol vem se tornando cada vez mais estreita em vários países do velho continente, fazendo soar um preocupante alerta.

Recentemente, o próprio Lazio já protagonizara cena semelhante. Em 2005, também pelo campeonato italiano, o atacante Paolo Di Canio (foto), hoje aposentado, fora suspenso por fazer a mesma saudação fascista durante um jogo. Na época, o clube italiano (pelo qual torcia Benito Mussolini), fora multado porque seus torcedores "Ultras" haviam exibido símbolos fascistas e cantado músicas antissemitas nas arquibancadas. E os casos multiplicam-se por toda a Europa. Em 2006, autoridades austríacas denunciaram os torcedores do Branau por publicarem na internet foto na qual fazem saudação nazista. No mesmo ano, torcedores do Paris Sanit-German, da França, foram punidos por exibirem símbolos neonazistas em um jogo. Já em 2008, um árbitro relatou na súmula torcida do Betis de promover manifestações de apologia ao nazismo em jogo válido pelo Campeonato Espanhol. Somados aos casos crescentes de racismo no esporte, a FIFA, nos últimos dois anos, vem intensificando campanhas contra o problema. (Veja um histórico de notícias envolvendo fascismo e futebol clicando aqui)

O recente fenômeno levou um jornalista espanhol, de pseudônimo Antonio Salas, a publicar o livro “Diário de um Skinhead – Um infiltrado no movimento neonazista”, publicado no Brasil pela Editora Planeta, em 2006. No livro, Salas conta como conseguiu se infiltrar durante quase um ano no movimento neonazista skinhead.

Segundo o autor, os líderes neonazistas da Europa arrebanham jovens envolvendo-se com aquilo que eles mais gostam, como a música e o futebol. Passando-se por um skinhead, Salas foi a vários jogos de futebol do Campeonato Espanhol com a torcida “Ultrassur”, do Real Madrid, torcida do tipo “Ultra”, de orientação neonazista. Nos estádios, esses torcedores entoam músicas como “seis milhões de judeus na câmera de gás, seis milhões a mais...” (em alusão ao número de judeus mortos no Holocausto) e promovem episódios de violência contra estrangeiros que vão aos jogos. Um desses episódios é relatado por Salas. Dois irmãos navarreses foram espancados diante dele próximo ao Estádio do Real , o Santiago Bernabeu, em Madri, por um grupo de torcedores da Ultrassur.

A Ultrassur possui ligações diretas e indiretas com partidos políticos europeus de extrema-direita e até mesmo com algumas diretorias do Real Madrid, que já permitiram que faixas e outros objetos da torcida fossem guardados dentro do próprio estádio. No livro, Salas mostra que há cumplicidade até mesmo com os jogadores. Há fotos que mostram o ex-jogador do Real, o português Figo exibindo bandeiras e flâmulas da Ultrassur, bem como o atacante espanhol Raúl, venerado por suas atuações pelo Real e também pela seleção Espanhola.

Sabendo da importância desta discussão para os historiadores e demais leitores do Café História, preparamos algumas outras sugestões sobre o tema, na internet. Você pode assistir a um vídeo, feito em 2008 nas imediações do Estádio do Real Madrid, que mostra a torcida Ultrassur se manifestando (http://www.youtube.com/watch?v=eoo3y9GtAhY) ou ainda visitar o site dos "ultras" do Real Madrid: http://www.ultras-sur.es. Por fim, indicamos duas leituras: o artigo "Racismo no Futebol, trabalho de Adriano Lopes e Bruna Vieira da PUC-RJ" (http://www.dad.puc-rio.br/dad07/arquivos_downloads/49.pdf) e o livro "Diário de um Skinhead", anteriormente citado neste post. (http://www.editoraplaneta.com.br/descripcion_libro/2903)

No mais, o Café História posiciona-se contra o fascismo, o nazismo e toda e qualquer renovação destas idéias e paradigmas, bem como toda forma de preconceito e racismo, no futebol ou cultura. Posicione-se você também. Diga não ao racismo, ao preconceito e celebre o futebol da maneira que ele merece: com paz e respeito, dentro e fora dos estádios.

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