Arquivo Café com Prosa | Ensino de história e consciência histórica | Luis Fernando Cerri

Ensino de História e Consciência Histórica

Livro explora o papel do professor a partir do conceito de conscientização histórica 


Acaba de ser lançado pela FGV Editora o livro "Ensino de História e Consciência Histórica: Implicações didáticas de uma discussão contemporânea", de Luis Fernando Cerri, professor de prática de ensino no Departamento de História da Universidade Estadual de nota Grossa (UEPG). Com 136 páginas e dimensões que cabem na palma da mão, o livro é mais um lançamento da excelente coleção FGV de Bolso (Série História).

Além da introdução e das considerações finais, "Ensino de História e Consciência Histórica" encontra-se dividido em três capítulos. No primeiro, intitulado "O que é a consciência histórica", o objetivo, segundo o próprio autor é "recompor e procurar alinhavar a contribuição de diferentes autores, originários de diferentes lugares, tanto físicos quanto epistemológicos, visando uma maior sistematização sobre a "consciência histórica" e suas implicações sobre o fazer atual da história nos múltiplos espaços que ela ocupa". Pra isso, Cerri aprofunda-se no conceito de "consciência" de Karl Marx e, sem seguida, o leva para o contexto da história, através da leitura de filósofos/historiadores de peso como Raymond Aron, Hans-Georg Gadamer, Agnes Heller e, principalmente, Jörn Rüsen, sua principal referência ao longo do livro. Deste último, Cerri toma emprestada a definição de "consciência história": "a suma das operações mentais com as quais os homens interpretam sua experiência da evolução temporal de seu mundo e de si mesmos, de forma tal que possam orientar, intencionalmente, sua vida prática no tempo". Assim, a consciência histórica seria algo que existe independente da vontade dos homens, com um bem universalmente humano.

Já no capítulo 2, "Conscientização histórica?", Cerri desenvolve o "pensar historicamente" como uma competência inerente ao trabalho do professor, relacionada a construção da cidadania. Tal relação seria, no olhar do autor, uma das principais contribuições da história para a formação do aluno. E mais: esta perspectiva - que também pode ser tomada como uma reflexão - está associado com o conceito de "conscientização" do educador Paulo Freire. Freire afirmava que conscientização é o oposto de doutrinação. Está na base da construção de indivíduos autônomos, algo que pode ser mais ou menos desenvolvido. Ao conectar esses dois conceitos, Cerri politiza o trabalho do professor de história.

Por fim, o terceiro capítulo, chamado de "Consequenciais para a prática do profissional de história". Neste capítulo, o autor fala sobre o porque do ensinar história. Para responder a pergunta, são discutidas questões como política de identidades, racionalidade da história científica e experiências narrativas. No fechamento do livro, Cerri explica como o conceito de consciência histórica oferece para o ensino da história:

"Em primeiro lugar, afasta-se uma visão voluntarista e messiânica que, sob diferentes formas, proponha a 'conscientização histórica" dos "sem consciência" porque, como argumentamos, isso não existe: como todo navegam por suas vidas conduzidos pela correnteza do tempo, todos tem que definir instrumentos e projetos para navegá-lo, e esse procedimento básico de viver é a consciência histórica em ação. (…) Ensinar história considerando a consciência histórica é desenvolver atividades que permitam que o educando conheça a história - de preferência a história que, de forma mais aproximada, seja sua história - ao mesmo tempo que conhece diferentes formas pelas quais se lhe atribuiu sentido". 


"Ensino de história e consciência histórica" é um livro que interessa basicamente dois grupos: professores escolares e alunos que estão começando a graduação em história. Oferece um panorama elaborado sobre o ensino de história, embora quase sempre a ótica marxista predomine, o que acaba reduzindo algumas discussões importantes. No mais, Cerri consegue realizar uma conexão entre os campos da teoria da história e do ensino da história, algo que é bastante comum em países com tradição na filosofia da história, como a Alemanha. Essa articulação demonstra que o passado é móvel, fluido, frágil. E que é justamente essa fluidez que provoca deslizamentos também na aprendizagem e no ensino. Está ainda no cerne de nossas projeções e de nossa identidades, individuais ou coletivas. Como o próprio autor coloca, "quem acreditamos que somos depende de quem acreditamos que fomos". O passado, neste sentido, é a pedra basilar que norteia nossa aço no mundo.

Exibições: 7196

Comentar

Você precisa ser um membro de Cafe Historia para adicionar comentários!

Entrar em Cafe Historia

Comentário de André Azevedo em 15 novembro 2015 às 9:33

Há alguns elementos abordados na breve explanação que chamam a atenção para a obra. A diferenciação entre conscientização e doutrinação, em uma menção a Paulo Freyre, a definição de consciência histórica e a recomendação do livro para iniciante na graduação em história são as que reputo relevantes o bastante para me fazer adquiri-lo. 

Comentário de Luiz Fernando Almeida em 11 julho 2012 às 21:26

Já comprei Edvaldo. Livro muito bom!

Comentário de Luiz Fernando Almeida em 29 janeiro 2012 às 22:26

Alguém sabe em qual livraria acho esse livro acho esse livro?

Comentário de paulo renato de oliveira furtado em 17 janeiro 2012 às 20:59

   Eu preciso comprar este livro! O encomendei há aproximadamente a 3 meses na livraria da Vozes em Petrópolis, mas a editora até agora não o entregou. Estive na Saraiva no Leblon e também não o encontrei. Se alguém puder, por favor ajude-me!!!!

Comentário de paulo renato de oliveira furtado em 26 novembro 2011 às 13:28

Gostei muito. A propósito, veio de encontro a minha necessidade de materiais para a minha monografia que trata  exatamente desse tema.

Comentário de Francisco José Silva Feitosa em 20 novembro 2011 às 9:18

é esclarecedor para que todas as pessoas tenhão consciencia e dêem importancia a história....

Comentário de Valdenise Dornelles Ristoff em 19 novembro 2011 às 8:54

É fundamental a concientização dos alunos quanto á importancia da história em nossos dias .... em que informações se dissolvem rápidamente quase sem memória historica.

Comentário de Martha Nunes em 9 novembro 2011 às 22:12

O ensino de História é indispensável para a formação sociopolítica e intelectual dos nossos alunos. Sabemos que a partir de nossa perspectiva, o indivíduo, ao se apropriar dos recursos oferecidos pelos estudos históricos, torna-se um sujeito ativo e transformador de sua própria realidade.

Comentário de Rosana Alves Pinheiro em 27 outubro 2011 às 17:31
Muito prazer, é isso que destaco com meus alunos, que não se perca a História das regionalidades, de pessoas comuns que foram e, estão inseridas nesse processo. A História não é feita por grandes homens e, sim pelas massas que, viveram e vivem todo esse contexto histórico que atravessamos e, que iremos atravessar com as novas mudanças que estão por vir. Em todo o mundo as massas estão se mobilizando e derrubando governos ditatoriais e questionando os grandes investidores ávidos por lucros. A História das populações passadas se repete. Então Sergio, temos que mostrar aos jovens quem são os verdadeiros agentes das transformações, você não acha? Abraços, e foi um prazer apreciar o seu comentário.
Comentário de sergio braga osorio em 27 outubro 2011 às 16:09

  Caríssima  Rosana, saudações. 

  Percebo que a sua luta como educadora , é a minha luta de avô que viveu bastante tempo em uma

  região do Brasil, que a meu ver talvez seja a que mais importância dedica a seus valores históricos. Estou 

  falando do Rio Grande do Sul, especialmente da região que costumamos chamar de "campanha", para os de

  fora, os pampas. em cada cidade onde se vá é possível encontrarmos um CTG (Centro de Tradições Gau-

  chas). É ali que as meninas e meninos gaúchos aprendem com os mais velhos  todos os ritos da tradição  

  de seu povo, as danças, as comidas típicas, os jogos, as lendas , o costume que só o Rio Grande conser

  va, o de declamar, quantas coisas são  estimuladas quando se ensina uma criança a declamar versos.

   sejam eles versos de poetas locais,  sejam trovas, tudo isto seguido com suas canções regionais, que fal

   lam também das coisas regionais. Então enquanto avô, e interessado em conseguir para o futuro dessas

   crianças o melhor que possam receber, porque estudarmos as possibilidades de reforçarmos isto que é

   feito lá, aqui! Você não acha que isto poderia ajudar bastante e estimular nossas crianças? 

   Fica aqui a minha sugestão.  Grande abraço e desculpe  se me empolguei..

café história acadêmico

Lançamento: A 13ª Edição da Revista Ars Histórica está no ar cheia de novidades. Nesta edição, os leitores encontrarão o dossiê "Império Português em Perspectiva: Sociedade, Cultura e Administração (XVI-XIX)" apresentado pelo Prof. Dr. Antonio Carlos Jucá, PPGHIS-UFRJ. Clique aqui para conferir na íntegra.

bibliografia comentada

Política de Privacidade

Para ler nossa "Política de Privacidade", clique aqui.

Atenção!

O Café História respeita a opinião de todos nos mais diversos espaços da rede. Reserva-se, no entanto, o direito de suspender textos de teor ofensivo, agressivo ou que sustente preconceitos de qualquer ordem, que promovam a violência ou que estejam em desacordo com o bom senso e as leis brasileiras. Se identificar algum conteúdo ofensivo ou comportamentos inadequados, por favor notifique-nos: cafehistoria@gmail.com

Fale Conosco

Encontrou alguma mensagem racista, preconceituosa ou ofensiva no Café História? Entre em contato conosco. cafehistoria@gmail.com

dicas de dezembro

© 2017   Criado por Bruno Leal.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço

body, .xg_reset .xg_module_body { line-height: 1.3; }