Arquivo Café com Prosa | 1968 - Eles só queriam mudar o mundo | Reina Zappa e Ernesto Soto

1968 - Eles só queriam mudar o mundo

Regine Zappa e Ernesto Soto

por Bruno Leal

Ao que tudo indica, 1968 está longe de acabar. Pelo menos é que podemos ver com as comemorações dos 40 anos de um dos anos mais emblemáticos de toda a história. São conferências, publicações, suplementos nos jornais, palestras, museus, filmes, programas de TV e uma série de outras lembranças que tentam mapear as principais transformações culturais, econômicas, políticas e sociais que o ano de 1968 produziu, e que em maior ou menor escala dão forma ao mundo contemporâneo. Em meio a tantos discursos sobre o passado, como não ficar perdido? "1968 - Eles só queriam mudar o mundo", publicado recentemente pela Jorge Zahar Editor, é um dos grandes lançamentos do ano sobre o tema, agradando a perfis diferentes, ao curioso que busca se situar em relação a 1968 ou o versado no assunto, mas que procura uma boa forma de organizar as informações.

Escrito por Regina Zappa e Ernesto Soto, o livro conta a história de uma geração que ousou sonhar acima de tudo. Era uma época de ebulição: revoltas nos campos universitários, o impacto da batalha e morte de Che Guevara na Bolívia (ainda fato duvidoso em 68), o movimento feminista, a liberdade sexual, as lutas contra as ditaduras na América, a dificuldade dos EUA no Vietnã, o boom do cinema brasileiro e francês, as literaturas explosivas na Europa, a MPB brasileira e uma infinidade de outras experiências que ajudam a explicar porque este ano parece não querer terminar.

Na apresentação do livro, os autores destacam a excepcionalidade de 68, sua dimensão universal que o diferencia até mesmo de outros anos, como o de 1991 com a dissolução da União Soviética ou 1989 com a queda do Muro de Berlim. "Longe de esgotar o assunto, este livro traz uma passeio pelos ricos acontecimentos daquele período, na tentativa de ajudar, especialmente as novas gerações, a entender por que 68 foi tão representativo", escrevem. E de fato, o livro cumpre muito bem este objetivo. Os temas são discutidos de forma agradável, uma leitura com muitos poros, onde o leitor respira bem e não há gosto de proselitismo político. Se os autores queriam mobilizar a nova geração acertaram cheio. Em um dos capítulos, eles escrevem: "No ano de 1968, em particular, a questão do "gap" de gerações era tão crucial que os jovens passavam boa parte do tempo falando de sua geração excepcional, como na música "My generation" ("Talking 'bout/ My generation"), da banda de rock inglesa The Who [FOTO], incluída no primeiro disco do grupo, lançado em 1965". Atualmente, este "gap" parece estar se manifestando de uma nova maneira. Compreender que este choque é inerente a nossa sociedade pode nos ajudar, quem sabe, a compreendê-lo e não a julgá-lo simplesmente.

O projeto gráfico do livro é bonito, embora simples. Mas a grande surpresa (agradável) mesmo para o leitor é como todo esse conteúdo é organizado. Ao invés de capítulos, temos os meses do ano conduzindo e dividindo a leitura, leitura linear dos acontecimentos, mas que não empobrece o enlace entre estes ou os subordina a simples de causa-conseqüência. O leitor encontra também muitas fotos, muitas das quais pouco conhecidas, que ilustram bem várias histórias.

Didático, o livro traz boxes com depoimentos de pessoas que viveram e se envolveram profundamente com aquele ano (cada um falando sobre um aspecto social) e com explicações do tipo "complemento" sobre algum aspecto. Tenta abordar as múltiplas faces: poesia, cultura, política, economia, moda, música etc. Ao final, uma cronologia bem sistematizada em quadro. Destaque para as ilustrações que simulam pichações nos muros, o que recupera um pouco do clima anárquico, político, cadenciando a leitura, quebrando um formalismo das publicações sobre o tema. Em uma delas se lê: "virgindade dá câncer.

O livro pode ser encontrado em qualquer livraria e promete ser uma leitura informativa, agradável e cheia de descobertas ou até mesmo lembranças de uma geração que tinha um objetivo: apenas mudar o mundo.

Preço encontrado: R$ 44,00

Editora: Jorge Zahar Editor (2008)

Páginas: 308

Exibições: 390

Tags: 1968, política

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Comentário de Marcia Conceição Carrinho Muniz em 23 abril 2010 às 13:22
Deveras um mundo em ebulição, nos diversos recantos os jovens ousaram mudar o mundo, e mudaram! Digo que passei minha juventude envolta neste turbilhão, quantas passagens do livro me fizeram lembrar, mas e eu onde estava? Certamente presa em quatro paredes bem vigiada por um pai que assistia tudo com mundo medo desta grande mudança. A leitura é agradável, os diversos olhares e análises encantam mesmo qualquer geração, e o que me deixou mais realizada foi um jovem de 18 anos que insistiu para que eu fizesse a leitura do livro visto que me dizia " eu queria ter vivido nesta época, nasci no tempo errado"

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