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Joaquim Callado - O Pai do Choro

André Diniz

Por Bruno Leal

Há alguns anos, a gravadora Deck Disk fez o que muitos considerariam um projeto arriscadíssimo: lançou um cd que trazia algumas das mais famosas canções dos Beatles em Choro. O sucesso junto ao público foi imediato. Trazendo nomes consagrados da música brasileira como Carlos Malta e Hamilton de Holanda, o projeto não só vingou como ganhou um segundo cd. Essa experiência atiça nossa curiosidade: que estilo musical é esse que mesmo um século depois de seu surgimento, continua encantando gerações inteiras? Como surgiu o Choro e "quem" o "inventou"?

São perguntas como essas que inspiraram o historiador André Diniz, niteroiense de 37 anos, a escrever o livro "Joaquim Callado - O Pai do Choro", publicado este ano pela Jorge Zahar Editor. A aventura de Callado na terra do choro não é nova. Em 2002, sua dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO transformou-se no livro "Almanaque do Choro" (Jorge Zahar Editor), que segundo o próprio Diniz, "para grande surpresa e satisfação de todos nós, caminha com vigor para sua terceira edição".

Em "Joaquim Callado - O Pai do Choro", além de discutir o surgimento do choro, o historiador tenta responder a interessante pergunta: como a memória de Joaquim Callado como pai do choro foi e vem sendo construída? A resposta está em um livro bastante simpático, com 147 páginas de texto cativante, repleto de informações valiosas (algumas raras) e que foge a mesmice de outros trabalhos sobre a história da música brasileira.

André Diniz começa o livro traçando uma segura biografia do consagrado "pai do Choro". Joaquim Callado nascera em 11 de julho de 1848, na cidade do Rio de Janeiro. Desde muito cedo, esteve em contato com a música: seu pai era professor de música, especialista em cornetim e trompete, regente da Banda Sociedade União de Artistas. A família sempre promovia encontros promovidos pelas sociedades musicais, especialmente no bairro da Cidade Nova, onde moravam, terra de músicos e da boemia carioca, o que aproximava o menino de grandes músicos de sua época, dentre eles o maestro Henrique Alves de Mesquita, o "professor dos Chorões" do século XIX, com quem Callado tivera aulas.

Mestiço, sempre usando óculos pince-nez e com espessos bigodes, Joaquim Callado passou a ser figura certa tanto em festas populares quanto em festas da alta sociedade, que se rendiam àquele som que parecia dar a "Polca" européia um requebrado e uma vida inéditos, trazidos diretamente das senzalas. Diniz lembra: "Callado compunha suas músicas com muita simplicidade, em qualquer momento do dia. Bastava ter uma inspiração que escrevia, por exemplo, nos largos punhos descartáveis que então se usavam, sobre algum livro, em um canto de jornal ou mesmo em papel de pão". Flautista talentoso,

Callado tocou em forrobodós, cortiços, pensões e clubes até a alta madrugada, garantindo um cachê considerável. Foi amigo e um dos maiores responsáveis pela incursão da maestrina Chiquinha Gonzaga nas rodas musicais e boêmias do Rio. Sua obra gira em torno de 66 composições, destaque para a famosa "A flor amorosa". Morreu jovem, aos 32 anos, de tuberculose, assim como inúmeros amigos músicos de sua geração.

A memória do "pai do Choro"

Em um segundo momento, André Diniz recupera os momentos em que o nome de Callado começa a fazer parte da memória da música e do Choro. Diniz traz os registros literários de Lima Barreto, João do Rio e de acadêmicos importantes da música, como maestro Baptista Siqueira, que ajudaram a cristalizar uma determinada memória sobre Joaquim Callado. O historiador ainda leva em consideração reportagens publicadas na imprensa, que sempre se referem a Callado como o "pai do choro", embora a criação do gênero pudesse ser atribuída a outros nomes. "como em todas as pesquisas sobre a origem de um termo ou o surgimento de um fenômeno cultural, existem diversas versões de nomes, datas, contextos e fatos que podem nos levar a inúmeras informações conflitantes.", lembra Diniz.

Para o historiador, há, porém, um fato que não pode ser refutado: Callado é historicamente o personagem mais localizável no tempo como pai dos chorões. Trazendo a opinião de diversos outros especialistas em música, Diniz realiza algo muito parecido com um debate historiográfico sobre as memórias conflitantes em torno de Callado, sem deixar de enfocar os contextos históricos e sociais em que estes conflitos acontecem. O resultado dessa discussão é um panorama amplo e objetivo de um dos gêneros musicais mais comemorados do país ainda hoje.

"Joaquim Callado - O Pai do Choro" foi fruto ainda de uma pesquisa no arquivo inédito de Chiquinha Gonzaga. Traz um capítulo sobre regravações, além de informações sobre a musicografia da época de Callado, sua discografia, indicações de leitura, músicas, filmes e uma cronologia acompanhada de um bom e sempre útil índice onomástico.

O Café História indica esta fascinante (e dançante) descoberta do mundo da memória, da música e de um Brasil que, não faz tanto tempo assim, começava a descobrir o seu próprio ritmo.

Preço encontrado: R$ 38,00

Editora: Jorge Zahar Editor (2008)

Páginas: 147

Exibições: 489

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