Arquivo Café História - Francesco Matarazzo: Imperador do Brasil

Francesco Matarazzo: Imperador do Brasil 

Diferente de muitos outros imigrantes italianos, o Conde Matarazzo tinha experiência comercial e dinheiro quando chegou ao Brasil. O resultado foi um dos maiores impérios econômicos já construídos no país

No final do século XIX e início do XX, as fábricas brasileiras foram amplamente beneficiadas pelo grande número de imigrantes europeus que chegavam ao país. Em 1893, por exemplo, os estrangeiros representavam 68% da mão-de-obra empregada nas indústrias paulistas. Em números brutos, historiadores calculam que entre 1872 e 1939 entraram no Brasil quase cinco milhões de imigrantes. No entanto, os operários braçais não são os únicos que se destacam no retrato da incipiente indústria brasileira. Os empresários também. E um deles merece atenção especial. Seu nome é Francesco Matarazzo.

Encontrar estrangeiros liderando indústrias não era bem um faro raro na época. De acordo com dados da Fundação Getúlio Vargas, em 1920, 64% das indústrias paulistas eram controladas por imigrantes, a maior parte europeus. Mas a proeza de Matarazzo parece ter sido a maior de todas. O italiano chegou ao Brasil em 1881, com 27 anos e a razoável quantia de 30.000 dólares no bolso. Acompanhado de sua mulher e dois filhos pequenos, Matarazzo deixara a Itália pelo mesmo motivo da maioria dos milhares de outros italianos: a grave crise econômica que assolava a Itália, particularmente a região sul. Aqui instalado, Matarazzo teve sucesso em praticamente tudo em que investiu. 

Encontrando uma economia em plena formação, na qual quase todos os bens de consumo eram importados, o italiano cresceu rapidamente. Começou como mascate e dono de uma venda em Sorocaba, interior de São Paulo. Em pouco tempo, montara um armazém e uma pequena fábrica para enlatar banha. O negócio era inédito e rendeu bons frutos. Seguiram-se, então, uma fábrica de óleo, uma tecelagem, uma fiação e uma estamparia. O período da Primeira Guerra Mundial veio apenas a fortalecer o incipiente patrimônio de Matarazzo. 

Em 2004, o economista e doutor em História pela Sorbone, Ronaldo Costa Couto, publicou dois volumes de uma biografia sobre Matarazzo, resultado de seis anos de pesquisas e mais de 150 entrevistas, no Brasil e na Itália. Os números da obra revelam cifras impressionantes. No ápice, as indústrias de Matarazzo chegaram a empregar mais de 300.000 pessoas e a produzir produtos diversos, como açúcar, tintas, velas e até sanitários.

Em 1920, o empresário alcance chegou a construir um Parque Industrial no qual reunia a maioria de suas fábricas em um só terreno de 100.000 metros quadrados na capital paulista. Ele ainda detinha filiais na Itália, na Argentina e nos Estados Unidos.

Segundo Couto, Francesco Matarazzo deixou, ao morrer, em dezembro de 1937, um patrimônio avaliado em cerca de US$ 20 bilhões de dólares, com juros e cotações atuais. Para efeito de comparação, a última relação das pessoas mais ricas do mundo, pela revista Forbes, possui 793 nomes. Se estivesse vivo hoje, Matarazzo estaria empatado com o Príncipe Alwaleed Bin Talal Alsaud, da Arábia Saudita em um respeitável oitavo lugar. Certamente, não foi apenas o momento econômico brasileiro o responsável pelo sucesso de Matarazzo.

Além de um grande talento para os negócios, o industrial já tratava de negócios na Itália, embora de pequenos portes, antes de chegar a terras brasileiras, uma realidade bem diferente da maior parte dos italianos que desembarcavam no Brasil. Matarazzo teve ainda a possibilidade de estudar e juntar um montante antes de vir ao Brasil. Não era um empreendedor dos mais inovadores, mas sabia identificar as lacunas do mercado, em cima das quais trabalhava. E trabalhava com bastante dedicação. Fazia questão de visitar todas as suas instalações e esbanjava boa memória, a ponto de saber localizar pequenas peças em suas fábricas. Os pontos controvertidos de sua biografia ficam por conta de sua simpatia pelo fascismo. Há fontes, inclusive, que atestam que ele contribuiu financeiramente para grupos fascistas brasileiros.

Entretanto, controvérsias à parte, Matarazzo ainda é lembrado hoje pela imensidão de seu Império. Império este que ajudou a consolidar o parque industrial brasileiro e a movimentar a economia brasileira. Em São Paulo, por exemplo, é nome de uma das principais avenidas do Estado, a Avenida Francesco Matarazzo. É também nome de escola do SENAI, de um hospital, além de praças e outras construções. Quer saber mais sobre o tema? O Café História sugere duas leituras: As industrias Matarazzo no interior paulista : arquitetura fabril e... e a biografia do conde italiano.

Imagem: Praça Souza Aranha, Barra Funda, SP.

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Comentário de Lucienne Soares Lima em 23 março 2013 às 14:11

Um texto muito interesante.Sem dúvida uma fonte de pesquisa e estudo sobre a industrialização no Brasil na primeira metade do século XX. Porém, os pontos ditos controvertidos seriam esclarecidos se a matéria esclarecesse as condições de trabalho no interior das fábricas Matarazzo.

Comentário de Sophia Cristina em 21 março 2013 às 16:48

Realmente aqui no interior paulista foi uma grande empresa que motivou o crescimento .Foi um grande império.

Comentário de Arnaldo Moreno em 19 março 2013 às 12:59

realmente homem de grande talento, pena que os herdeiros destruíram todo o seu império..

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