Anotações sobre pesquisa: "Das tendas às telhas: a educação escolar das crianças ciganas da Praça Calon".

Nosso encontro com a etnia cigana ocorreu muito cedo, quando ainda criança em períodos de férias, pude realizar na fazenda do meu avô, no interior do Rio Grande do Norte, mais precisamente na cidade de Florânia, à 280 km da capital,no território do seridó potiguar, as primeiras observações com aqueles grupos de pessoas que armavam suas tendas em torno do açude da fazenda caiçara. Eram homens e mulheres de peles queimadas pelo sol, que levavam suas casas e vidas em lombos de cavalos e mulas e liam a sorte na palma da mão das pessoas curiosas.
Nos anos 80 do século XX, pude perceber um movimento diferente ocorrer na cidade, quando um grupo de ciganos constroem casas de morar, numa área que passou a ser conhecida como Bairro Rainha do Prado, formando um quadrilátero que os próprios ciganos a denominaram Praça Calon. Neste bairro foi construído uma escola para alfabetização de crianças da comunidade, que aglutinava neste momento, um mundo plural com a presença de moradores que abandonavam o campo, num processo de êxodo rural e os ciganos que costumeiramente passavam, e agora, por um certo tempo, ganhava permanências. A escola passa a ser denominada E. M. Domingas Francelina das Neves.
Mas meu primeiro contato com o grupo estabelecido em Florânia ocorreu quando eu ocupava a função de Secretário Municipal de Educação e ministrava aulas de Prática de Ensino e Estágio Supervisionado, e considerando os dados estatísticos da escola Municipal Domingas Francelina das Neves, resolvi aproximar as teorias da educação com a prática da sala de aula dos meus alunos. E eis, que fiz, uma grande descoberta.
Uni a curiosidade de compreender o modo de vida das pessoas ciganas da comunidade e a colaboração pedagógica com meus alunos do curso magistério. Nascem aí, as dúvidas, surpresas e desequilibrações, mas um amontoado de dados escritos, pois passei a compor em um caderno de anotações, um diário de campo, que por quase 15 anos depois, se tornara uma dissertação de mestrado no programa de Pós Graduação em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Foram incontáveis visitas, entrevistas, poses para fotos, filmagens, pactos de segredos, compartilhamento de vidas, dores, esperanças. Nesse espaço de tempo, tornei-me o major para o grupo. Ganhei a confiança e estabeleci recíproco acordo de companheirismo.
No ano 2000, com a devida permissão das famílias entrevistadas e visitadas, publiquei a monografia: Sem lenço e sem documento: em que escola estudar? Trabalho acadêmico de conclusão do curso de especialização no Campos de Caicó/RN. Este primeiro passo era dado em torno da compreensão do interesse pragmático dos ciganos com relação à escola sistematizada, uma vez que eu percebia que historicamente, os ciganos abominavam a escola. Depois deste trabalho, pudemos alcançar na minha cidade e na região, o que considero um passo largo para o reconhecimento dos grupos de ciganos que aportavam nas cidades do interior, pois pela primeira vez, a Universidade Federal do RN estudava um aspecto do cotidiano (a educação formal) de ciganos. Daí, a academia impunha respeito, portanto, muitas entrevistas, palestras em escolas e diversas cidades.
Na cidade e na escola, um novo conceito se impunha a partir daí, e percebemos que a evasão diminuíra os índices de repetência também, e os professores daquela escola, passaram a compreender a cultura nômade dos sujeitos da escola e as diversidades que continham. Assim, fui ministrar aulas no curso de Pedagogia no Campus de Currais Novos para os professores da região do seridó e disseminei com eles minha monografia, anotei sugestões de professores que já haviam ministrado aulas para crianças ciganas, dialoguei com mestres e passei a freqüentar um grupo de estudos na UFRN, da base de pesquisa Educação, História, Memória e práticas culturais. Trazer este debate para a UFRN a nível central, foi um desafio. Só existia estudos históricos em educação ligados aos indígenas da Paraíba e aos quilombolas do RN. A temática dos povos nômades era ainda desconhecida na academia.
O ingresso no Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, no ano de 2010, no Mestrado Acadêmico, representou uma oportunidade ímpar no sentido de evidenciar o trabalho de pesquisa garimpado ha mais de 15 anos de buscas incansáveis, encontros e desencontros. De posse de uma escassa literatura científica sobre a temática e na companhia de um amontoado de relatos, cadernos de anotações, fotografias, recortes de jornais, ancoravam a sensibilidade e a vontade de contar para o mundo sobre o estágio de vida em que homens e mulheres denominados Calon viviam na cidade onde nasci, como também, suas experiências com a instituição escolar, motivo este que sempre me induziu a insistência em construir um arcabouço teórico sobre o fenômeno em discussão.
Assim, perseguimos no trabalho de pesquisa com o objetivo de investigar as práticas educativas e culturais dos Ciganos do Grupo Calon, localizado na cidade de Florânia/RN, reconstruindo sua historicidade numa perspectiva sócio-cultural. Essas oportunidades contribuíram decisivamente para que eu pudesse compor num trabalho conclusivo e em forma de narrativa historiográfica, um recorte de acontecimentos, apropriações e formação de sentimentos, pluralidade de práticas e representações, comportamentos, institucionalização, regulamentação e sua transformação no tempo e no espaço, bem como culturas e vivências, apoiados em fontes orais e arquivísticas.
Assim, as práticas culturais dos ciganos da Praça Calon reconstruidas, passam a ser analisada sob a ótica conceitual de Certeau (2003), que infere sobre as artes de fazer, ou maneiras de pensar e agir no cotidiano do homem ordinário. Em sua teoria das práticas cotidianas, percebe-se nos homens comuns as maneiras de fazer o mundo, ou seja, modalidades de ação que se manifestam na forma de estratégia ou de tática, e escolhemos para assim, constituirem as categorias de análise do presente trabalho.
Para Certeau, as táticas se constituem na arte do fraco, que ao proceder seu feito, raramente deixa vestigios. Na condição são as engenhosidades que permite ao fraco tirar partido do forte, e que estes, se reapropriam do espaço organizado pelas técnicas de produção sócio cultural. No caso contrário, as estratégias partem dos que asseguram suas marcas para a história. É o conjunto de técnicas, “cálculo das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que o sujeito de querer e poder é isolável”. (CERTEAU, 2003, p. 46). Neste movimento constante de apropriação e modalidades de usos, o autor supracitado propõe uma (re)invenção do cotidiano.
Nos primeiros momentos da pesquisa, despertada a curiosidade sobre a identidade dos atores protagonistas do trabalho, eis que surge a necessidade de conceituar e compreender o povo cigano. Eram muitas dúvidas e necessidades de explicações. Nasciam os primeiros questionamentos, as questões ou hipóteses que iríamos perseguir durante nossa trajetória: quem são esses ciganos, de onde vieram? Quantos são? O que mesmo querem na escola? Quantos se matricularam? O que levou os pais a matricularem seus filhos na instituição de ensino, mesmo que, em que algumas vezes, nunca cheguem a freqüentar a escola? Foram incontáveis as dificuldades enfrentadas no percurso da pesquisa. Realizar entrevistas, anotações e gravações, um trabalho árduo, em função de uma característica peculiar e que fortemente marca o povo cigano – o nomadismo. Quando iniciamos o trabalho de filmagens e algumas entrevistas complementares, muitos ciganos já haviam partido em suas viagens, levando consigo seus filhos dantes matriculados na escola em que o pesquisador atuava.
A espera do retorno dos ciganos Calon também necessitava de parcimônia para a conclusão de anotações, confirmações e compilação dos dados. Somam-se às constantes viagens dos ciganos, suas mudanças por diversos lugares e acampamentos nas outras cidades, a resistência em não dizer, falar, repassar informações precisas, a recusa por uma pose para a fotografia, o temor da delação, revelação, a troca de nomes e apelidos que utilizam como astúcia e que contribui para os (des)aparecimentos constantes. Sentimos também, a incompreensão de algumas pessoas que não aceitavam os ciganos como atores de um trabalho de pesquisa, pois as relações de preconceito entre os ciganos e os não ciganos ainda são muito fortes.
A escassez de bibliografias ou até mesmo de pesquisas científicas sobre o povo cigano já pode ser considerada vencida pela internet, uma vez que informações na área de sociologia e antropologia têm sido construídas em certa freqüência e que abordam os aspectos étnicos e culturais desse povo. São contribuições importantes para o avanço no debate das questões teóricas no campo étnico racial e cultural das identidades das minorias no nosso país. Entretanto, nos aspectos educacionais com relação a esta etnia, encontramos parco material de divulgação presente nas redes de informações.
A justificativa para a realização do presente trabalho reside na sua originalidade temática e relevância em proporcionar reflexões acerca dos modos de vida cigana e de reconhecer através da pesquisa, as dificuldades de oferecer aos povos ciganos, uma educação que interessa aos que vivem em constante itinerância. Ainda vislumbra a possibilidade da construção de uma proposta de educação diferenciada para grupos minoritários que vivem em condições de pobreza e marginalidade. Além disso, acreditamos construir referências para possíveis mudanças de atitudes com relação à elaboração de políticas públicas afirmativas, permitindo novos olhares e atitudes sobre a situação de vida dos ciganos e outros grupos que aportam nas cidades do interior. Assim, a história desse povo nômade ou seminômade, que por muito tempo teve sua vida envolta em mistérios e silêncios, tem a oportunidade de manifestar-se, ser contada, ouvida e escrita.

Para nossa surpresa, no final do ano passado, dezembro de 2011, o Conselho Municipal de Educação de Canguçu/RS, realizou uma consulta ao Conselho Nacional de Educação sobre as Diretrizes para o atendimento de educação escolar de crianças, adolescentes e jovens em situação de itinerância. O Processo de nº 23001.000073/2011-58, que teve como relatoras as senhoras Rita Gomes do Nascimento e Nilma Lino Gomes. Por unanimidade, o Parecer CNE/CEB nº 14/2011 foi aprovado em 07 de dezembro de 2011 e favorece aos circenses, ciganos, indígenas e povos nômades em geral, a garantia do acesso a escola mesmo sem comprovação documental anterior ao ingresso.
Consiste então este parecer, no primeiro documento que o pesquisador teve acesso no período da investigação, onde oficialmente, ao cigano é dada a garantia de freqüentar itinerantemente, uma escola. Mas, ao que nos é sabido, o parecer, até a presente data, não foi homologado.

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