Arquivo Café História | Entre cantos e chibatas

Entre cantos e chibatas

É com este título que o blog do Instituto Moreira Salles apresenta uma série de fotografias que retrata o lugar do negro na sociedade brasileira do século XIX. O acervo, já disponível para os internautas, conta ainda com uma análise em áudio da antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz

O Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio de Janeiro, acaba de publicar em seu site um material visual praticamente inédito e que certamente despertará o interesse dos pesquisadores da história da escravidão no país. Trata-se de um conjunto de imagens que retratam o negro na sociedade brasileira do século XIX. São imagens que revelam a cosmologia da sociedade brasileira da época: escravidão, assimilação cultural, religiosidade, trabalho, trocas culturais e muitos outros aspectos históricos imanentes deste tipo de registro.

O acervo é tão surpreendentemente rico, que o blog do IMS convidou a antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz para analisar as fotografias, pertencentes ao próprio acervo do Instituto. Em ótimo estado de conservação, as imagens são reveladoras de diversos aspectos sociais do século XIX brasileiro. No entanto, não é apenas a realidade enquadrada que chama a atenção. O olhar do fotógrafo também reflete uma intenção. Segundo o site do IMS, as fotos revelam as "contradições de um período em que o Brasil teve fotógrafos de objetivos distintos, que vão da criação de uma imagem apaziguadora da escravidão ao levantamento amplo das diferentes funções dos escravos até a Abolição".

No site, é possível conferir dezenas de fotografias. Elas encontram-se divididas em quatro blocos temáticos e tendo ao fundo o áudio analítico de Lilia Schwarcz . O primeiro bloco, chamado de "Deuses e mucamas", a historiadora observa as semelhanças e disparidades nas imagens capturadas ao ar livre ou em ateliê. O que está em jogo é a montagem da cena: o enquadramento, os gestos, o vestuário, o penteado, as poses. Tudo faz parte de uma direção nem um pouco aleatória. Tais registros obedeciam a um ou mais objetivos. Muitos são conhecidos, outros nunca o serão. Já no segundo bloco, "O eito e a casa grande", estão presentes fotos de Augusto Stahl, G. Gaensly e R. Lindemann, Georges Leuzinger, Henschel & Benque. Lilia Schwarcz analisa como é notável como os retratos da mulher e do homem escravos são distintos. Os homens aparecem mais vinculados ao trabalho, enquanto as mulheres encontram representação mais variada por causa da domesticidade. As vestes são determinantes da relação com o senhor branco. Nos retratos de tipos exóticos, vê-se que são apartados da casa grande; nos de negros domesticados, que são incluídos.

No bloco 3, chamado de "Tipologia e encenação", um dos mais interessantes, há uma série de fotos do famoso fotógrafo Marc Ferrez. Conforme explica Schwarcz, esses negros são retratados não apenas como trabalhadores da lavoura, mas como parte de um universo mais particularista. É possível observar nestas fotos uma grande falta de naturalidade. Por fim, é notável a apresentação do bloco 4, "o negro pitoresco". No último bloco, Lilia Schwarcz reflete sobre o conjunto de imagens depois de apontar, em três imagens de Victor Frond dos anos de 1858 e 1859, uma composição que nitidamente serve para levar ao estrangeiro a imagem de uma escravidão amena – como se, embora ainda perdurasse no Brasil, a escravidão não fosse de todo negativa.

Clique aqui para conferir as quatro apresentações e veja porque este belo trabalho de divulgação do Instituto Moreira Salles merece atenção daqueles que pesquisam as múltiplas formas de escrita da história.

Foto: Negra com criança branca presa às costas, C.1870, Bahia. Instituto Moreira Salles.


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Comentário de pedro fernando olveira da silva em 14 março 2012 às 10:42

muito interessante retrata bem o periodo de exploração na nossa curta história.

Comentário de edna moura em 5 outubro 2011 às 20:43
Fascinante, muito bom. Os afro-descendentes merecem a atenção que a sociedade está dando. Mas, infelismente ainda há um forte preconceito. Ainda que não adimita-se.
Comentário de lais oliveira pontes em 10 maio 2011 às 12:57
interessante pois imagens falam mais do que palavras , e não se tem muitas fotos de escravidão ,e não se dá muita ênfase a assuntos relacionados á escravidão no Brasil , parece que querem maquiar ou esquecer esse período que até hoje ainda se tem resquicios e ainda há muito preconceito .
Comentário de André Bueno Belo em 6 maio 2011 às 6:14

O material é riquíssimo para ser trabalhado em sala de aula. Deveria ser disponibilizado para escolas públicas e particulares de ensino fundamental e médio. A escravidão é um dos assuntos em que os alunos mais se envolvem e permite bons resultados em sala de aula. Fica sugestão. 

 

Comentário de Thaìs Lombardi Cardoso em 5 maio 2011 às 8:00
Muito interessante vale a pena conferir
Comentário de Neusa Maria Pereira em 4 maio 2011 às 22:04

 

 Parabens pela ótima narração da historiadora Lilia, as fotos com cenários naturais encantou-me e a beleza da do conhecimento que acabo de ter.

Comentário de Dani Durante em 3 maio 2011 às 16:51
A análise das fotografia por Schwarcz são excelentes! vale a pena conferir o blog...
Comentário de Herson Conceição em 3 maio 2011 às 7:54
Goastei muito do comentário de Domingos (abaixo).Realmente A Revolta da Chibata è praticamente desconhecida na sociedade brasileira.Paulo Granato tem um livro muito interessante e uma das poucas tentativas de trazer a luz tal acontecimento histórico emanado por representantes realmente oprimidos.Evento tal, que até então é intencionalmente deixado à margem dos estudos históricos e não adentra a sala de aula das escolas.
Comentário de Herson Conceição em 3 maio 2011 às 7:45

Goatei muito da reportagem.Realmente é muito importante resgatarmos estas imagens de um aépoca  que parece estar longe em termos cronológicos, mas a realidade é que ainda vivemos reflexos primários daquele contexto.

 

Parabéns!!!!

Comentário de michelle gomes siqueira em 3 maio 2011 às 7:31
Muito interessante esse resgate da história do negro, bem como o olhar da comentarista Lilia, fascinante!!!!!!!

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