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Azeredo da Silveira – Um depoimento

Os bastidores da política externa brasileira no apogeu do regime militar brasileiro, contado pelo seu principal articulador: o Ministro Azeredo da Silveira

No texto de apresentação de "Azeredo da Silveira - Depoimentos", lançado em finais de 2010 pela Editora FGV, o organizador do livro, o professor Matias Spektor, afirma que Silveira “teve o impacto de um furacão dentro do Itamaraty”. As palavras do atual coordenador do Centro de Relações Internacionais da FGV-RJ fazem muito sentido. Nos cinco anos em que comandou o Ministério das Relações Exteriores do General Geisel (1974-1979), Azeredo da Silveira foi o responsável por grandes mudanças no Itamaraty: refez alianças com o mundo comunista, lidou de igual para igual com os Estados Unidos, minou a hegemonia da Argentina na América do Sul, recheou seu ministério com jovens diplomatas e, a partir de outras de outras importantes ações políticas no cenário internacional, gravou seu nome na história do Brasil contemporâneo.

“Azeredo da Silveira - Depoimentos” é a transcrição de um depoimento inédito de Azeredo dado entre 1979 e 1982 às professores Maria Regina Soares de Lima e Monica Hirst. O material havia ficado bastante tempo fechado para pesquisa, mas acabou sendo recuperado por Spektor e plasmado nesta obra que já se tornou uma referência interdisciplinar nas ciências humanas. O livro é narrado pelo próprio Azeredo, que conta sua trajetória e suas idéias, indo desde os primeiros anos como funcionário do Itamaraty até o seu auge profissional e intelectual, durante os anos em que ocupou o cargo máximo do MRE.

Antes de se tornar Ministro, Silveira acumulou uma experiência significativa no exterior. Ainda jovem estudou em São Francisco, Estados Unidos. Nos primeiros anos no Itamaraty, atuou em Havana, Cuba, entre 1945 e 1949, e também em Buenos Aires, na Argentina, entre 1949 e 1950. Em fins dos anos 1950 foi convidado para liderar uma reforma no MRE e também assumiu o posto de cônsul-geral em Paris. Após o Golpe Militar de 1964, atuou em Genebra, chefiou o Comitê de Coordenação dos Países em Desenvolvimento e coordenou várias representações brasileiras no mundo. Em 1969, Silveira foi nomeado por Costa e Silva como Embaixador na Argentina. Permaneceu no cargo até 1974, quando o General Geisel lhe fez Ministro das Relações Exteriores do Brasil.

Nos cinco anos que foi ministro (1974-1979), Azeredo implementou no Itamaraty uma postura bastante inovadora. O próprio Matias Spektor enumera algumas das principais medidas tomadas por Brasília em sua política externa tendo Azeredo à frente: abandonou o alinhamento com Portugal no tocante às questões coloniais, reconhecendo a independência dos países africanos de língua portuguesa, trocou o apoio de Israel por uma política de aproximação com os países árabes no Oriente Médio, reconheceu a China Comunista de Maio, isolou a Argentina para projetar o Brasil na América do Sul e operou uma negociação em segredo com a Alemanha Ocidental no tocante à transferência de tecnologia nuclear. Por outro lado, é preciso salientar, Brasília não chegou a romper com regimes altamente contestados, como é o caso do Chile de Pinochet, com quem Azeredo manteve relações amistosas. Em cada um desses momentos, Azeredo apostava em sua filosofia de que “política eterna é a projeção dos interesses nacionais”. Em um capítulo do livro, quando perguntado sobre a relação entre política externa e política interna, Azeredo explica: “A política interna é muito mais do forno para boca. É uma política onde os episódios provocam reações emocionais, que podem ter conseqüências enormes em determinadas circunstâncias. Por isso, os objetivos da política interna aparentemente são muito mais dinâmicos. (...) Em política externa, o tempo é diferente, uma vez que o país tem certos interesses permanentes. E esses interesses são quase todos interligados. Há também uma noção de soberania, essa sim flexível e que muda de objetivo. Foi com tais conceitos que Azeredo consolidou a linha chamada de “pragmatismo responsável” na forma de levar a política externa de Brasília.

O livro conta com uma organização que merece aplausos. Além de seus 13 capítulos, há seções de cronologia, personagens, bibliografia e índice onomástico, além de fotos do período abordado. Na internet, o livro conta também com o apoio de um site bem interessante (http://silveiradepoimento.com.br/site/), onde podem ser encontrados áudios, vídeos e textos exclusivos. Enfim, um livro completo, imprescindível para compreender um momento importante da história nacional.

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Comentário de ROMEU BEZERRA em 17 abril 2011 às 19:49
Interessa a presente leitura para a compreensão do fosso a que os Direitos Humanos no Brasil foram jogados, a partir das mudanças de perspectiva da soberania, em que pese o interesse nacional do país, que sempre maculam os anseios das pessoas em torno do Direito Internacional. O que aqui reafirmar é que os Direitos Humanos precisam ser continuamente reafirmados e não achar que o que está posto através de Declarações (de intenções somente!) já o temos em sua plenitude.

Atenciosamente,

Romeu Bezerra
Manaus-Amazonas

Máster en Cuestiones Contemporáneas en Derechos Humanos pela Universidad Pablo de Olavide (Espanha)

Licenciado em História

Especialista em Política de Segurança Pública

café história acadêmico

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