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Coisas boas do regime de Fidel

Embora seja uma ditadura, Cuba não é uma ditadura militarizada. A violência não se encontra instituída no dia-a-dia da ilha.

Fidel soube como preservar e até mesmo ampliar a tradição cubana de ser uma vanguarda nas áreas de educação e saúde. A área de esportes também é bastante representativa em termos de avanços no país, sendo um grande propulsor de projetos de inclusão social.

Ao contrário da maior parte dos países sul-americanos, não há miséria em Cuba. Ninguém morre de fome. Ninguém morre em filas dos hospitais. Há pobreza sim e, em certo ponto, até mesmo desigualdade social, mas ela é relativamente pequena. Aceitável eu diria.

História e o Historiador

Não acho que deva ser papel do Historiador concentrar-se no exercício (às vezes desastroso e sem sentido) de prever tudo o que acontecerá à Cuba sem Fidel Castro. Os historiadores deveriam focar seus esforços na tentativa de compreender o regime de Fidel e a sociedade cubana. Deveriam, antes de tudo, buscar compreender a trajetória daquele país.

Posso não viver em Cuba ou não ter visitado aquele país. No entanto, isso não me desqualifica ou desautoriza a tecer comentários e emitir opiniões sobre o que está acontecendo. Se para falar de algo tivéssemos que vivê-lo, experimentá-lo na pele, o ofício do Historiador seria parte de um roteiro de ficção científica.

Quando penso em Cuba, por exemplo, procuro me colocar na pele de um cubano. O que vejo? Simples: se eu fosse Historiador Cubano teria que me contentar em não fazer nenhuma pesquisa que desagradasse o poder oficial. Teria que me contentar em não ter acesso a muitos arquivos sob a desculpa de não violar a segurança nacional. E se infringisse isso eu poderia arcar até mesmo com a minha vida. A partir desta perspectiva, onde minha profissão não pode ser exercida minimamente, eu digo sem sombras de dúvidas que desaprovo o governo de Fidel. Aliás, acho que todo historiador que defende o governo de Fidel deve se colocar nesse lugar: você gostaria de ser Historiador em Cuba, mesmo tendo que conviver com tamanhas limitações, mais profundas ainda daquelas que nos afetam em nosso país?

Imprensa

Em Cuba não há liberdade de imprensa. Toda imprensa é imprensa oficial. Daí, podemos ter idéia de como é construída a opinião pública cubana. Tudo o que é publicado passa pelo crivo do Estado. Sou jornalista, além de Historiador. Se eu fosse um jornalista em Cuba eu teria que estar alinhado, obrigatoriamente, com o governo instituído. Caso contrário, rua. Censura à imprensa fez de Cuba possuir um dos meios de comunicação mais patéticos e sem credibilidade do mundo. Lá, divergência de opinião é coisa que deve ser guardada dentro de casa, de preferência dentro de você mesmo. Um dos jornais de Cuba se chama “Juventude Rebelde”. Nome curioso. Talvez em seus primórdios se tratasse de uma “juventude rebelde”. Mas que juventude rebelde é essa que precisa estar alinhada, necessariamente, com uma dada ideologia? Acho que ela acabou se transformando em uma juventude conservadora, pois não pode contestar, apenas repetir, repetir, repetir, repetir....

Muitos dos que defendem a ditadura cubana são os mesmo que criticam, no Brasil, o monopólio dos meios de comunicação por determinados conglomerados. Ora, essa premissa, que na verdade é um valor moral e ético, deveria se aplicar a todo caso. Mas não é assim que a coisa funciona. Em Cuba, os meios de comunicação são dominados pelo Estado. Então, lá, tudo bem que isso aconteça?

Cuba e o futuro

Não se sabe ao certo o que acontecerá a Cuba. Não temos bolas de cristal. Temos sim alguns indícios que nos apontam possíveis caminhos. Uma transição está por vir. Se ela será a curto, médio ou longo prazo não é possível afirmar com certeza nenhuma.

Podemos afirmar, agora com alguma segurança, que Cuba terá no futuro um desafio simbólico e prático também, que será lidar com a sua memória comunista. Com um passado ditatorial. Ao logo de 50 anos de ditadura temos que reconhecer que muitas coisas ainda são ocultadas do grande público. Com o tempo, veremos que a coisa pode não ter sido tão boa quantos muitos pensam hoje.

Atualmente, o cinema alemão começa a lidar com os seus fantasmas da antiga banda oriental. Filmes como “A Vida dos Outros”, apenas para citar um exemplo, discutem abertamente, pela primeira vez em vinte anos, traumas e cicatrizes de um tempo de intolerância. O cinema cubano, tradicionalmente forte, certamente terá um ótimo terreno para florescer. É esperar para ver.

De resto, espero que Cuba encontre um caminho que possibilite continuar com seus avanços sociais e que isso seja compatível com um modelo democrático, porque não? Que deixem que os cubanos digam, nas urnas também, o que querem para o seu futuro.

Tags: censura, cuba, democracia, ditadura, fidel, liberdade

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Ricardo Felipe Ivanoski Comentário de Ricardo Felipe Ivanoski em 29 janeiro 2009 às 2:57
Muito bom, você escreve muito bem!
Diogo Madeira Comentário de Diogo Madeira em 23 setembro 2008 às 14:35
Ótimo texto!

Cinehistória

ABRAÇO PARTIDO

Ariel (Daniel Hendler) é um jovem de vinte e poucos anos, que largou a faculdade e ainda vive às custas da mãe (Adriana Aizemberg). Sua vida gira basicamente em torno de dois locais: a loja de lingeries de sua mãe e o cybercafe local, onde costuma encontrar sua namorada.

Ariel sempre estranhou o fato de nem sua mãe nem seu irmão falarem sobre seu pai, que nos anos 70 partiu para lutar na Guerra do Yom Kippur, em Israel, e nunca mais retornou. Com a crise econômica instalada na Argentina, que força o fechamento de várias lojas tradicionais no bairro onde está a loja de sua mãe, os amigos de Ariel sonham em conseguir a cidadania européia e partir do país em busca de emprego. Ariel também tem este sonho, mas cada vez mais alimenta o desejo de conhecer seu pai e também a verdade sobre seu afastamento da família.

"El Abrazo Partido", filme argentino de 2004 fez bastante sucesso aqui no Brasil. No fundo, sua trama gira em torno de Ariel, que não consegue aceitar o fato do pai tê-lo abandonado para ir lutar na guerra do Yom-Kippur. Essa rejeição à figura paterna também fica explícita no pouco conhecimento que Ariel tem do judaísmo. Face à crise que se abate sobre a economia de seu país, Ariel decide batalhar pelo passaporte polonês (seus avós eram poloneses) e, dessa forma, ter a possibilidade de entrar na Europa e viver com um seguro-desemprego.

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