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Arquivo Café com Prosa | Tesouros do Castelo |Carlos Kessel

“Tesouros do Morro do Castelo”

Carlos Kessel

Histórias de tesouros escondidos em câmaras subterrâneas e só achados mediante uma passagem secreta sempre povoaram o imaginário infantil. Afinal, quando criança, quem nunca ouviu ou se interessou por um mapa amarelado com um xis que marca o local exato do tesouro?

Em “Tesouros do Morro do Castelo – Mistério e história nos subterrâneos do Rio de Janeiro”, lançado recentemente pela Jorge Zahar Editor, o historiador carioca Carlos Kessel narra o fascínio que por muito tempo o antigo Morro do Castelo, no centro do Rio de Janeiro, exerceu sobre a cidade e sua população. Através de um texto leve, inspirado por documentação inédita, Kessel traz à tona uma velha história do Rio de Janeiro, que poucos conhecem hoje: a dos supostos tesouros Jesuítas escondidos na cidade. E nessa história, não foram apenas crianças as interessadas, mas indivíduos de todas as idades e origens sociais.

Arquiteto de formação, Kessel já havia destinado boa parte de suas pesquisas ao episódio da demolição do Morro do Castelo, nos anos de 1920. Em meio a suas pesquisas, acabou descobrindo documentos que davam conta de uma mítica história a respeito de tesouros enterrados no Morro do Castelo. Anos depois, esses documentos dariam origem ao livro em questão.

O Morro do Castelo localizava-se no terreno que fazia parte das sesmarias concedidas aos jesuítas na cidade. Ocupava uma área de 184.800 metros quadrados. Foram construídos no alto de sua colina uma Igreja, a Fortaleza ou Castelo de São Sebastião e o Colégio dos Jesuítas.

Os Jesuítas prosperaram no Brasil por um longo período, reunindo muitas riquezas materiais. Mas nas primeiras décadas do século XVII, como sabemos, essa sorte mudou. Nessa época, conta Kessel, os Jesuítas já eram obrigados a lidar com diversos assaltos e invasões de corsários e piratas franceses, interessados em roubar suas riquezas. Em 1759 vem o grande golpe. Os jesuítas são presos segundo determinação do Estado português. Por toda a colônia, colégios jesuíticos foram cercados, invadidos e ocupados. As riquezas confiscadas e remetidas para Portugal. Em 1760, todos são expulsos do Brasil.

O episódio da expulsão dos religiosos, ao contrário do que se possa imaginar, só veio atiçar a imaginação da população, que acreditava que os jesuítas, no rápido processo de saída da colônia, haviam escondido toneladas de ouro e outros objetos valiosos no interior do morro. Começam as buscas e histórias sobre supostos documentos que apontavam para os tesouros escondidos no subterrâneo. Já no final do século, a busca por tesouros torna-se um imperativo, já que médicos sanitaristas e engenheiros iniciam uma campanha para demolição do Castelo, visto como um obstáculo para a circulação de ventos na cidade, proporcionando doenças e dificuldades a expansão urbana. Desta forma, explica Kessel, unia-se o elemento “mítico se junta ao saneador, o fabuloso ao urbanizador”.

Imagem: Alto do Morro do Castelo Diversos rumores se espalham pela cidade, muitas escavações são iniciadas. Aos governadores da época eram enviados vários projetos pedindo autorização tanto para a demolição do morro quanto para busca de riquezas escondidas. Ainda no século XIX, nomes famosos acreditavam nas histórias de tesouro, um deles o escritor Joaquim Manuel de Macedo. O próprio Machado de Assis admitia que a possibilidade de encontrar um tesouro escondido atiçava sua memória. Os homens humildes e desesperados também eram cada vez mais atraídos para o Morro do Castelo em busca de sucesso nas buscas. Em 1863, Nominato José de Assis, que se declarava “desempregado e em uma situação embaraçosa, lutando com dificuldades” tentava ser recebido pelo marquês de Olinda a fim de conseguir liberação para escavar o Morro do Castelo. São os bilhetes e manuscritos de Nominato, em posse do IHGB, que provocaram a curiosidade de Kassel.

Em 1905, quando muitos já desistiam da empreitada, em função da obras urbanas do Prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, chamadas de “bota - abaixo”, o solo do Morro do Castelo cede, revelando grandes galerias. Foi o suficiente para retomar a mítica história dos tesouros. Nessa mesma época, surgem atas e mapas que indicariam o caminho para as riquezas escondidas. Na imprensa só se falava disso. Populares cercavam a entrada da galeria. Dia e noite. A cidade viva uma grande comoção, como se finalmente as antigas histórias de criança estivessem próximas de uma confirmação. Mas nada se constatou. Empresas de engenharia encarregadas das obras urbanas da prefeitura fizeram várias varreduras e pouca coisa de valor se encontrou. Quando muito um crucifixo de ouro, provavelmente perdido por um padre. Logo, as buscas foram interrompidas e as manchetes dos jornais deram lugar a outros eventos, como a inauguração da moderna Avenida Rio Branco, símbolo do projeto modernizador carioca. A História do Tesouro do Castelo passou, então, a encarnar o Rio de Janeiro antigo e mágico, contrapondo-se com o Rio de Janeiro novo da Avenida Rio Branco. A tensão entre as duas imagens era nítida.

No início da década de 1920, o então prefeito da cidade, Carlos Sampaio, finalmente aprova a demolição do morro. Ele desejava dar fim aos obstáculos que o morro oferecia, além de preparar a cidade para a Exposição Internacional de 1922, que comemoraria o centenário de nossa independência, atraindo milhares de estrangeiros. Com engenhocas movidas a força hidráulica, o morro pouco a pouco foi posto abaixo. Os moradores, nunca consultados, expulsos de suas casas. O arrasamento foi doloroso para boa parte de cidade, que via desaparecer do horizonte uma imagem de esperança que por muitos anos povoou suas vidas. Tudo foi abaixo. No total, mais de quatro mil pessoas desalojadas.

Livro curto, com apenas 104 páginas, o livro de Kessel fala da força de histórias consideradas míticas na formação do imaginário popular. Editorialmente, o livro é muito bem produzido. Conta com folhas anti-reflexo, muitas fotografias e pinturas, além de boxes explicativos, que permitem aos iniciados em História desfrutarem do trabalho sem dificuldades de compreensão. Ao final, tem-se a sensação de se ter lido uma “boa história”, típica daquelas que tanto nos prendem a atenção na infância. O livro não chega a ser um grande empreendimento de pesquisa. Mas talvez faça sentido, pois mais do que provar a autenticidade das históricas contadas nas fontes, o autor foca na construção do imaginário carioca no tocante ao supostos tesouros. Se as atas e mapas realmente indicavam alguma coisa de valor escondida, isso não faz diferença. Relato de uma cidade cheia de história, “Tesouros do Castelo” é sim a prova que mesmo para diante de adultos, o elemento fabulativo ainda encontra bons narradores e leitores a espera de grandes aventuras.

Preço encontrado: R$ 29,00

Editora: Jorge Zahar Editor (2008)

Páginas: 104

Exibições: 1661

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