Talvez seja da nossa cultura, tão pouco acostumada a uma democracia duradoura, transformar as eleições em jogo de futebol. Um leviano e efêmero espetáculo de emoções exacerbadas, paixões incontidas e ódios palpáveis. É época de se criar uma celeuma entre as partes, de se esbravejar calúnias e infâmias sem igual aos antes bons amigos. Dias de se abandonar a convivência saudável entre os vizinhos e de se colar, com infortúnio orgulho, adesivos repletos de sorrisos maquiados e promessas descompromissadas. Ignora-se o dever primal de respeitar (ou tolerar), antes de tudo, a opinião do outro. É um brinde à desinformação, um afago aos radicalismos e uma salva de palmas ao preconceito. É, mais do que qualquer coisa, um reflexo de nossa pouca conscientização política.

Você, que acabou de ler o parágrafo acima, pode estar pensando que esse texto se trata de mais um dos diversos contorcionismos lógicos com os quais se insiste em culpabilizar a “massa alienada” por todos os males existentes. Você não poderia estar mais errado. Pelos menos, no sentido pejorativo com o qual você, provavelmente, associou imediatamente a palavra massa.

Quem é essa massa? Os pobres? Os desfavorecidos? Ou, sendo politicamente incorreto, os favelados? Não. Esses grupos (ou seria um só?) não constituem a massa. Essa é apenas uma denominação oportunista amplamente difundida por quem é, de fato, alienado.

Explico.

Qual direito tem o cidadão comum de questionar o voto de seu par que antes passava fome ou não tinha acesso a remédios essenciais a sua saúde e agora come e pode se medicar? Por acaso não foram as políticas públicas desse ou de outro governo que transformaram a vida do antes miserável em uma existência digna? Porque esse cidadão, que melhorou de vida, é chamado de alienado por querer a continuidade, ou o retorno, do governo que o beneficiou de alguma forma? Não estaria ele apenas exercendo seu direito democrático mais óbvio que é o de manifestar suas escolhas através do voto no candidato que, em menor ou maior grau, respalda suas necessidades e aspirações individuais?

Você que tem todas as condições intelectuais de questionar o óbvio, de construir um raciocínio consistente e firmar uma via própria de pensamento, mas não o faz, é o alienado da história. É assustador diagnosticar a quantidade gigantesca destas pessoas que não têm consciência da importância da individualidade própria e ao mesmo tempo ignoram a existência da de outrem. Estes reprodutores de opinião, tentam, a todo momento, imputar ao outro o pensamento previamente forçado à eles; e, caso falhem, rotulam o outro de alienado. Estão em um patamar abaixo dos que não têm a capacidade mínima de resistir aos candidatos e seus asseclas com suas imputações rocambolescas de futuro ideal. Estes, não têm culpa alguma de sua alienação, são, usando de uma metáfora conveniente, crianças inocentes que aceitam balas de estranhos.

Não se trata aqui, de tentar encontrar um posicionamento político ideal para o país, e sim demonstrar que esse suposto posicionamento ideal é na verdade a média da soma de todos eles. Há de se respeitar os anseios dos outros, justo porque não sabemos qual a dimensão real dos problemas deles. Simplesmente considerar que seu modelo de mundo faz sentido ao seu próximo, mesmo que ele discorde, nada mais é do que uma tentativa torpe de aliená-lo.

Não vivemos em uma sociedade livre de preconceitos, muito pelo contrário. Vivemos em uma sociedade onde os vários andares de nossa pirâmide social oprimem os que estão abaixo dele; uma sociedade onde um tipo de crença parece ignorar as outras, e pior, parecem não conceber que a sociedade, na verdade, é laica; uma sociedade onde quem diz ser censurado, censura. Existe em nosso meio um repúdio ao outro tão extremado que nem sequer nos lembramos de nos questionar o porquê de repudiarmos. Talvez, se fizéssemos esse exercício simples de reflexão, teríamos a exata noção de quem são os alienantes e os alienados.

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Comentário de Marta Guedes em 3 dezembro 2010 às 4:09
Deveriamos saber como votar e em quem votar. Mas hoje em dia ta dificil em votar! Quase ninguem é confiavel!!

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