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Historiador em tempo de Cultura

O crescimento da História Cultural nas últimas décadas colocou na pauta dos historiadores assuntos antes renegados pela historiografia, como a cultura pop, o samba ou ainda o estudo dos símbolos modernos. Saiba mais sobre esse universo de temas da nova historiografia

Os estudos históricos sobre cultura não são exatamente uma novidade para nós do século XXII. Ainda no século XIX, o historiador suíço Jacob Burckardt desenvolveu trabalhos brilhantes acerca do renascimento. No entanto, foi somente a partir da década de 1970, que os aspectos culturais do comportamento humano deixaram de ser secundários e começaram a se tornar o centro privilegiado do conhecimento histórico. Chamou-se essa mudança paradigmática de “virada cultural”. Desde então, a historiografia nunca mais foi o mesma.

A mudança, pode-se dizer, foi para melhor. Até aquele momento, a história era bastante dominada por esquemas teóricos generalizantes que valorizavam grupos particulares. Era vista como uma grande narrativa da qual pouco ou quase nada podia escapar. Era a história dos “grandes territórios”.

Nos últimos quarenta anos, a História Cultural cresceu, prosperou e hoje instiga historiadores de todo o mundo a produzirem trabalhos de excelência sobre gênero, formação de memórias, minorias étnicas e religiosas, hábitos, costumes, laços identitários e o que mais integrar o vasto universo do cultural nas sociedades humanas. Foi no bojo dessas transformações que a historiografia descobriu diversos temas até então renegados ao silenciamento ou condenados ao isolamento.

É o caso da cultura pop, da simbologia, assuntos estudados hoje não só por historiadores, mas também por pesquisadores da área da comunicação social; do desenvolvimento dos signos nas sociedades antigas, dos diversos elementos da cultura de massa ou da cultura “pop” no século XX. É o caso ainda de crendices pertencentes a cultura popular, do medo da morte ou ainda do medo do desconhecido, como é o caso da vida após a morte e de elementos que habitam o sempre polêmico conceito de “imaginário social”.

É claro que há problemas. Um deles, talvez um dos mais difíceis de lidar, seja o fato de que muitos desses temas ainda se encontrem no senso comum associados a ocultismo, numerologia, espiritualidade, teorias conspiratórias, enfim, estereótipos, arquétipos e simplificações que estão muito distantes do universo normativo dos historiadores. O crescimento da internet ajudou bastante na proliferação de todo tipo de discurso caricaturado de muitos desses temas. Nesse contexto, os símbolos são quase sempre vistos apenas como parte de um universo de ocultismo, de espiritualidade, associados a conspirações e mensagens subliminares e não como uma linguagem construída desde a antiguidade até o cotidiano contemporâneo, um processo de comunicação construído socialmente e que dá inteligibilidade ao mundo.

Mas, apesar destas dificuldades, a nova gama de questões inerentes à história cultural vem conseguindo romper com preconceitos e com os discursos sensacionalistas. Prova disso é a quantidade de boas obras do gênero que surgem nas universidades. Uma dessas obras é livro “Pedalando na Modernidade: a bicicleta e o ciclismo na transição do século XIX para o XX”, de André Maia Schetino. Nesta obra, lançada recentemente pela editora Apicuri, o autor explica como a bicicleta gerou uma prática ao seu redor, o ciclismo, no contexto de construção do ideário de modernidade. Na pesquisa, Schetino realizou uma vasta pesquisa, descobriu uma outra relação Brasil-França que até pouco tempo atrás não seria possível deduzir a partir de fontes tradicionais. Além disso, é preciso citar o original "Dicionário de Simbologia", escrito por Manfred Lurker, que se propõe a explorar temas vastíssimos como ressurreição, fertilidade, poder, vida, triunfo e outros tantos que compõem não só o terreno do historiador dos costumes contemporâneos quanto também do antropólogo.

Gostou do assunto? O Café História realizou uma pesquisa e indica alguns conteúdos que podem lhe ajudar a compreender um pouco mais dos novos ares trazidos pela História Cultural nas últimas décadas.

Primeiro o artigo de André Maia Schetino e Vcitor Andrade de Melo, “A bicicleta, o ciclismo e as mulheres na transição dos séculos XIX..., que deve agradar bastante àqueles que se interessara pelo livro há pouco citado. "Desde que o samba é samba: a questão das origens no debate histori..., de Marco Napolitano e Maria Clara Wasseman também é um artigo que vale a pena ser lido. Há ainda o Vídeo "História Cultural - Teoria e Historiografia", da Universidade Aberta do Brasil, que você confere clicando aqui. Por fim, é leitura obrigatória o livro “O que é História Cultural”, do historiador inglês Peter Burke, considerado hoje o maior expoente da História Cultural. Na página principal, você encontra esse livro a venda no site submarino.

Se você quer discutir ainda mais sobre este tema, crie um fórum, publique uma mensagem em seu blog no Café História. Seja mais do que nunca um historiador em tempo de cultura.

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Comentário de silvana barbosa moura fagundes em 5 agosto 2012 às 7:10

  A História Cultural democratizou o ensino da História.Quando aliamos os conteúdos do currículo escolar com a História cultural os alunos demonstram  mais interesse no processo ensino/aprendizagem.Resgatar a chamada micro história e somar conhecimentos ajuda a desmistificar aquela coisa de História enquanto matéria chata, de longas explicações, sem uma interação necessária ao processo de reflexão.

Excelente texto

Comentário de FLÁVIA CRISTINA em 29 junho 2011 às 9:02

 

 Blog "História Cultural" http://historiadoraflavia.blogspot.com/

 SIGA O MEU BLOG

Comentário de FLÁVIA CRISTINA em 28 junho 2011 às 19:52

 

 Adorei o artigo!! Conheça o meu blog sobre a História Cultural do município de São João da Barra- Rj. O município que está sendo construído Mega Porto do Açu. Criei o blog para divulgar e preservar a rica Cultura de São João da Barra.

Comentário de Almir Ferreira em 9 agosto 2010 às 21:29
o alargamento do campo de pesquisa e de objetos do historiador são sempre bem vindos, mas vamos devagar com o andor... Muita gente classifica seu trabalho como "cultural" como se isso por si só fosse um selo de qualidade. Não devemos desconsiderar outras abordagens consagradas, como se a história tivesse sido inventada ontem.
Comentário de Davi Borges em 9 agosto 2010 às 19:59
Muito bom esse artigo. Sem duvida a Historia Cultural foi um divisor dentro da historiografia dando mais ênfase a assuntos desprezados.
Comentário de Márcia Cristina Souza Melo em 6 agosto 2010 às 20:23
Olá, História Cultural.....é o eixo da história muito prazeiroso para se estudar e nos deixa sempre um gostinho de quero mais. Muito bom!!!!
Comentário de Alex Oestreich de Mello em 6 agosto 2010 às 3:08
Eu tenho um gosto muito especial pela história cultural, acho que ela... assim como a micro-história, cumpre um papel muito importante. Que é preencher as lacunas que a "historiografia oficial" ainda não conseguiu. Trazendo a tona novas perspectivas de estudo e entendimento histórico a partir do estudo das culturas, religiões, expressões sociais, símbolos, a cultura em geral. Bem como evidenciar, dando protagonismo a novos atores desse processo.
Tornando o estudo da História cada vez mais completo!
Comentário de Julio Cesar Braga em 5 agosto 2010 às 13:45
A história Cultural abriu um grande leque para nós pesquisadores. A cidade tornou um dos maiores pratos a saborear, como diz nossa falecida amiga SANDRA PESAVENTO, temos que retirar as várias "escamas" que uma cidade possui e redescobrir sua História. Sou louco pela historia das cidades e suas vilas, principalmente as operárias.

UM ABRAÇO A TODOS

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