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Arquivo Café com Prosa | Pós-Guerra - Uma História da Europa Desde 1945 | Tony Judt

PÓS-GUERRA - UMA HISTÓRIA DA EUROPA DESDE 1945

TONY JUDT

Por Bruno Leal

O londrino Tony Judt tem se transformado em um dos historiadores mais famosos da Europa. Formado pelo King's College, em Cambridge, e pela École Normale Supérieure, em Paris, Judt ganhou os holofotes da mídia e do mundo acadêmico em 2007 ao publicar o livro "Passado Imperfeito", no qual desmitifica o mundo coeso e harmônico do pensamento francês do pós-guerra, que reúne nomes de gente do porte de Raymond Aron, Albert Camus e Jean-Paul Sartre. Judt, porém, não ficou famoso apenas devido a suas polêmicas, mas, sobretudo, a qualidade de seu trabalho, como é possível perceber em um de seus últimos livros, "Pós-Guerra - Uma História da Europa desde 1945". Não que em "Pós-Guerra" falte polêmica (na verdade, elas ganham até mais destaque), mas que mais uma vez a sua escrita envolvente e o seu talento interpretativo dos fatos ocupa papel privilegiado de sua produção.

Publicado no Brasil pela Objetiva, o livro é a biografia de uma Europa recente que passou de um continente desesperançoso e caótico do pós-guerra à referência de comunidade política e economia de vanguarda nos anos 2000. Após os acontecimentos que marcaram o fim da Guerra Fria no final dos anos de 1980, os estadistas e líderes europeus reforçaram uma versão da história da Europa que desde o final da guerra ressaltava a milagrosa recuperação do continente, de uma maneira quase lírica e em tom de autocongratulação. "Havia surgido um continente conciliatório, pacífico, 'qual fênix', das cinzas do seu próprio assassino-suicida." A tese de Judt e que o acompanha ao longo das quase 900 páginas de seu livro é a de que essa recuperação foi na verdade um mito que ocultou tensões, conflitos e que nunca fora algo óbvio. Como diz o próprio Judt, "[...] A Europa pacífica não nasceu do projeto otimista, ambicioso e progressista imaginado com bons olhos pelos idealistas que hoje defendem o euro. A Europa foi uma filha insegura da ansiedade. Oprimidos pela história, os líderes europeus implementaram reformas sociais e criaram instituições de caráter profilático, a fim de acuar o passado".

O historiador evidencia a reestruturação do Europa a começar pelos primeiros dias após o cessar fogo da Segunda Guerra Mundial. Iniciada em 1939 com a invasão da Polônia pelas forças hitleristas, a guerra havia sido total. Afora o confronto militar, tratou-se de uma experiência fundamentalmente civil. Os dados atualizados da época nos ajudam a compreender essa realidade: dos cerca de 36,5 milhões de mortos, calcula-se que mais da metade, por volta de 19 milhões, tenham sido civis não-combatentes. O número de mortos entre a população civil superou as baixas militares na União Soviética, Hungria, Polônia, Iugoslávia, Grécia, França, Holanda, Bélgica e Noruega. Somente no Reino Unido e na Alemanha as baixas militares foram superiores às dos civis. As populações européias também sofreram com os estragos dos bombardeios, tanto dos Aliados quanto daqueles dos países do Eixo. Poucas aldeias, vilarejos e cidades escaparam ilesas da guerra. Bairros inteiros no centro de Londres, sobretudo em áreas mais pobres, foram apagados do mapa pela artilharia nazista. Quando Berlim caiu nas mãos do Exército Vermelho, em maio de 1945, apenas nos últimos 14 dias finais foram despejadas sobre a capital alemã mais de 40 mil toneladas de bombas. Dos prédios da cidade, 75% estavam inabitáveis. Entre 1944 e 1945, as cidades francesas de Royan, Le Havre e Caen foram completamente destruídas por aviões americanos e britânicos. A Europa, enretanto, não sofreria apenas com esse tipo de "moléstia", tendo que enfrentar o caos econômico, a violência dos exércitos de ocupação, as doenças, a fome e a total falta de infra-estrutura que se alastrava por todo o velho continente.


Passado os primeiros anos de crise, a economia se restabeleceu. Novas alianças, uma nova geopolítica, marcada pela divisão dicotômica dos países. Era preciso que a Europa esquecesse o seu passado para construir o seu futuro. E foi isso o que aconteceu em muitas regiões e países, que tiveram que silenciar uma memória de totalitarismos ou de democracia a fim de se ajustarem a novos modelos políticos, algo que somente agora parecem ser enfrentado pelas antigas repúblicas soviéticas, só para citar um exemplo. Judt fala discute os mitos que envolvem o "transformador" ano de 1968, mostrando que em muitos aspectos aquela geração era muito mais conservadora do que o seu discursivo explosivo e supostamente revolucionário poderia revelar. Discute também as discussões acaloradas sobre a memória do Holocausto, da recessão econômica dos anos de 1970, até chegar aos conflitos contemporâneos, como aqueles que envolvem disputas internas de cada localidade, como a dificuldade de certos Estados a lidarem com entidades como o ETA e o IRA.

Em cada contexto, em cada momento, fatos e querelas que são caras ainda hoje para a historiografia européia. Judt prende a atenção do leitor com uma prosa bem construída, sem os obscuros jargões acadêmicos que por vezes atrapalham a compreensão do texto, mas sem deixar de se ater às regras de uma boa pesquisa comprometida com o estudo sistemático do passado. Esses mais de seis décadas desde o fim da guerra também não estão desvinculados do mundo que construímos e viemos hoje. Mas para o historiador inglês, pela primeira vez o pós-guerra parece finalmente estar chegando ao fim, ainda que tenhamos que é preciso ter cuidado, pois os europeus e, em certa medida, todo o planeta, testemunham o surgimento de um novo tipo de desafio, um desafio cultural entre países ricos e pobres, desenvolvidos e em desenvolvimento, do qual a imigração e o multiculturalismo são apenas alguns aspectos. Talvez se trate das novas fronteiras do futuro, presente para nós, que embora tenham uma profunda relação com os caminhos que escolhemos no passado, não se expliquem totalmente através deste, mas sim à capacidade que temos de sonhar e construir sempre novos desafios.

Preço encontrado: R$ 59,00

Editora: Objetiva (2008)

Páginas: 847

Exibições: 1770

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