Arquivo Café História | Os "Arquivos do Terror"

Os Arquivos do Terror

Há quase vinte anos, o Paraguai descobria o maior acervo documental de uma ditadura militar na América do Sul. Saiba com foi esta descoberta e o que ela representa 

O Café História encerra com este artigo a série "Ditaduras Militares na América do Sul", publicada ao longo do mês de fevereiro de 2011. O especial contou não apenas com a publicação de artigos, mas também com a abertura de fóruns, sugestão de grupos de estudos, publicação de vídeos e uma palestra online e ao vivo com o historiador Carlos Fico, que abordou o tema da "Operação Brother Sam".

A última parte deste especial, que você acompanha a seguir, discute o chamado "Arquivo do Terror", nome dado aos arquivos da repressão da ditadura de Alfredo Stroessner, no Paraguai, encontrados em 1992. Símbolo positivo da transição democrática paraguaia, o "Arquivo do Terror" é um patrimônio político, histórico e jurídico e que muito significa para os recentes avanços democráticos na América do Sul. Confira a matéria e continue participando das discussões sobre o assunto.

Um achado histórico

Era uma manhã do dia 22 de dezembro quando o juiz José Agustín Fernandez, investido de seus poderes, ordenou a abertura de uma dependência policial localizada em Lambaré, cidade a 20 quilômetros de Assunção, capital do Paraguai. O juiz Fernandez estava ali para fazer cumprir a lei “habeas data”, solicitada pelo advogado Martín Almada, desejoso de saber detalhes sobre a morte de sua esposa, a educadora Celestina Perez, e das acusações que o colocaram preso entre 1974 e 1977. O habeas data assegura o direito de toda pessoa ter acesso a informação e aos dados sobre si mesma. Para espanto dos presentes, porém, quando a porta da dependência policial de Lambaré foi aberta, não foi apenas o habeas data de Almada que seria contemplado, mas o de milhares de pessoas. Naquele lugar estavam empilhados, do chão ao teto, milhares de papéis,cadernos, fichas, dossiês e outros documentos oficiais produzidos pelas autoridades paraguaias ao longo de mais de três décadas de ditadura militar no país. Em pouco tempo o lugar se encheu de jornalistas, fotógrafos e curiosos de todos os cantos que, incrédulos, encaravam aquilo que, em alguns dias, ficaria conhecido no Paraguai e no mundo inteiro como “Os Arquivos do Terror”.

A descoberta não havia sido acidental. Alguns dias antes, depois de tentativas frustradas de Almada em descobrir informações pessoais (e que a Polícia dizia desconhecer), o advogado recebeu o telefonema de uma mulher, esposa de um policial. Ela contou a Almada onde estavam seus arquivos e este, por sua vez, pediu a intervenção do juiz Fernandes, que cuidava de seu pedido. O desfecho foi o achado histórico em Lambaré, que rapidamente se transformou em um espetáculo midiático e comoveu o país.

E não era para menos. O conjunto de documentos encontrados naquela dependência tinha um valor inestimável: havia ali, por exemplo, fichas policiais que as autoridades paraguaias negavam ou juravam desconhecer, uma quantidade interminável de documentos que em breve ajudariam a colocar muitas pessoas na prisão e traria alívio a famílias inteiras.

Depois de alguns anos de trabalho, os arquivos foram cuidados e organizados. No total, a população paraguaia tinha em mãos 320 mil documentos, fotos e registros recolhidos ao longo dos 35 anos da ditadura do general Alfredo Stroessner. São fichas policiais, listas de entradas e saídas de presos, notas do chefe de investigações, informes confidenciais, controle de partidos políticos, publicações periódicas, listas de suspeitos, informações sobre agremiações e grupos considerados subversivos, controle de sindicatos e objetos como livros e cédulas de identidade. Os investigadores, então, de posse do novo material, fizeram vários estudos e descobertas na última década. Uma das mais importantes foi a comprovação da chamada Operação Condor, que durante muito tempo não passou de uma suspeita dos historiadores. Em síntese, a Operação Condor era a aliança político-militar estabelecida a partir da década de 1970 entre regimes militares da América do Sul, mais especificamente de Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai. Os arquivos encontrados no Paraguai comprovavam a ligação entre os regimes autoritários na investigação de organizações e pessoas que ultrapassavam mais de uma fronteira.

Um país com suas peculiaridades

Os “Arquivos do Terror” representam hoje o maior acervo documental de uma ditadura na América do Sul. Ao contrário de outros países, que ainda engatinham quando o assunto é a abertura dos “arquivos sensíveis”, o Paraguai possui a quase totalidade dos documentos produzidos pela ditadura. Quase nada foi destruído, mesmo após o fim da ditadura de Stroessner e o período da transição democrática. Talvez pelo fato de a polícia acreditar que eles ainda pudessem ser valiosos no futuro. No entanto, para se compreender esta particularidade do Paraguai em relação aos outros países sul-americanos no tocante aos arquivos da ditadura é preciso conhecer as peculiaridades que a ditadura paraguaia em geral possui em relação as suas “co-irmãs dos trópicos”.

O jornalista, médico e pesquisador Alfredo Boccia Paz, em seu revelador artigo “Los Archivos del horror” del Paraguay: los papelos que resignificaram La memória del stronismo” (Ditadura e Democracia na América Latina, FGV e UFRJ, 2005) ajuda a desvendar que Paraguai é esse. Para Paz, o país possui três singularidades. A primeira diz respeito ao começo da ditadura de Strossner, em 1954, ou seja, muitos anos antes das ditaduras nos demais países do continente, e também ao seu término, em 1989, depois de quase todas as outras ditaduras sul-americanas, com exceção do Chile (1990). A segunda singularidade seria o fato de a ditadura de Stroessner simplesmente ter sucedido outros regimes autoritários que a precederam. A sociedade paraguaia vinha de um longo tempo sem instituições democráticas consolidadas, o que produzia, conta Paz, uma baixa participação cívica nos assuntos políticos do país. Já a terceira característica ressaltada pelo jornalista, articulista do jornal paraguaio “Ultima Hora”, é a fachada institucional que Strossner mantinha, uma aparente normalidade democrática, haja vista que a ditadura no Paraguai, embora tivesse à sua frente um militar personalista, sempre foi candidato e contou com o apoio basilar do Partido Colorado.

Paz lembra também que não foi apenas a pressão popular que terminou com a ditadura de Strossner, mas sim um golpe de estado comandado por um outro militar, o general Andrés Rodrígues, um dos homens fortes do regime. Assim, embora Strossner tivesse sido deposto (vindo a exilar-se em Brasília, onde morou até morrer, em 2006), o sistema político no Paraguai não havia mudado. O Partido Colorado continuva forte, emplacando seus candidatos, como se nada houvesse acontecido. Neste sentido, fica mais fácil compreender porque os arquivos da ditadura não foram eliminados.

Acesso livre

Felizmente, a descoberta dos “Arquivos do Terror” ajudaram a mudar a mentalidade política dos paraguaios, que passaram a ter provas irrefutáveis de 35 anos de regresso político, de tortura, censura, vigilância e abusos de autoridade. Eles ajudaram a colocar na cadeia várias pessoas, desmistificaram Strossner e revelaram um lado do Paraguai que muitos consideravam falso ou, pelo menos, exagerado. Hoje, os arquivos encontrados em 1992 estão abertos a todos os paraguaios, bem organizados, protegidos e, nos últimos anos, acessíveis também a quase todos no mundo. Isso, porque, em 2007, boa parte dos 320 mil documentos do acervo foi digitalizado e colocado disponibilizado na internet, através do site http://www.aladin0.wrlc.org/gsdl/collect/terror/terror_s.shtml. A iniciativa é resultado de um acordo entre o Arquivo de Segurança Nacional, um dos centros de documentação histórica mais importantes e ativos dos EUA, o Centro de Documentação e Arquivo para a Defesa dos Direitos Humanos (CDyA, na sigla em espanhol) da Suprema Corte do Paraguai e a Universidade Católica de Assunção.
Ao todo são mais de 60.000 documentos que ajudam a contar uma parte importante da história do Paraguai e também dos trágicos caminhos que América do Sul tomou no vertiginoso século XX. Acesse e confira você mesmo essa história.

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Comentário de Leonardo Mendes Barbosa em 25 janeiro 2012 às 16:29

Excelente artigo!!!

Comentário de Elio Ramires Garcia em 25 janeiro 2012 às 12:56

Olá, Clara!

Gostaria, também, de conhecer o seu trabalho.

helioramiresgarcia@hotmail.com

Muito grato!!

Comentário de Elio Ramires Garcia em 25 janeiro 2012 às 12:53

Lamentavelmente, aqui no Brasil mal começamos a engatinhar na questão da abertura dos arquivos da ditadura. Com escassissimas esperanças, estimo que a chamada Comissão da Verdade produza avanços neste campo. Naturalmente que devemos considerar nossa situação como resultante de determinadas circunstâncias históricas no geral e, no particular, do modelo de transição fardada que tivemos.

Comentário de Karina Soares Dos Santos em 24 abril 2011 às 13:58

Adoraria ler sua monografia, Clara.

aqui está o meu email: karinasoares1411@hotmail.com

Artigo explendido

Comentário de Rosangela Ferreira em 25 março 2011 às 0:42

Nossa Clara, muito bom, adoraria ter acesso a sua monografia...se puder me enviar ficarei muito grata!!!!

rosangel.joao@hotmail.com

Comentário de Moacir Jose Cardoso em 23 março 2011 às 18:26
As descobertas são denatureza significativas. Ajudam a compreender melhor os acontecimentos do passado e nos ajudam a entender melhor o presente.So assim será possivel fazer historia.
Comentário de FÁTIMA em 20 março 2011 às 22:19
Será que um dia teremos a mesma oportunidade aqui no Brasil?...Acho pouco provável, penso que muita coisa já foi destruída!!!
Comentário de Andrea guanais Bezerra em 18 março 2011 às 13:28
Não consigo ter acessso aos documentos pelo site citado no artigo! vou tentando mas quem Tiver uma dica me fala por favor, gostaria de saber mais sobre a operação condor>
Comentário de Andrea guanais Bezerra em 17 março 2011 às 21:31
Muito bom este artigo, informativo e bem escrito. Bom material de estudo!
Comentário de DORVAL FAGUNDES FURTADO JUNIOR em 15 março 2011 às 21:57
Hum, por favor, Clara, também fiquei muito curioso pra ler sua monografia, só que não sabia que poderia colocar meu e-mail pessoal aqui, pensei que infrigiria as regras do blog, mas vamos lá: dorvalfagundes@hotmail.com. Abração, fica com Deus!

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